Uma sucessão de investigações judiciais, acusações formais do Ministério Público e denúncias de favorecimento político têm colocado a gestão de Vila Nova de Gaia e das suas empresas municipais sob forte atenção mediática e judicial. Entre os processos em análise encontram-se alegados esquemas de viciação na contratação pública na empresa municipal Águas de Gaia, que terão lesado os cofres públicos em milhões de euros, a par de questões relacionadas com habilitações académicas e procedimentos concursais alvo de suspeitas de viciação partidária na autarquia.
A operação «Águas Turvas», conduzida pela Polícia Judiciária e pelo DIAP Regional do Porto, investiga um alegado esquema sistemático de viciação de contratação pública na Águas de Gaia, E.M., com prejuízo estimado em cerca de oito milhões de euros. O empreiteiro António Santos Mota terá conseguido a adjudicação de 81 contratos de empreitadas e serviços, atingindo uma faturação superior a 8,5 milhões de euros, com contrapartidas que incluíam dinheiro vivo entregue durante jantares anuais em Matosinhos. O antigo diretor de Águas e Abastecimento, José António Martins, é suspeito de ter criado a sociedade Axialcloud para dissimular recebimentos. Ambos ficaram em prisão preventiva, tendo sido também aplicada suspensão judicial de funções a outros dirigentes.
Miguel Lemos Rodrigues, antigo presidente do conselho de administração da Águas de Gaia, foi formalmente acusado em setembro de 2025 pelo Ministério Público dos crimes de corrupção, abuso de poder, participação económica em negócio e tráfico de influências, numa atuação concertada com empresários da área da comunicação através de procedimentos de ajuste direto, fracionamento da despesa e simulação de concorrência. O Ministério Público censurou ainda a demora superior a 30 dias do então presidente da câmara, Eduardo Vítor Rodrigues, em cumprir determinação judicial de afastamento do administrador.
Na própria Câmara Municipal, o diretor municipal de Habitação, Paulo Ferreira do Amaral, foi afastado após a Universidade do Porto e o ICBAS informarem não existirem registos da sua alegada licenciatura, tendo o visado alegado que a documentação desapareceu num incêndio. A oposição denunciou ainda irregularidades na seleção de dirigentes, incluindo a nomeação do coordenador concelhio da Iniciativa Liberal, Ricardo Carvalho, para diretor de Políticas Sociais através de um júri com uma conselheira nacional do PSD, e a alteração de classificação de Abraão Silva, dirigente do PSD local, após a prova de entrevista. Estas questões cruzam-se com a Operação Babel, centrada na alegada viciação de licenciamentos urbanísticos no valor de 300 milhões de euros, e com inquéritos contra Eduardo Vítor Rodrigues por suspeitas de pagamentos à Global Media para condicionamento editorial nos títulos JN e TSF.




