Nunca fomos tão "vistos". A psicologia atingiu um nível de popularidade sem precedentes: fala-se de saúde mental em programas de entretenimento, em anúncios de marcas de roupa, e conceitos clínicos como trauma, vinculação ou diagnósticos como PHDA e Autismo entraram no vocabulário comum. Contudo, a autora identifica um paradoxo central: nunca a psicologia foi tão procurada e, simultaneamente, tão mal compreendida. A popularidade trouxe consigo efeitos secundários, como a perda de precisão dos conceitos clínicos, que passam a explicar tudo e, por isso mesmo, arriscam-se a explicar pouco.
Há duas décadas, admitir que se ia ao psicólogo exigia uma justificação que ninguém pedia ao dentista. Hoje, a terapia ganhou naturalidade comparável à de uma ida ao ginásio, o que a autora considera uma vitória conquistada ao longo de décadas de trabalho silencioso. No entanto, quando conceitos clínicos saem do consultório, ganham alcance mas perdem nuance: um dia mau pode transformar-se em "burnout", uma tristeza passageira torna-se sintoma a tratar, e uma discordância pode parecer "abuso emocional". A autora alerta que desmistificar a psicologia não deveria significar torná-la semelhante a uma conversa entre amigos.
A promessa de rapidez que domina a sociedade atual torna-se traiçoeira quando aplicada à mudança psicológica. A autora sublinha que eficácia não é o mesmo que instantaneidade, e que o tempo em terapia não é um obstáculo burocrático, mas frequentemente o próprio mecanismo de mudança. É necessário tempo para que padrões se tornem visíveis antes de mutáveis, para que a confiança na relação terapêutica se consolide, e para que o alívio inicial se transforme em mudança duradoura. Confundir alívio com mudança é descrito como o erro mais caro da profissão.
A visibilidade que a psicologia ganhou é apresentada como uma revolta legítima contra décadas de silêncio e vergonha, e muitos profissionais que partilham conhecimento publicamente fazem-no com genuína competência. Contudo, a autora inclui-se na reflexão ao admitir que a linha entre desmistificar e performar nem sempre é nítida, e que uma plateia muda quem fala perante ela. A autora conclui que o consultório continua a ser um dos poucos espaços concebidos deliberadamente para o oposto do que caracteriza o mundo exterior: não para ser visto, mas para ser conhecido, não para ser rápido, mas para ter o tempo que for preciso. A reflexão é escrita por uma psicóloga clínica e cofundadora da clínica O Teu Lugar, dedicada ao Dia do Psicólogo.




