O aparecimento de peixes, caranguejos e aves mortas na ribeira de Alcantarilha, em Silves, levou um grupo de associações ambientalistas a reclamar a criação urgente da Reserva Natural da Lagoa dos Salgados. As organizações defendem que a classificação, de âmbito nacional, permitiria prevenir situações semelhantes e gerir de forma integrada as zonas húmidas, dunas e áreas agrícolas envolventes.
Num comunicado citado pela Lusa, o grupo alerta que, sem esse estatuto, a “Lagoa dos Salgados continuará desprotegida”. Entre as aves encontradas mortas, as associações referem “espécies protegidas como colhereiros, íbis-pretas, garças e patos”.
As organizações relacionam a ocorrência com os baixos níveis de oxigénio na água e as temperaturas elevadas, lembrando que episódios semelhantes têm sido registados em zonas húmidas próximas.
Associações criticam gestão limitada a emergências
“Mais uma vez, perante temperaturas elevadas e baixos níveis de água, assistimos às consequências da falta de uma gestão proativa de um dos mais importantes sistemas húmidos no litoral algarvio”, afirmam.
Para o grupo, o sucedido na ribeira de Alcantarilha constitui mais um alerta para a necessidade de uma resposta conjunta, em vez de intervenções isoladas.
“Estas situações são o resultado de uma gestão reativa, que se tem limitado a intervenções pontuais para resolver emergências, pelo que é necessária uma mudança de abordagem focada na prevenção e na gestão proativa para o bom estado de preservação destes ecossistemas”, sustenta o comunicado.
As associações defendem que uma reserva natural permite uma “abordagem de proteção integrada”, considerando essencial olhar para as zonas húmidas, as dunas e as áreas agrícolas como partes de um mesmo sistema.
Reserva abrangeria mais de 400 hectares
A área proposta tem mais de 400 hectares e estende-se da ribeira de Alcantarilha, no concelho de Silves, a poente, até à Lagoa dos Salgados, na ribeira de Espiche, no concelho de Albufeira, a nascente. Inclui também o sistema dunar e as áreas agrícolas envolventes.
O projeto esteve em consulta pública entre dezembro de 2021 e janeiro de 2022, tendo recebido “mais de 800 participações” e um “amplo apoio de cidadãos, organizações ambientais, empresas e entidades nacionais e internacionais”, recorda o grupo.
“Quatro anos à espera da criação da Reserva Natural da Lagoa dos Salgados”, lamentam as organizações, que dizem ter sido prometida a classificação há quatro anos.
“A classificação como Reserva Natural de âmbito nacional foi então considerada a tipologia adequada precisamente pela relevância dos valores naturais presentes, cuja importância não se limita à região algarvia”, argumentam.
Estatuto não eliminaria todos os riscos
As associações reconhecem que a classificação não seria suficiente para evitar todos os problemas, mas defendem que daria instrumentos para antecipar riscos e acompanhar o estado destes ecossistemas.
“A classificação como Reserva Natural não impediria, por si só, todos os fenómenos associados a períodos de seca, temperaturas extremas ou baixos níveis de oxigénio. Mas permitiria fazer aquilo que hoje continua a faltar: prevenir, monitorizar e gerir o sistema como um todo”, sublinham.
O apelo reúne A Rocha, Almargem – Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental do Algarve, WWF Portugal, Associação Vita Nativa – Conservação do Ambiente, Liga para a Proteção da Natureza, Quercus, Sociedade Portuguesa de Botânica, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves e ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável.
A.Pinto / HDF
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