O Funchal não é uma teoria de laboratório, são vivências que existiam e que querem banir, o madeirense é que paga sempre o custo da ilha do turismo massivo e da capital resort?
A
ssistimos a mais um capítulo da higienização mediática das políticas de mobilidade no Funchal. Em grande página, surge o discurso académico a legitimar o desmantelamento da circulação automóvel em prol dos autocarros e do transporte público. A teoria, no papel e no ecrã do computador, é belíssima. Mais uma cópia de fora. Retira-se espaço ao carro privado, ganha-se eficiência coletiva. O problema é que o Funchal não é um laboratório virtual. É uma cidade acidentada, com uma população envelhecida, infraestruturas saturadas e uma realidade social que os gabinetes de planeamento e as narrativas oficiais insistem em ignorar.
A pergunta que ninguém quer fazer no poder local é simples, quem é que está verdadeiramente a descontrolar a mobilidade na capital? Eu respondo, Eduardo Jesus e suas rent-a-cars a metro que não têm números limite, continuam a entrar à grande, tenham coragem de olhar para os carros a circular e a estacionar nesta cidade e identifiquem o problema pelas etiquetas de rent-a-car ou aviso na boca do depósito da gasolina para deitar o combustível certo.
Carlos Rodrigues abordou Eduardo Jesus para mudar a política que está incomportável? Decidiu acabar com a "resortificação" da cidade com hotéis de cidade e Alojamentos Locais sem estacionamento próprio? Tem coragem de enfrentar o lóbi que provoca isto tudo? Hoteleiros, construção e serviços associados? Não! Qual o elo mais fraco? De novo o madeirense.
Acontece assim com o preço e gestão da água, com locais turísticos que também gostamos de visitar, com os estacionamentos tornados parques das rent-a-cars, agora o acesso automóvel aos Funchal, onde, podem escrever, a cidade ficará para carros de rent-a-car na cidade resort e o madeirense vai ser de novo escorraçado da sua capital. Enquanto se desenham corredores BUS e restrições à circulação sob o pretexto da "sustentabilidade", esquece-se o quotidiano real das famílias madeirenses. Como faz um filho que precisa de levar a mãe idosa ou o pai debilitado a uma consulta no centro do Funchal? Onde estão as soluções humanas e pragmáticas, como zonas de Kiss & Ride ou acessos facilitados e protegidos para quem presta cuidados a familiares? Não existem. A resposta da gestão municipal é punitiva, encarecer, dificultar e afastar. Carlos Rodrigues é igual a Eduardo Jesus. O madeirense é, passo a passo, escorraçado da sua própria capital.
Esta forma de governar segue um padrão antigo e bem conhecido na Região: criar o problema através da desregulamentação para depois vender soluções dispendiosas que beneficiam os do costume. É a lógica do "cimento": em vez de se atacarem as causas estruturais, como criar hubs e estações de rent-a-car fora do núcleo urbano com shuttles próprios ligados aos hotéis, prefere-se intervir na via pública com obras (pilaretes), restrições e custos acrescidos para o cidadão comum. Afinal o que foi que descontrolou? As rent-a-car, não os madeirenses!
Não foram os funchalenses nem os madeirenses que, subitamente, decidiram encher as artérias da cidade com milhares de viaturas com o "dinheirão" que ganham desta economia de fazer pobres e mal pagos. O caos do trânsito é o resultado direto de uma estratégia política que escancarou as portas da ilha ao turismo massificado e à pressão imobiliária estrangeira, sem qualquer planeamento de salvaguarda para quem cá vive e trabalha. O resultado está à vista de todos.
As frotas de rent-a-car multiplicaram-se e ocupam o espaço público como se de parques de estacionamento privados se tratasse, enquanto o residente perde continuamente o acesso ao centro.
A pressão turística inflaciona os custos de vida, desde a gestão e preço da água aos parques de estacionamento públicos, transformando o Funchal numa "cidade-resort" feita à medida do visitante de curta duração.
O mais grave neste cenário é a cegueira e a conivência de parte da oposição política, porque vivem também dos mesmos lóbis, acham que ofendê-los retira votos, e depois lá vão visitar os madeirenses que emigraram, que cinismo! Ao alinharem acriticamente com a agenda ideológica do transporte público sem exigirem alternativas reais para a população local, estes partidos tornam-se cúmplices do sentimento de abandono vivida pelos cidadãos. A revolta e o sentimento de injustiça que hoje se sentem nas ruas já não são meras discussões de café ou escaramuças passageiras, são o reflexo de uma população calada, medrosa, mas indignada que vê a sua qualidade de vida ser sacrificada em nome do negócio e da conveniência de terceiros.
Se a oposição continuar a ir na "cantiga" e a ignorar a dor real de quem precisa da cidade para viver, não se surpreendam com o crescimento das forças de rutura e do protesto radical. Ninguém precisa de perguntar como crescem certas dinâmicas políticas. Viram a Alemanha ontem? Elas crescem precisamente aqui, na incapacidade e clientelas dos partidos tradicionais, no descontentamento gerado por decisões que tratam os locais como um obstáculo e a cidade como um mero ativo turístico.
O Funchal precisa de mobilidade inteligente, sim, mas precisa, acima de tudo, de ser uma cidade funcional para os madeirenses. Reparem que os madeirenses estão a ser o acessório e o turismo o primordial. Antes de se fechar a capital a quem lá trabalha e cuida dos seus, exige-se coragem para regular quem verdadeiramente descompensou o sistema.
Nota: vão acabar de vez com o comércio tradicional e ficará todo tipo de gente de fora que vende o que o turista quer, as grandes superfícies ganham em comodidade. É assim que se "resortifica".





