Durante demasiado tempo, os incêndios florestais foram encarados pelo setor segurador como uma variável externa, um risco natural cíclico que provocava perdas previsíveis e depois regredia. Esta visão tornou-se perigosamente obsoleta, pois os incêndios já não são apenas um fenómeno climático, mas uma força económica capaz de redefinir a geografia da segurabilidade e desafiar os pressupostos fundamentais dos modelos de risco da indústria.
Em Portugal, a maioria das discussões sobre incêndios continua centrada na frequência dos eventos, como o número de incêndios, hectares destruídos e habitações afetadas. No entanto, o verdadeiro problema não é apenas o aumento da quantidade de incêndios, mas sim a crescente capacidade de um único evento concentrar perdas, gerar impactos em cascata e comprometer a sustentabilidade de carteiras inteiras. O conceito de diversificação, um dos pilares históricos do seguro, está sob pressão à medida que secas prolongadas, temperaturas extremas e alterações nos usos do solo tornam mais frequente a correlação entre riscos anteriormente independentes.
O artigo defende que o futuro poderá pertencer às empresas de seguros que conseguirem influenciar o risco antes de este se materializar, utilizando análises geoespaciais para identificar padrões recorrentes de perdas, ajustando preços em função da resiliência construtiva dos imóveis e promovendo práticas de reconstrução mais resistentes. Existe, contudo, um paradoxo: as estratégias de mitigação mais eficazes produzem resultados que dificilmente se observam, pois uma habitação que não arde não gera estatísticas impressionantes, dificultando a criação de incentivos adequados.
A evolução do mercado de resseguro reforça esta reflexão, obrigando seguradores de todo o mundo a reavaliar a forma como gerem exposição, capacidade e rentabilidade ajustada ao risco. O grande desafio colocado pelos incêndios florestais não é tecnológico, climático nem regulatório, mas conceptual. O setor foi durante décadas desenhado para responder a acontecimentos extremos, mas agora precisa de participar também na sua prevenção, pois num mundo onde os riscos são cada vez mais interligados, a questão decisiva poderá já não ser quem consegue pagar melhor os prejuízos, mas sim quem consegue evitar que eles aconteçam.




