Bruxelas validou o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) de Portugal a 16 de junho de 2021, numa cerimónia em Lisboa onde a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, entregou o documento aprovado ao primeiro-ministro António Costa. Desde então, a Comissão transferiu para Portugal 17,23 mil milhões de euros, sempre mediante o cumprimento das metas e marcos acordados. A 31 de agosto de 2025 era a data limite para os beneficiários cumprirem as obrigações definidas junto de Bruxelas, num plano que direcionou mais de 50% dos seus recursos para o setor público.
Vários economistas questionam se o PRR conseguiu operar uma transformação estrutural da economia portuguesa. Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, reconhece que o impacto conjuntural foi "indiscutivelmente positivo", sustentando investimento, procura, emprego e atividade económica num período de enorme incerteza, mas tem "muitas dúvidas" de que tenha mudado estruturalmente a economia. Ricardo Arroja considera "exagerado" afirmar que o PRR transformou de forma estrutural a economia portuguesa, embora possa ter ajudado a criar raízes futuras. Nelson Souza, antigo ministro do Planeamento, frisa que a transformação estrutural "nunca esteve em cima da mesa" porque o PRR foi criado para mitigar os impactos da pandemia e tinha objetivos "bem pontuais".
O artigo identifica ainda que Portugal é o país europeu onde o investimento público está mais dependente dos fundos europeus, com 90% do investimento público assegurado pelos fundos de coesão entre 2014 e 2020, muito acima da média comunitária de 14%. Nelson Souza critica a "excessiva concentração dos recursos na esfera pública" e o excesso de fragmentação dos apoios sociais, lamentando que não tenha sido possível realizar ações mais focalizadas e com maior dimensão. Pedro Dominguinhos, presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR, aponta falhas na capacidade de resposta ao público-alvo, como aconteceu na eficiência energética, onde Portugal ficou a menos de um terço dos vales previstos. Fernando Alfaiate, presidente da estrutura de missão Recuperar Portugal, admite que "à boa maneira portuguesa, deixamos tudo para o último dia", criando pressão no mercado e constrangimentos na execução.
O verdadeiro teste ao PRR começará quando o financiamento extraordinário terminar. Óscar Afonso alerta que "gastar não é reformar; investir não é, por si só, transformar", sublinhando que o legado dependerá da capacidade de Portugal gerar riqueza e produtividade quando já não tiver esse impulso extraordinário. O Conselho das Finanças Públicas estima que o investimento abrandará de 4,3% em 2026 para 1,1% em 2027 após o término do PRR. Ricardo Arroja defende que o impacto estrutural dependerá da manutenção ou não dos projetos iniciados, considerando que seria um bom sinal se o conceito das Agendas Mobilizadoras, que combinaram financiamento público e privado com colaboração entre o sistema científico e as empresas, fosse mantido.




