Os pequenos e médios viticultores da Região Demarcada do Douro enfrentam graves dificuldades financeiras, com uvas por escoar e custos de produção em constante aumento. Manuel Jorge, com oito hectares de vinhas em Ervedosa do Douro, no município de São João da Pesqueira, alerta que há produtores a admitir abandonar as videiras. O custo de produção por hectare pode atingir cerca de cinco mil euros, entre mão de obra, fitofármacos, maquinaria e transporte, agravados este ano pela queda de granizo. As uvas que ficam fora do "benefício" — a quota máxima de mosto generoso para vinho do Porto — têm de ser vendidas para vinhos tranquilos DOC Douro, mas a preços muito inferiores: enquanto uma pipa para vinho do Porto pode valer entre 900 e 1.200 euros, uma pipa para vinhos tranquilos pode oscilar apenas entre 150 e 400 euros.
O presidente da Câmara de São João da Pesqueira, Manuel Cordeiro, também viticultor, confirma que recebe diariamente apelos de produtores a pedir ajuda. Joaquim Pedreiro, de 73 anos, ainda não tem comprador para a colheita deste ano para além das 30 pipas do cartão de "benefício". O granizo e o preço elevado do gasóleo agravaram a situação, levando muitos agricultores a ponderar deixar as uvas a apodrecer. A Região Demarcada do Douro, a mais antiga do mundo, representa cerca de 44% do valor das exportações portuguesas de vinho, mas o valor gerado não se reparte de forma equilibrada ao longo da fileira vitivinícola.
O "benefício" tem vindo a diminuir nos últimos anos: das 104 mil pipas em 2023 passou para 90 mil em 2024 e 75 mil em 2025, uma quebra de 29 mil pipas em três anos. O IVDP autorizou agora a produção de 76 mil pipas para 2026. Entre as medidas propostas estão a destilação com apoio do Estado — como aconteceu em 2025 com 50 cêntimos por quilograma de uva — e a utilização de aguardente vínica regional para a produção de vinho do Porto e Moscatel. António Filipe, presidente da Associação das Empresas de Vinho do Porto, rejeita a obrigatoriedade desta medida, argumentando que o comércio não consegue comprar mais do que consegue vender e que a obrigatoriedade seria catastrófica para o setor.
Os viticultores não estão a pedir subsídios, mas sim a alteração de uma legislação com 60 anos, criada para uma realidade em que a região só produzia vinho do Porto. Manuel Jorge teme que, quando o "benefício" acabar, os pequenos e médios produtores deixem de ser necessários às grandes casas exportadoras. O presidente da Casa do Douro, Rui Paredes, teme que muitas uvas voltem a ficar ao abandono, conduzindo ao abandono das vinhas com graves impactos económicos e sociais para um território classificado como Património Mundial da UNESCO.




