Free People, the 'journalism' without "modern censorship"Photo by michelle guimarães on Pexels
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Free People, the 'journalism' without "modern censorship"

Eco28 August 2026 at 06:56

The Portuguese Prime Minister, Luís Montenegro, has been since he took office one of the most critical politicians regarding the work of media outlets. During the 2025 electoral campaign, he accused the media of promoting disinformation and manipulation of facts in the context of news about Spinumviva. In August, at the Pontal Festival, he again criticized what he classified as a "kind of modern censorship" and the attention given to controversies and minor incidents at the expense of what he considers more relevant. The journalists contacted by ECO/+M chose not to comment on the Prime Minister's words.

The article contrasts Montenegro's criticism of the media with the official publication of the PSD, the party he leads, Povo Livre. This is a doctrinal publication registered with the Regulatory Authority for the Media (ERC) and directed by Emília Santos since July 2022. The newspaper has existed since 1974 and accompanies the party's history, now being a weekly digital publication. Since Montenegro took office for the second time, in June 2025, of the 55 issues of the newspaper, 52 are led by the Prime Minister, representing 94.5% of the covers.

The communication specialists contacted by ECO/+M consider that Montenegro's criticism of the media reveals failures in his communication strategy. Rodrigo Viana de Freitas, CEO of Central de Informação, states that "if the Prime Minister believes the Government's action should have more positive media coverage, then something is failing in how it's communicating." João Tocha, CEO of F5C, believes Montenegro "chose the wrong angle, as he has no editorial direction or management functions to determine what journalists should cover." Both argue that the media's role is to scrutinize the Government, not to praise it.

João Tocha argues that the status of partisan newspapers should be better clarified to separate journalistic activity from the dissemination of propaganda. He emphasizes that in doctrinal press, "objectivity, the right of reply, verification of sources, and news value are replaced by the political and electoral value of the disseminated content." Rodrigo Viana de Freitas considers that Povo Livre "can be more interesting, despite being partisan" if it includes information about political decisions, in-depth interviews, and diversity of protagonists, but warns that "the truth is that the temptation to showcase work usually prevails and the 'journalistic' interest ends up being lost."


Luís Montenegro tem sido, desde que assumiu as funções de primeiro-ministro, um dos políticos mais críticos da forma como os órgãos de comunicação social fazem o seu trabalho. Em outubro de 2024, na apresentação do Plano de Ação Para a Comunicação Social, defendeu um jornalismo “mais tranquilo, menos ofegante” e criticou o que chamou de “perguntas sopradas” aos jornalistas.

Durante a campanha eleitoral de 2025, no contexto das notícias sobre a Spinumviva, acusou os órgãos de comunicação social de promover “desinformação e manipulação de factos”. E, este mês, na Festa do Pontal, faz esta sexta-feira duas semanas, voltou ao tema, criticando aquilo que classificou como uma “espécie de censura moderna” e a atenção dada às polémicas, aos pequenos incidentes e aos episódios, em detrimento do que considera ser mais relevante.

Os jornalistas contactados pelo ECO/+M para este artigo optaram por não comentar as palavras do primeiro-ministro, mas dois responsáveis de agências de comunicação não se furtam à análise, em muito coincidente.

Se o primeiro-ministro acha que a ação do Governo deveria ter mais impacto positivo nos media, então algo está a falhar na forma como está a comunicar. E também na capacidade de gestão das sucessivas crises comunicacionais que têm atingido este Executivo.

Rodrigo Viana de Freitas

CEO da Central de Informação

Ora, “todos sabemos que o papel dos media não é valorizar a ação do Governo, mas sim escrutiná-la“, começa por referir Rodrigo Viana de Feitas, CEO da Central de Informação. Ao criticar a comunicação social, defende o consultor, Luís Montenegro não está mais do que “a assumir a fragilidade e ineficiência da sua estratégia de comunicação”.

“Se o primeiro-ministro acha que a ação do Governo deveria ter mais impacto positivo nos media, então algo está a falhar na forma como está a comunicar. E também na capacidade de gestão das sucessivas crises comunicacionais que têm atingido este Executivo”, prossegue o consultor.

Já na opinião de João Tocha, Luís Montenegro, como qualquer outro dirigente partidário ou governante, tem toda a legitimidade para tecer críticas aos órgãos de comunicação social. “São uma tática da agenda política procurar condicionar e influenciar a agenda mediática”, concretiza o especialista em comunicação estratégica e marketing político, na opinião de quem, salvo em casos de erros graves e atentados à verdade cometidos por um jornalista, que requerem desmentidos, “a tática não produz nenhum ganho de simpatia e eleitoral”.

“É mais um tópico de discurso para aquecer as hostes. Neste caso, Montenegro escolheu o ângulo errado, pois não tem funções de direção e edição editorial para escolher o que devem tratar os jornalistas, que temas têm valor notícia e qual a relevância que têm”, resume o CEO da First Five Consulting (F5C).

No extremo dos órgãos de comunicação social que não parecem agradar aos primeiro-ministro, surge um título no qual Montenegro é a figura central. Não se trata de um jornal informativo, mas do Povo Livre, a publicação oficial do PSD, partido de que é presidente. Ou seja, apesar de registado na ERC e de ter diretor – Emília Santos – , trata-se, como prevê a Lei de Imprensa, de uma publicação doutrinária. É então, por definição, um título que pelo conteúdo ou perspetiva de abordagem, visa predominantemente divulgar qualquer ideologia ou credo religioso.

As capas do jornal não deixam margem para dúvidas. Desde que tomou posse pela segunda vez, em junho de 2025, o jornal teve 55 edições. Dessas, 52 são protagonizadas por Luís Montenegro.

O jornal existe desde 1974, nasceu pouco depois da fundação do então PPD e acompanhou, ao longo de mais de meio século, a história do partido, os seus congressos, governos, oposições e líderes. É agora uma publicação semanal digital – deixou o papel em 2015 – e assume a sua natureza, é um órgão do PSD e acompanha sobretudo quem, em cada momento, está no centro do partido. Hoje, esse nome é Luís Montenegro.

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As capas do jornal não deixam margem para dúvidas. Desde que tomou posse pela segunda vez, em junho de 2025, o jornal teve 55 edições. Dessas, 52 são protagonizadas por Luís Montenegro. As exceções, que confirmam a regra que estatisticamente se cifra nos 94,5%, deram-se a 13 de maio – “Porto e Lisboa vão receber 400 agentes da PSP” –, a 22 de outubro, semana da morte de Francisco Pinto Balsemão, fundador do partido, e a 15 de outubro, no rescaldo das autárquicas.

“É uma escolha, como qualquer outra. Presumo que o Povo Livre seja dirigido e produzido por pessoas que dominam a comunicação, a comunicação política e conheçam o comportamento dos seus leitores”, comenta João Tocha. O jornal é dirigido, desde julho de 2022, por Emília Santos, ex-deputada e vice-presidente da Câmara Municipal da Maia, que, contactada pelo ECO/+M para este artigo, optou por não fazer comentários.

A imprensa doutrinária não tem de obedecer a uma série de regras que regem os media informativos. “A objetividade, o contraditório, a verificação das fontes e o valor-notícia na imprensa doutrinária são substituídos pelo valor político e eleitoral da matéria difundida”, concretiza João Tocha. O consultor entende assim que o Povo Livre, como qualquer outro órgão partidário e doutrinário, faz sentido, na medida em que permite às direções dos partidos escolherem os temas, produzirem e aprovarem os conteúdos sem a intermediação e os critérios jornalísticos.

A eficácia manifesta-se num objetivo tradicional de manter e fidelizar a bolha dos militantes e convertidos com o catecismo favorável ao seu proprietário”, diz. No entanto, alerta, “a eficácia eleitoral só acontece de forma ampla se os conteúdos do Povo Livre forem adaptados às especificidades das diversas plataformas existentes e replicados por forma a captarem a atenção de cidadãos e potenciais eleitores fora da bolha laranja”.

“Desconfio muito da sua eficácia eleitoral. Funciona como uma publicação de qualquer empresa ou organização: para informar públicos internos, alinhar mensagens e dar palco a protagonistas. Não pode ser levado demasiado a sério”, acrescenta Rodrigo Viana de Freitas, que esporadicamente tem vindo a trabalhar com o PS.

Para mim não há interesse jornalístico na equação. Utilizam-se técnicas de redação jornalística (e agora de redação multiplataforma digital) para construir os conteúdos dos media partidários. (…) Definam um estatuto para estes instrumentos de comunicação política dos partidos e acabem com a confusão entre jornalismo e imprensa doutrinária.

João Tocha

CEO da F5C

E é possível, num órgão desta natureza, algum equilíbrio ou interesse jornalístico? “A função de órgão oficial de um partido define à partida os princípios a que obedece: o interesse partidário da organização política, dos seus dirigentes e militantes e a possibilidade de contribuir para a manutenção ou conquista do poder. É uma publicação doutrinária. Para mim não há interesse jornalístico na equação. Utilizam-se técnicas de redação jornalística (e agora de redação multiplataforma digital) para construir os conteúdos dos media partidários”, atira o especialista.

João Tocha defende, aliás, que o estatuto dos jornais partidários devia ser melhor clarificado, “a bem da separação de águas entre atividade jornalística e difusão de propaganda, doutrina e discursos políticos”.

Aqui, o expoente máximo é a Folha Nacional, o jornal do partido de André Ventura. “O Chega há vários anos que utiliza a Folha Nacional de forma muito eficaz e a distribui gratuitamente, fora da bolha. A maioria dos seus conteúdos levam o selo de autenticidade da “Agência Lusa”, podendo o Chega escolher os títulos, as legendas e fotos que politicamente sejam mais favoráveis aos objetivos políticos e eleitorais do partido”, recorda.

Definam um estatuto para estes instrumentos de comunicação política dos partidos e acabem com a confusão entre jornalismo e imprensa doutrinária”, remata.

Voltando ao Povo Livre, Rodrigo Viana de Freitas lembra que exigir que o jornal fosse independente do PSD seria uma contradição, mas defende que “pode ser mais interessante, apesar de ser partidário”, e que tal abriria o jornal a novos públicos. Obrigaria, no entanto, “a ser mais informativo e menos elogioso”.

Informação sobre decisões políticas que não encontramos facilmente nos media, entrevistas de fundo, reportagens sobre o trabalho de deputados e autarcas, explicação de políticas públicas e diversidade de protagonistas são algumas das sugestões deixadas pelo CEO da Central de Informação. “A verdade é que a tentação de mostrar trabalho normalmente prevalece e o interesse ‘jornalístico’ acaba por se perder. É este o caso”, remata.

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