O preço do pão deve subir a partir de outubro em Portugal, segundo a ACIP — Associação do Comércio e da Indústria de Panificação. A presidente Débora Barbosa adiantou que os custos das matérias-primas, como trigo panificável e leveduras, aumentaram em média 10% desde junho, e que esses aumentos ainda não foram totalmente refletidos no consumidor final. Os preços internacionais do trigo atingiram o nível mais elevado desde 2023 em Chicago, com uma subida de cerca de 37% desde junho, impulsionados pela crise no Mar Negro.
Portugal está particularmente exposto a esses aumentos porque produz apenas cerca de 20% dos cereais que consome e apenas 5% do trigo necessário. A dependência externa de aproximadamente 80% significa que qualquer perturbação nos mercados internacionais afeta diretamente o país. A capacidade nacional de armazenamento é limitada a cerca de 15 dias a três semanas de necessidades, o que deixa pouco margem de manobra. A expansão da irrigação do Alqueva levou muitos agricultores a trocar cereais por culturas mais rentáveis como olival e amendoal.
Além do pão, outros produtos devem ser afetados. Massas, biscoitos e confeitaria utilizam trigo diretamente, enquanto cerveja depende da cevada, da qual Portugal produz apenas 17% das necessidades nacionais. A carne, o leite e os ovos podem ser afetados indiretamente, através do aumento do custo da alimentação animal baseada em milho, cevada e trigo. A guerra no Mar Negro, que dificultou as exportações ukrainianas, e a seca na França, que poderá produzir apenas 6,9 milhões de toneladas de milho em 2026, estão a criar pressão nos mercados europeus.
A estratégia +CEREAIS, coordenada pelo GPP, pretende aumentar o grau de autoaprovisionamento nacional de cereais para 38% em cinco anos. José Palha, presidente da ANPOC, lembra que a dependência portuguesa tem raízes históricas e que a produção nacional enfrenta custos crescentes de combustível, energia e fertilizantes. Economistas citados pela Reuters indicam que choques de preços podem levar de três a seis meses para chegar aos preços finais ao consumidor, o que explica o atraso entre os movimentos nos mercados internacionais e os aumentos nas prateleiras dos supermercados.




