Uma roulotte de venda de pão localizada em Alvalade, Lisboa, junto à rua Afonso Lopes Vieira e avenida da Igreja, está em risco de desaparecer. O negócio é gerido por Lurdes Nascimento, de 80 anos, e pela sua filha Fernanda, que mantêm uma padaria tradicional a serviço do bairro há quase cinco décadas. A roulotte oferece pães tradicionais como "maminhas e carcacinhas", além de pães de Trancoso, Mafra e Alentejo, bolos e entregas em domicílio para clientes como creches, restaurantes e a Igreja do Campo Grande.
A história da roulotte remonta a 1979, quando Lurdes conseguiu finalmente regularizar-se na Junta de Freguesia. Antes disso, vendia pão pelas ruas de Alvalade num triciclo com uma alcofa, depois num antigo Mini, enfrentando fiscalização e multas por falta de licença. Nascida em Trancoso em 1946, Lurdes chegou a Lisboa já adulta, viveu em Angola entre 1968 e 1973, e regressou sozinha com a filha Fernanda, tendo que se virar trabalhando na limpeza de casas e na venda ambulante de pão. Uma vizinha a ajudaria depois a obter a licença e, em troca da solidariedade recebida, Lurdes acabou por comprar o apartamento dessa mesma vizinha.
O negócio enfrenta atualmente dificuldades financeiras significativas. Fernanda critica a proliferação de supermercados na zona, que vendem de tudo, incluindo pão, flores e medicamentos, reduzindo a clientela dos estabelecimentos tradicionais. A renda mensal de 410 euros paga à Junta de Freguesia pelo espaço na calçada pesa no orçamento, e as vendas já não justificam a abertura da roulotte também à tarde. A maioria dos clientes atuais são pessoas idosas, já que os jovens quase não compram pão.
A maior ameaça, porém, é a falta de sucessores. Fernanda tem 60 anos e se aproxima da aposentadoria, mas os seus dois filhos estudaram e não manifestam interesse em dar continuidade ao negócio, assim como os seus irmãos, que trabalham em outras áreas mais atrativas. Com o declínio das vendas e sem herdeiros dispostos a continuar, o fechamento da roulotte pode ser inevitável, representando a perda de um comércio histórico que alimentou não apenas pão, mas também o espírito de comunidade e a solidariedade entre vizinhos de Alvalade.




