Insegurança e medo aumentam entre a comunidade cristã na Síria

De passagem por Espanha, o padre Fadi Azar faz um retrato sombrio da Síria quase dois anos após a queda do regime de Bashar al-Assad. O sacerdote, presentemente em Alepo, diz que tem aumentado a insegurança, com inúmeros sequestros e saques por parte de grupos criminosos, e fala em medo entre a comunidade cristã. Mas o que vale, neste contexto tão adverso em que há também muito desemprego e discriminação, é a força da fé. “A nossa esperança está apenas em Deus”, diz este padre que agradece muito a ajuda da Fundação AIS.
O padre Fadi Azar, franciscano da Custódia da Terra Santa e presentemente em Alepo, esteve de passagem por Espanha e falou à Fundação AIS sobre a sua missão e muito concretamente sobre a realidade neste país do Médio Oriente quase dois anos após a queda do regime de Bashar al-Assad. A ascensão ao poder do novo presidente, Ahmed al-Charaa, não trouxe, até ao momento, uma mudança significativa na vida das populações, em especial para a comunidade cristã. O sacerdote faz um retrato sombrio do país e diz mesmo que “tem vindo a aumentar o medo entre os cristãos”. “A criminalidade aumentou devido à situação generalizada de pobreza, à péssima situação económica e à inflação continua”, descreve o sacerdote. “Muitas pessoas perderam os seus empregos, porque o actual governo despediu todos os funcionários e membros das forças armadas do governo de Assad. Por isso, há muitos jovens e pais de família que se encontram desempregados. A falta de segurança aumentou enormemente; estão a ocorrer inúmeros sequestros e saques por parte de grupos criminosos. Um exemplo ilustrativo é que, antes, as pessoas podiam deixar as portas das suas casas abertas e agora toda a gente instala medidas de segurança nas suas casas, porque estão a roubar até os contadores de eletricidade ou de água”, diz ainda o sacerdote. “A isto somam-se alguns casos de agressão contra a comunidade cristã ou o atentado, em junho de 2025, contra a igreja ortodoxa de São Elias, em Damasco. Estes acontecimentos têm vindo a aumentar o medo entre os cristãos”, denuncia.
Ataques e agressões contra os cristãos
De facto, ao longo dos últimos meses, diz o padre Fadi, têm-se verificado ataques e agressões contra os cristãos´, embora sem a gravidade do atentado à igreja na capital síria. “Recentemente, houve destruição de cemitérios cristãos, além de escritos contra os cristãos nas paredes de várias igrejas. Estão também a ocorrer vários casos de grupos islâmicos radicais que percorrem diferentes localidades em carros equipados com altifalantes, exortando os cristãos a converterem-se ao Islão, alegando que esta é a verdadeira fé”, diz o padre franciscano. Tudo isto, como se compreende, tem vindo a fazer crescer a insegurança entre os cristãos, levando muitos a considerarem, ou a voltarem a considerar, deixar mesmo o país. Fadi Azar fala também em situações de discriminação no mundo do trabalho. “Alguns perderam os seus empregos pelo simples facto de serem cristãos ou não conseguem aceder a determinados postos de trabalho devido a esta discriminação”, assegura o padre. “E a insegurança, a situação económica e a crescente discriminação estão a afectá-los muito, porque veem o futuro muito sombrio. Os jovens e as famílias sentem-se inseguros e voltam a pensar em emigrar. O povo sírio é um povo muito trabalhador; alguns chegam mesmo a pensar em ir para África, embora não haja tantas oportunidades como noutras partes do mundo, mas precisam de paz e estabilidade”, acrescenta.
A importância da solidariedade da AIS
No meio de tudo isto, resta a certeza da fé, de uma fé testada na adversidade, na perseguição. E resta também a certeza de que a Igreja está presente junto do seu povo. “A Igreja está ao lado do povo, a apoiar, a levar esperança, a ouvir e a tentar aliviar tantas necessidades. As igrejas estão sempre abertas, acolhendo todos. Muitas paróquias têm dispensários médicos, distribuem alimentos, roupa e apoio educativo, para além da parte pastoral e sacramental. Muitas destas iniciativas são possíveis graças a instituições como a Fundação AIS”, diz o padre, referindo um projecto em concreto e “muito necessário”: a Gota de Leite. Tudo isto permite ao padre Fadi dizer que os cristãos sírios vivem intensamente a sua fé. Tudo gira, de alguma forma, em redor da paróquia, das escolas católicas, das academias desportivas, dos grupos de oração, da catequese. Por isso, o franciscano afirma que o ataque, de Junho do ano passado, à igreja de Santo Elias, em Damasco, teve como um dos objectivos semear o medo entre a comunidade. “Queriam semear o medo, mas o testemunho dos cristãos foi muito forte, pois no dia seguinte ao ataque todas as igrejas estavam cheias; todos os cristãos reuniram-se para rezar pelas vítimas e pelos atacantes. A nossa fé é forte, porque sabemos por experiência própria que Deus está sempre connosco. E as nossas raízes são as raízes do Cristianismo; foi nesta terra que a nossa fé nasceu. Foi em Damasco que São Paulo se converteu. Fazemos parte da Síria mesmo antes da chegada do Islão”, afirma o padre Fadi à Fundação AIS. “A nossa esperança está apenas em Deus”, acrescenta. “Peço-vos que rezem pela Síria e que não se esqueçam de nós. O Papa Francisco dizia: ‘A minha amada Síria’. A Síria é, de facto, um país onde nasceu a nossa fé cristã, por isso peço-vos que rezem por nós. Também vos encorajo a apoiar-nos através da Fundação AIS, que nos sustenta e nos permite seguir em frente. Sem o apoio de tantos de vós, com as esmolas das missas, seria impossível conseguirmos viver”, disse, finalizando.
Paulo Aido
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