Portugal está a discutir a anunciada criação de um ciclo único entre o 1.º e o 6.º ano de escolaridade, uma reforma que está a ser debatida principalmente a partir das suas consequências para os professores, como formação, horários e organização das escolas. A autora, E. Beatriz Rosário, argumenta que a questão central deve ser outra: o que muda verdadeiramente para a criança. No sistema atual português, a passagem do 4.º para o 5.º ano é particularmente abrupta, passando a criança de um universo estável com um professor de referência para múltiplos professores, salas, disciplinas e critérios de avaliação diferentes.
A autora compara o modelo português com os sistemas espanhol e francês. Em Espanha, a Educação Primária prolonga-se dos seis aos doze anos, sem ruturas equivalentes às vividas em Portugal no final do 4.º ano, permitindo mais tempo para consolidar conhecimentos e desenvolver competências como aprender a estudar, organizar materiais, cumprir prazos e trabalhar com colegas. Em França, embora não tenha sido eliminada a fronteira entre a escola primária e o collège, foi criado o cycle 3 que integra os dois últimos anos do primário e o primeiro ano do collège, funcionando como um ano de consolidação e adaptação que prepara a criança para a transição.
A autora defende que uma boa transição não elimina a mudança, mas dá ao aluno condições para a enfrentar. Sugere uma progressão mais inteligente: nos primeiros anos, aprendizagens mais globalizadas com forte referência pedagógica; depois, uma entrada gradual de professores especialistas e projetos interdisciplinares; finalmente, nos 5.º e 6.º anos, uma autonomia mais exigente mas ainda acompanhada. Defende que os alunos devem chegar ao ciclo seguinte não apenas sabendo mais, mas sabendo melhor como aprender, e que a continuidade educativa exige continuidade entre professores, com equipas, tempo para trabalho colaborativo e conhecimento real do percurso dos alunos.
A autora alerta ainda para riscos da reforma, incluindo a possibilidade de se transformar num instrumento para gerir a falta de professores em vez de uma verdadeira transformação educativa. O critério para avaliar a mudança deve ser simples: os alunos aprendem melhor? Chegam aos doze anos mais autónomos e mais preparados para lidar com diferentes professores? Se a reforma apenas mudar nomes e horários sem melhorar verdadeiramente a aprendizagem dos alunos, pouco terá mudado naquilo que realmente importa.




