Canadians are actively boycotting the United States in response to Donald Trump's trade policy and statements. The phenomenon manifests itself in several dimensions: from choosing Canadian-made products over American brands, to using apps to identify the origin of goods before purchasing them. According to a report by The Guardian based on more than 3,500 responses, Canadian consumers are avoiding American technology services, entertainment platforms, automobiles, alcoholic beverages, and airlines, with many willing to pay more and make greater efforts to avoid purchasing American products.
Tourism data confirms the scale of the phenomenon. According to Statistics Canada, trips by Canadian residents to the United States fell 23.5% in 2025, representing approximately 7.1 million fewer trips than in 2024. Simultaneously, trips to international destinations outside the US increased 10.2%, while domestic travel within Canada also grew. This trend continued into 2026, with February recording the 14th consecutive year-on-year decline, though April showed a slight recovery of 1.8%.
The boycott movement comes at a time when the Mark Carney government is shifting the country's economic strategy. Dependence on the United States has become an obvious vulnerability, especially since approximately 90% of Canadian oil exports go to the United States. Ottawa is accelerating plans to find new markets and strengthen connections to Asia through expanded export capacity on the west coast. Ottawa responded to the 50% US tariffs on approximately $20 billion of Canadian products with countermeasures covering approximately 700 products, taking effect on September 8th.
The critical question is whether the boycott will outlast the current political crisis. Evidence suggests some behavioral shifts may persist, as consumers who've found Canadian alternatives, domestic vacation spots, or European and Mexican options might not revert to previous purchasing patterns. However, responses vary considerably—while many maintain the boycott, others still travel, shop, and conduct business with the United States. The border between the two nations, once among the busiest in the Western world, is undergoing a transformation that

A relação entre o Canadá e os Estados Unidos está a atravessar uma transformação que não se mede apenas pelas tarifas ou pelas negociações entre os dois governos. Também se sente nos supermercados, nas agências de viagens e nas escolhas quotidianas dos consumidores.
Cada vez mais canadianos estão a procurar alternativas aos produtos e serviços norte-americanos, numa reacção à política comercial e às declarações de Donald Trump. A dimensão do fenómeno é difícil de medir apenas através das vendas, mas há um indicador particularmente claro: os canadianos estão a viajar menos para os Estados Unidos e a escolher outros destinos.
Dados do Statistics Canada mostram que, em 2025, as viagens de residentes canadianos aos Estados Unidos caíram 23,5%, uma redução de cerca de 7,1 milhões de deslocações face a 2024. Ao mesmo tempo, as viagens para destinos internacionais fora dos EUA aumentaram 10,2%, enquanto as deslocações dentro do próprio Canadá também cresceram.
A mudança prolongou-se em 2026. Em Fevereiro, os canadianos fizeram 2 milhões de viagens de regresso dos Estados Unidos, menos 12,5% do que no mesmo mês do ano anterior e a 14.ª queda consecutiva em termos homólogos.
O consumidor transformou-se numa arma comercial
É neste contexto que ganha importância o movimento de boicote aos produtos norte-americanos. O The Guardian, que publicou este sábado uma reportagem baseada em mais de 3.500 respostas de canadianos, encontrou uma alteração significativa nos hábitos de consumo. Há consumidores que procuram deliberadamente produtos fabricados no Canadá, evitam marcas norte-americanas e recorrem a aplicações para identificar a origem dos bens antes de os colocarem no carrinho de compras.
A lista vai muito além da alimentação. Segundo os testemunhos recolhidos pelo jornal britânico, há canadianos a evitar determinados serviços tecnológicos, plataformas de entretenimento, automóveis, bebidas alcoólicas e companhias aéreas dos Estados Unidos.
O turismo é, contudo, um dos sectores onde a mudança pode ser mais facilmente quantificada. Para os Estados Unidos, a perda de milhões de visitantes canadianos representa menos noites em hotéis, menos refeições em restaurantes, menos combustível comprado junto à fronteira e menos dinheiro gasto em comércio e entretenimento.
Um relatório do Statistics Canada conclui que a quebra das viagens para os EUA foi praticamente compensada pelo aumento das viagens domésticas e para destinos internacionais. Ou seja, parte do dinheiro que anteriormente atravessava a fronteira passou a ser gasto no Canadá ou noutros países.
Do “compre canadiano” à diversificação económica
O boicote popular coincide com uma mudança mais profunda na estratégia económica do Governo de Mark Carney. A dependência dos Estados Unidos tornou-se uma vulnerabilidade evidente à medida que a guerra comercial se intensificou. Washington continua a ser o principal mercado externo do Canadá, incluindo para sectores estratégicos como a energia.
A Reuters noticiou esta semana que cerca de 90% das exportações canadianas de petróleo têm como destino os Estados Unidos. A pressão criada pelo conflito comercial está a acelerar os planos de Ottawa para encontrar novos mercados e reforçar as ligações do país à Ásia através da expansão da capacidade de exportação na costa oeste.
É uma mudança que vai muito além do consumidor que escolhe uma cerveja canadiana em vez de uma americana. O Canadá está a começar a questionar uma dependência económica construída durante décadas.
A fatura chega aos dois lados da fronteira
A ironia da guerra comercial é que a interdependência entre as duas economias torna difícil impor custos apenas ao adversário. Esta semana, os Estados Unidos avançaram com uma tarifa de 50% sobre cerca de 20 mil milhões de dólares de produtos canadianos. Ottawa respondeu com novas tarifas sobre produtos norte-americanos, com as contramedidas a abranger cerca de 700 produtos e a entrar em vigor a 8 de Setembro. O efeito pode chegar directamente aos consumidores.
Empresas americanas dependentes de matérias-primas canadianas podem enfrentar custos mais elevados, enquanto fabricantes canadianos procuram mercados alternativos para reduzir a exposição aos Estados Unidos. A questão é especialmente relevante porque as cadeias de abastecimento dos dois países estão profundamente integradas. Automóveis, energia, metais, produtos agrícolas e bens industriais atravessam a fronteira várias vezes antes de chegarem ao consumidor final. Uma tarifa aplicada num ponto da cadeia pode, por isso, acabar por aumentar os custos do outro lado da fronteira.
Um movimento que pode sobreviver a Trump
A grande incógnita é saber se o boicote desaparecerá quando a actual crise política terminar. Há razões para acreditar que parte da mudança de comportamento poderá ser mais duradoura.
Uma pessoa que tenha encontrado um produto canadiano de que gosta, tenha passado a fazer férias no próprio país ou descoberto um destino europeu ou mexicano em alternativa aos Estados Unidos pode não regressar automaticamente aos hábitos anteriores.
Os dados turísticos sugerem precisamente que alguma dessa procura já está a ser redireccionada. Em 2025, enquanto as viagens aos Estados Unidos diminuíram fortemente, as viagens dos canadianos para outros destinos internacionais aumentaram. Mas há também sinais de que o fenómeno não deve ser interpretado como uma rejeição absoluta dos Estados Unidos.
Em Abril de 2026, por exemplo, as viagens de canadianos aos EUA aumentaram 1,8% em relação ao mesmo mês de 2025, a primeira subida homóloga desde Janeiro de 2025.
Isto significa que o comportamento dos consumidores não é uniforme. Há quem mantenha as viagens, as compras e as relações comerciais com os Estados Unidos, enquanto outros passaram a evitá-las por razões políticas.
Uma fronteira que deixou de ser apenas económica
Durante décadas, a fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos foi uma das mais movimentadas do mundo ocidental e, para milhões de pessoas, atravessá-la era uma rotina.
A actual disputa está a alterar essa normalidade. O que começou com tarifas e ameaças políticas transformou-se numa discussão sobre identidade económica: o que comprar, onde investir, onde passar férias e até que empresas apoiar. O The Guardian encontrou canadianos dispostos a pagar mais e a fazer maiores esforços para evitar produtos norte-americanos.
Ao mesmo tempo, os dados oficiais mostram que a redução das viagens aos Estados Unidos já atingiu uma dimensão de milhões de deslocações. É por isso que o fenómeno merece ser observado além da política.
Donald Trump pode ter iniciado a actual guerra comercial com tarifas. Mas, no Canadá, uma parte dos consumidores respondeu com outra arma: deixar de comprar, viajar e gastar dinheiro nos Estados Unidos. E essa é uma decisão que Washington não consegue alterar através de uma ordem presidencial.