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China quer guardar o ouro do mundo para reforçar Yuan

Jornal Económico7 de setembro de 2026 às 12:32

A China está construindo uma infraestrutura financeira para o ouro com Hong Kong como centro da estratégia, com o objetivo de transformar a Ásia num grande polo mundial do metal precioso e reforçar o papel internacional do yuan. A Shanghai Gold Exchange abriu em Hong Kong o seu primeiro cofre de entrega física de ouro fora da China continental, e a cidade pretende aumentar sua capacidade de armazenamento para mais de 2.000 toneladas até 2030. A estratégia inclui o desenvolvimento de uma rede global de cofres que poderá permitir a países dos BRICS e outros mercados emergentes negociar ouro em yuan, oferecendo uma alternativa parcial ao circuito dólar-Londres-Nova York. A China também está acumulando ouro há 21 meses consecutivos, elevando suas reservas para cerca de 2.366 toneladas, e a infraestrutura criada poderá permitir que o ouro se torne numa ponte para a internacional

A nova corrida ao ouro não acontece apenas nas minas. Está também a acontecer nos cofres. A China está a construir uma infraestrutura que lhe permita receber, armazenar, negociar e liquidar ouro, com Hong Kong no centro da estratégia. O objetivo é ambicioso: fazer da Ásia um novo grande centro mundial do ouro e, ao mesmo tempo, aumentar o papel internacional do yuan.

Em junho de 2025, a Shanghai Gold Exchange abriu em Hong Kong o seu primeiro cofre de entrega física de ouro fora da China continental, operado pelo Bank of China (Hong Kong). Segundo a própria bolsa chinesa, a instalação criou uma ligação física entre os mercados de ouro de Xangai e Hong Kong e permite a liquidação de ouro em renminbi.

Em julho deste ano, Hong Kong deu outro passo ao lançar um sistema central de compensação de ouro. De acordo com a Reuters, a cidade pretende ainda aumentar a sua capacidade de armazenamento para mais de 2.000 toneladas até 2030 e criar uma ligação física entre os mercados de Hong Kong e Xangai.

A dimensão da aposta está a aumentar. Segundo a KPMG, Hong Kong está a tentar construir uma cadeia completa de valor do ouro, desde a entrada e refinação do metal até ao armazenamento, compensação e negociação. A cidade pretende aproveitar a sua ligação à China continental e aos mercados asiáticos para se transformar num grande centro regional.

A Rússia já encontrou a porta

A Rússia é o caso mais evidente de ouro a entrar neste circuito. Segundo o Financial Times, Hong Kong importou quase 100 toneladas de ouro russo nos primeiros sete meses de 2026, quase três vezes mais do que no mesmo período do ano anterior. Desde 2022, entidades de Hong Kong terão comprado cerca de 35 mil milhões de dólares de ouro russo, uma parte significativa do qual acaba por chegar à China continental.

A explicação está nas sanções ocidentais. Depois de Londres ter fechado o mercado ao ouro russo na sequência da invasão da Ucrânia, os produtores russos passaram a procurar compradores na Ásia. Segundo o Financial Times, Hong Kong, que não aplica as mesmas restrições, tornou-se uma das principais portas de entrada desse ouro na região.

Isto não significa que a Rússia esteja a transferir as suas reservas oficiais para a China. Trata-se sobretudo de ouro comercial russo. Mas o percurso é revelador: Rússia, Hong Kong e China continental estão cada vez mais ligados por um circuito de ouro que escapa aos tradicionais centros ocidentais.

E os BRICS?

É aqui que a estratégia chinesa pode ganhar outra dimensão. Segundo uma análise publicada pelo analista Vincent Lanci, da GoldFix, e posteriormente retomada por outras publicações, Pequim está a desenvolver uma rede global de cofres de ouro, com possíveis localizações em países e centros ligados à sua estratégia internacional. A proposta foi apresentada no contexto dos BRICS e prevê uma expansão por regiões como o Médio Oriente, Sudeste Asiático e África.

A possibilidade interessa particularmente aos países emergentes e aos BRICS, mas é importante não transformar uma estratégia numa realidade já consumada. Não há confirmação pública de que Brasil, Índia, África do Sul, Arábia Saudita ou Emirados Árabes Unidos tenham transferido as suas reservas oficiais para cofres chineses. O que existe é uma infraestrutura que Pequim está a criar para lhes oferecer essa possibilidade.

A ideia é, contudo, mais ampla. Segundo o South China Morning Post, que cita um relatório da S&P Global, a China está a desenvolver uma rede internacional de cofres que poderá apoiar a negociação de ouro em yuan e permitir uma maior ligação entre o metal físico e a moeda chinesa.

O país não precisa de vender o ouro

A estratégia chinesa torna-se particularmente interessante porque Pequim não precisa de comprar o ouro dos outros países. Um banco central pode continuar a ser proprietário das suas barras e simplesmente decidir guardá-las numa localização diferente. Se essa localização for Hong Kong, por exemplo, o ouro continua a pertencer ao país de origem, mas passa a estar integrado numa infraestrutura financeira chinesa.

É precisamente esta possibilidade que o jornal Cinco Días descreveu em setembro de 2025. Segundo o jornal espanhol, a China estava a apresentar-se como potencial custodiante das reservas de ouro de outros países, tendo já despertado o interesse de pelo menos um país do Sudeste Asiático.

A diferença parece pequena, mas economicamente não é. Quem guarda o ouro pode também fornecer armazenamento, seguros, financiamento, transporte, liquidação e serviços de negociação. É como ter um aeroporto: não é necessário ser dono de todos os aviões para ganhar dinheiro com o tráfego.

Pequim também está a trazer ouro para Hong Kong

A China não está apenas à espera dos outros. Segundo a Reuters Breakingviews, Pequim está a reforçar o papel de Hong Kong no mercado mundial de ouro e o Banco Popular da China tem vindo a deslocar parte das suas reservas de ouro de Londres para Hong Kong. A cidade tinha menos de 200 toneladas de capacidade de armazenamento, mas pretende multiplicá-la por dez até 2030.

A medida faz sentido no contexto da nova infraestrutura. Um mercado de ouro precisa de ouro físico. Parece uma conclusão pouco revolucionária, mas é precisamente aqui que está uma das vantagens de Londres: segundo a Reuters, os cofres londrinos armazenavam 9.464 toneladas de ouro no final de junho, enquanto Hong Kong continuava muito abaixo desse nível.

Pequim tem, portanto, bastante trabalho pela frente. A boa notícia é que os chineses parecem gostar de obras de grande dimensão.

A China também está a comprar

Enquanto procura guardar o ouro dos outros, Pequim acumula o seu. Segundo dados divulgados pelo World Gold Council e reportados pela Financial Express, a China acrescentou 20 toneladas em julho, elevando as reservas oficiais para cerca de 2.366 toneladas e prolongando para 21 meses consecutivos a sequência de compras.

O ouro representa cerca de 8% das reservas oficiais chinesas. E a tendência não é exclusivamente chinesa: os bancos centrais de vários países continuam a comprar ouro como forma de diversificar reservas e reduzir a exposição a ativos denominados em dólares. De acordo com a mesma fonte, citando dados do World Gold Council, o ouro representava cerca de 27% das reservas oficiais globais no final de 2025, ultrapassando o peso dos Treasuries norte-americanos.

A razão ganhou força depois de 2022, quando cerca de 300 mil milhões de dólares de reservas russas foram congelados pelo Ocidente. Para muitos bancos centrais, a mensagem foi clara: uma reserva pode ser líquida e valiosa, mas continua sujeita à jurisdição onde está guardada. O ouro tem uma vantagem diferente: não é uma dívida de outro Estado.

A verdadeira corrida é pelo yuan

Para a China, contudo, o ouro é apenas metade da história. A outra metade é a moeda.

Segundo a S&P Global, a China está a desenvolver uma rede global de cofres destinada a apoiar a negociação de ouro em yuan e a permitir uma maior ligação entre a moeda chinesa e o ouro armazenado nessas instalações. A lógica é criar uma rede internacional que permita negociar e custodiar ouro fora do circuito financeiro dominado pelo dólar.

A estratégia ajuda a explicar por que razão Hong Kong é tão importante. A cidade funciona como ponte entre o mercado financeiro internacional e a China continental. A Shanghai Gold Exchange fornece a infraestrutura de negociação; Hong Kong fornece uma plataforma internacional; e o yuan fornece a moeda. O ouro faz o resto.

É também por isso que a China está interessada em países dos BRICS e noutros mercados emergentes. Se um país vender petróleo à China, receber yuan e puder converter esse yuan em ouro através de uma rede de cofres próxima, passa a ter uma alternativa — ainda que parcial — ao circuito dólar-Londres-Nova Iorque.

Não é uma nova moeda mundial. Não é sequer, para já, uma ameaça imediata ao dólar. É uma segunda estrada. E Pequim está a construí-la.

Londres ainda está muito à frente

Convém não exagerar a dimensão da mudança. Segundo a Reuters Breakingviews, Londres e Nova Iorque continuam a movimentar cerca de cinco vezes mais ouro do que Hong Kong e os novos centros asiáticos. A China não está, portanto, prestes a destronar Londres. Está a construir uma alternativa.

A Ásia representa uma parcela enorme da procura mundial de ouro e a China é simultaneamente um dos maiores produtores, consumidores e importadores do metal. Segundo o Financial Times, Hong Kong está precisamente a tentar aproveitar essa vantagem geográfica e comercial para captar uma parte maior da liquidação e armazenamento do ouro asiático.

Se conseguir fazê-lo, o yuan ganha uma utilidade adicional: passa a estar cada vez mais ligado a um mercado de um ativo que os bancos centrais querem ter. E essa ligação vale mais do que parece.

O ouro como infraestrutura monetária

É talvez esta a parte mais importante da estratégia chinesa. Durante décadas, o ouro foi tratado sobretudo como uma reserva de valor. Agora, Pequim está a tentar transformá-lo também numa peça de infraestrutura financeira.

A ideia é juntar cofres, bolsas, liquidação física, financiamento, comércio internacional e yuan. A rede de parceiros poderá incluir países dos BRICS e outros Estados interessados em diversificar as suas reservas, mas ainda não existe uma transferência generalizada de reservas oficiais para a China.

O que existe é uma infraestrutura em construção. A Rússia já utiliza Hong Kong como uma das principais portas de saída do seu ouro. A China está a aumentar as suas reservas e a colocar mais metal em Hong Kong. A cidade está a construir capacidade de armazenamento e compensação. E análises sobre a estratégia dos BRICS apontam para a criação de uma rede internacional de cofres associados ao sistema chinês.

Tudo isto tem uma consequência potencialmente importante: o ouro pode tornar-se uma das pontes através das quais o yuan ganha dimensão internacional. Pequim não precisa de comprar todo o ouro do mundo. Basta-lhe conseguir que uma parte cada vez maior do ouro do mundo passe pelos seus cofres, pelas suas bolsas e, sobretudo, pelo seu yuan.

Afinal, na nova corrida ao ouro, não basta ter a barra. Também dá jeito ter o cofre.

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