O mercado português de distribuição alimentar apresenta uma forte concentração, com Continente e Pingo Doce a representarem juntos 50% do mercado, seguindo-se o Lidl com 13,8%. Para muitas empresas de grande consumo, entre 80% e 90% das vendas no retalho estão concentradas em apenas sete clientes, e um único retalhista pode representar até 30% do negócio de um fornecedor, tornando difícil a substituição em caso de perda.
A questão central prende-se com a combinação de três fenómenos: concentração do retalho, expansão de formatos com sortidos mais curtos e crescimento continuado da marca própria. O retalhista tem uma posição particular, sendo simultaneamente cliente do fabricante, proprietário do espaço de venda e concorrente através das suas próprias marcas, o que altera profundamente o equilíbrio negocial e pode influenciar a arquitetura do mercado.
Dados recentes mostram que 97% das vendas de grande consumo em Portugal continuam a realizar-se em lojas físicas, onde o espaço é um recurso finito. O Lidl, ao dar mais espaço às marcas de fabricante, tem conseguido aumentar a cesta de compras e a quota de mercado, enquanto a Mercadona, com cerca de 90% de marca própria, enfrenta dificuldades porque o consumidor português quer mais sortido e mais marcas disponíveis.
A compressão do sortido pode tornar-se num desincentivo à inovação, que no grande consumo é cara, demorada e arriscada. O risco é criar um mercado em forma de ampulheta, com marca própria numa extremidade, grandes marcas na outra e vazio no centro. A pergunta fundamental é que mercado se quer oferecer ao consumidor português daqui a cinco ou dez anos, e se preço, qualidade, inovação, marcas e novos operadores poderão continuar a disputar a sua preferência.




