
É uma longa história a dos habitantes da Serra Algarvia, que nos habituámos a designar por “Serrenhos”, uma história atestada por factos com início muitos séculos atrás.
O interessante artigo “Serrenhas levam memórias à vila, tradições e vida ao Museu de São Brás”, muito bem redigido pela prometedora jornalista Jessica Mestre, publicado no nosso Jornal do Algarve, em 30/06/2026, fez acordar em mim recordações cobertas pelas cinzas de mais de sete décadas, que me transportaram aos encantos de uma infância descuidada, porém, já atenta às circunstâncias envolventes do tempo de então, que a outros terão, eventualmente, passado mais despercebidas.
Tudo principiou com o desembarque, em Algeciras, perto do rochedo de Gibraltar, de cerca de 7.000 Berberes originários do norte de África, chefiados pelo também Berbere, general Tariq, que se propuseram invadir a Península, aproveitando graves dissidências intestinas entre as próprias hostes visigodas. A este início de invasão, seguiu-se, cerca de um ano depois, a vinda de um outro exército, bem mais nutrido e numeroso, sob o comando do general árabe Muça, integrado por Árabes – ou, mais propriamente, Beduinos – provenientes, predominantemente, de tribos da Península da Arábia, sendo que Árabes e Berberes nenhuma ligação étnica tinham (têm) entre si, à excepção da fé muçulmana, único denominador comum que os ligava.
Desde cedo, emergiram, entre as duas componentes invasoras, sérias dissensões, que levaram a revoltas e lutas entre ambas as facções, as quais, numa fase mais adiantada da permanência na Península, haveriam de propiciar, com a sua desunião, condições mais favoráveis à Reconquista pelas hostes cristãs. Porquê essas disputas e revoltas?
Desde a primeira hora, os Árabes reivindicaram para si, com base na sua maior força e no argumento de serem “originários da pátria do Profeta”, face aos Berberes, a imposição da primazia da escolha dos melhores lugares a colonizar, designadamente, o controlo das cidades e demais centros urbanos, assim como as melhores terras agrícolas, mais ricas em recursos hídricos, além da dignidade dos cargos religiosos mais elevados e da chefia dos exércitos. Tudo isto, relegando os Berberes para o que restasse, isto é, para as terras mais sáfaras e pobres.
Foi neste contexto histórico, no que ao Algarve dizia respeito, que a Serra Algarvia se mostrou aos Berberes como uma alternativa, uma pobre alternativa, para se instalarem e dela “arrancar” o custoso sustento do dia-a-dia, o que fizeram, dispersando as suas tribos, ao longo da mesma, em inúmeros e minúsculos lugarejos, que ainda hoje subsistem, embora com condições vivenciais melhoradas, em termos de acessos e equipamentos urbanos, apenas nos últimos decénios.
Remeti, no início, no âmbito deste tema, as minhas memórias para tempos há muito idos, mais propriamente, para a década dos anos quarenta.
Era, nesse contexto, que, nos dias de mercado, os via chegar da Serra Algarvia, com as suas mulas ou machos – os veículos do tempo – para a compra dos víveres e provisões necessários.
Ficaram a fazer parte do meu imaginário os traços impressivos dos seus fácies, cujas réplicas se podem encontrar, nos dias de hoje, num qualquer “souk” argelino ou marroquino.
Apenas lhes faltava trocar as vestes ocidentais pelas características ‘djellabas’.
A explicação para o facto extraordinário desta semelhança, que me era dada observar, mesmo após tantos séculos, desde o início da acima referida colonização da Serra Algarvia, no já longínquo século VIII, reside em que, longe do litoral e no remanso da solidão da serra, aquelas gentes que eu via eram, sem dúvida, sem qualquer “contaminação” étnica, os descendentes directos dos antigos Berberes que ali se tinham fixado.
De salientar que apenas a partir de meados do século passado – eu fui testemunha presencial dessa realidade –, teve lugar, com a vaga de emigração, o verdadeiro início da mobilidade das populações das zonas do interior. Até aí o sedentarismo e a sua permanência eram a tónica dominante e generalizada nessas zonas.
Toda a lógica aponta, pois, para que as deslocações que poderiam ter ocorrido, ao longo daquele imenso período de tempo, se limitariam, quanto muito, a possíveis enlaces entre pessoas dos lugarejos vizinhos, logo, dentro da mesma etnia.
Esta é a tese que defendo, com base, não apenas na vivência que experienciei em observações dos meus tempos de criança, mas igualmente em factos históricos observáveis e que falam por si próprios.
Outro tanto terá ocorrido, historicamente, na Serra de Monchique, zona também interior e pobre, igualmente colonizada por tribos berberes, hipótese que carrega a favor da tese que defendo o linguajar típico da sua população mais antiga, com a mesmíssima entoação que se verifica na minha terra, São Bartolomeu de Messines, também entre os mais antigos, preferencialmente, analfabetos, por falarem tal como ouviam, os quais – muito poucos já – ainda guardam a genuína riqueza dessa cultura, incluindo termos e expressões, que integram o que se poderá chamar de um verdadeiro dialecto, apenas descodificado por nós, que lá nascemos.
A fonte remota e substracto linguístico que explica esta cultura dialectal é o antigo Árabe, que durante cinco séculos foi o idioma oficial, entre nós, meridionais – coexistente com o idioma moçárabe, que, embora integrado plenamente na sociedade ocupante, preservava, contudo, a memória da anterior língua românica de antes da invasão –, cuja influência na estrutura do linguagar do Português, perdurou, na sua plenitude, nas duas zonas que atrás refiro, até aos anos quarenta e início dos cinquenta do século passado, incluindo termos da mais pura cepa árabe, realidade que a escolarização foi, a pouco e pouco, “apagando”, postergando e transformando em arcaísmos sem uso.
Deixo, de seguida, algumas expressões dialectais dessa antiga cultura, agora em declínio, que ainda bem conheci, no dia-a-dia :
– ‘É cá na sê ‘. (Eu não sei)
– “Ah, marafade môce ! ” (Ah, marafado moço ! “)
– ‘Tap’ a su’ moça pequena. Na vê k’el’anda de xarifa ó léu ?’ (Tape a sua moça, não vê que anda com a racha à mostra ?) – Uma variante de “xarifa” é “xoxa”, sendo ambos os termos sinónimos da vulva feminina e de origem árabe.
– ‘Eh môce, até parece que tou almariade’ (Eh, moço, até parece que estou tonto)
– ‘O Marceline é même desgroviade.’ (O Marcelino é mesmo desnorteado)
– ‘O Manel anda a láriar a pevide’ (O Manuel anda a vadiar)
– ‘O pouque pêxe ke vê hoje vendé-se num’stante. Aquile foi uma rabatina (O pouco peixe que veio hoje vendeu-se num instante. A venda foi muito rápida)
– ‘Já tem avonde de vinhe !’ (Já chega de vinho); este ‘avonde’ tem origem no verbo ‘abundar’
– ‘Kand’ a gente vames à barrage, tomames sempe banhe dimplão’(Quando a gente vai à barragem, toma sempre banho nus).




