A adaptação às alterações climáticas assumiu um lugar central na agenda da estabilidade financeira e da supervisão prudencial europeia. A Presidente da EIOPA afirmou recentemente que as alterações climáticas estão a transformar algumas regiões da Europa num verdadeiro desafio para a atividade seguradora, numa evolução que se tem manifestado através da integração dos riscos climáticos no regime de Solvência II, do desenvolvimento de testes de stress climático e dos trabalhos sobre o protection gap das catástrofes naturais. Também em Portugal, a divulgação do Relatório da Comissão Técnica Independente sobre os incêndios de 2025, no final de julho, representa um exercício estruturado de análise institucional destinado a identificar vulnerabilidades, avaliar políticas públicas e formular recomendações para reforçar a capacidade nacional de resposta perante riscos extremos.
Em 2025 registaram-se 8.256 incêndios rurais e 271.587 hectares de área ardida, correspondendo à quarta maior área ardida desde que existem registos oficiais. O incêndio do Piódão ultrapassou os 65 mil hectares, constituindo o maior incêndio registado em Portugal. Embora as condições meteorológicas tenham contribuído decisivamente para a severidade da época, a Comissão conclui que estas não explicam por si só a dimensão da área ardida, identificando fragilidades estruturais na gestão de combustíveis, na preparação do território, na resposta operacional e na implementação de políticas públicas. O relatório apresenta 20 recomendações orientadas para o reforço da prevenção, da qualificação e especialização dos agentes, da coordenação operacional, da comunicação de emergência, da monitorização e da capacidade institucional.
As recomendações apresentadas pela Comissão assentam em princípios que atravessam igualmente a supervisão prudencial europeia: prevenção, preparação, qualificação, coordenação, monitorização, capacidade institucional e aprendizagem contínua. A evolução da Solvência II, os testes de stress climático promovidos pela EIOPA e os trabalhos internacionais sobre resiliência operacional apontam para uma mesma conclusão: gerir riscos extremos exige uma abordagem integrada, prospetiva e baseada na capacidade das organizações para aprender e adaptar-se. O setor segurador desempenha assim um papel que ultrapassa largamente a função indemnizatória, podendo contribuir para uma maior articulação entre prevenção, adaptação e resiliência económica.
O verdadeiro teste da resiliência avalia-se antes da emergência, medindo-se na qualidade da governação e na capacidade para antecipar cenários. Tal como a supervisão financeira evoluiu para privilegiar abordagens prospetivas baseadas em cenários, exercícios de impacto e governação do risco, também a gestão dos riscos climáticos exige instituições capazes de articular ciência, dados, experiência e expert judgment. O desafio não consiste exclusivamente na capacidade de resposta às catástrofes, mas em construir organizações capacitadas para transformar conhecimento técnico e comportamental em decisões estratégicas, reforçando a resiliência climática.




