Uma tartaruga de 300 quilos pode ajudar a salvar outras no futuroFoto de Larissa G. no Pexels
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Uma tartaruga de 300 quilos pode ajudar a salvar outras no futuro

Wilder28 de agosto de 2026 às 11:38

A tartaruga-de-couro "Quinas", resgatada em 2019 no Algarve após ficar enredada em redes de pesca, foi tema de um estudo científico publicado na revista Chelonian Conservation and Biology. O animal, com cerca de 300 quilos, passou 48 dias em reabilitação no Porto d'Abrigo do Zoomarine, onde uma equipa adaptou continuamente o protocolo de tratamento com base na observação e em articulação com especialistas internacionais. Após a devolução ao mar em agosto de 2019, foi equipado com um transmissor de satélite que confirmou o regresso a um comportamento migratório normal. O conhecimento adquirido neste caso está agora a ser aplicado na reabilitação de outra tartaruga marinha. A tartaruga-de-couro está classificada como Vulnerável na Lista Vermelha da UICN, e o seu papel nos ecossistemas marinhos inclui o controlo biológico de medusas tóxicas.

A reabilitação de uma tartaruga-de-couro encontrada enredada em artes de pesca no Algarve foi agora transformada num estudo científico. O caso de Quinas, devolvida ao mar em 2019, permitiu saber mais sobre esta espécie Vulnerável e a experiência conseguida já está a ser usada para recuperar outra tartaruga marinha.

Um estudo publicado em junho na revista Chelonian Conservation and Biology descreve em detalhe a reabilitação de Quinas, uma tartaruga-de-couro adulta (Dermochelys coriacea) com cerca de 300 quilos, encontrada enredada em artes de pesca ao largo da costa algarvia em junho de 2019.

No artigo científico, os autores descrevem os desafios encontrados durante a recuperação, as adaptações feitas pela equipa e a resposta do animal depois de regressar ao oceano.

A tartaruga-de-couro é uma espécie migradora que passa grande parte da sua vida em mar aberto. As suas características e dimensões tornam particularmente exigente mantê-la e tratá-la em contexto de reabilitação. Por isso, segundo os autores, não foi possível simplesmente aplicar um protocolo rígido: as decisões foram sendo tomadas com base na observação do animal e em articulação com especialistas internacionais.

A 20 de junho de 2019, um macho com cerca de 300 quilos e 1,5 metros de comprimento, foi resgatado e transportado para o Porto d’Abrigo do Zoomarine, um centro de reabilitação de animais marinhos em Albufeira, Algarve. Esteve enredado em artes de pesca, o que o deixou com feridas.

Os riscos para a sua saúde eram vários e podiam ser fatais, como infecções devido aos ferimentos e cortes que sofreu, septicemia e pneumonia por aspiração de água do mar.

Quinas ficou 48 dias no Porto d’Abrigo do Zoomarine. Fomos chamados a prestar apoio a um animal numa situação absolutamente excecional”, lembra, em comunicado, João Neves, diretor de conservação do Zoomarine. “E foi isso que fizemos. Desde o primeiro dia, cada decisão foi ajustada à evolução clínica e comportamental do Quinas, sempre em articulação com especialistas internacionais.”

O estudo agora publicado regista todo o processo, incluindo os desafios, as adaptações feitas e o que se aprendeu durante a intervenção. Os autores esperam que este caso forneça informação relevante para apoiar futuras equipas confrontadas com a necessidade de reabilitar animais desta espécie.

O teste decisivo aconteceu no oceano

Antes da devolução ao mar, que aconteceu a 7 de agosto de 2019 a 10 milhas náuticas a sul de Portimão, a tartaruga-de-couro foi equipada com um transmissor de satélite, permitindo acompanhar os seus movimentos depois do regresso ao habitat natural.

Nos 20 dias seguintes, percorreu 1283 quilómetros em direcção às Ilhas Canárias, a uma média de cerca de 64 quilómetros por dia. De acordo com o estudo, os movimentos observados eram compatíveis com um comportamento migratório normal e indicaram que o período de reabilitação não tinha comprometido a capacidade do animal para retomar a vida no oceano.

Uma das consequências mais concretas da experiência com Quinas está a acontecer agora, no mesmo Porto d’Abrigo.

Molly, uma tartaruga-comum (Caretta caretta) adulta com cerca de 120 quilos, proveniente do Dingle Oceanworld Aquarium, na Irlanda, encontra-se actualmente em reabilitação e a ser acompanhada com vista a uma futura devolução ao mar.

O processo está a ser conduzido pela mesma equipa e com recurso à técnica aplicada no caso do Quinas, dando continuidade ao conhecimento e à experiência dessa intervenção.

Criado em 2002, o Porto d’Abrigo foi o primeiro centro de reabilitação de espécies marinhas em Portugal. Em colaboração com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), registou 742 intervenções até ao final de 2025, incluindo 448 animais admitidos para reabilitação.

Actualmente, a tartaruga-de-couro está classificada como Vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional de Conservação da Natureza (UICN). Isto por várias razões, desde o aumento das temperaturas, subida do nível do mar e erosão das praias à sobre-exploração dos ovos nas praias pelas comunidades locais.

Um exemplo da importância da tartaruga-de-couro nos ecossistemas marinhos é o seu consumo especializado em medusas tóxicas, actuando como um controlo biológico muito eficaz. O desaparecimento destas tartarugas poderia ter efeitos devastadores no impacto de proliferações massivas de medusas tóxicas, acreditam os especialistas.

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