Júri conclui que dinheiro do Medicaid foi desviado para financiar campanha política na FlóridaFoto de Ivo Brasil no Pexels
Política

Júri conclui que dinheiro do Medicaid foi desviado para financiar campanha política na Flórida

Nossa Gente28 de agosto de 2026 às 15:16

Um júri de acusação da Flórida concluiu que o governo do governador Ron DeSantis desviou US$ 10 milhões de um acordo com a Centene Corporation — empresa acusada de fraude no programa Medicaid — para a Hope Florida Foundation, entidade ligada à primeira-dama Casey DeSantis. O dinheiro foi então repassado a organizações sem fins lucrativos que, por sua vez, enviaram US$ 8,5 milhões ao comitê político Keep Florida Clean, administrado por James Uthmeier, então chefe de gabinete de DeSantis e atual procurador-geral, para financiar a campanha contra a legalização da maconha (Emenda 3). O relatório também aponta que a ex-procuradora-geral Ashley Moody sabia do esquema e autorizou a assinatura do acordo. Apesar das conclusões, o júri decidiu não indiciar ninguém por falta de evidências, mas recomendou leis de transparência mais rígidas. O relatório ficou sob sigilo por sete meses, supostamente por tentativas dos citados de impedir sua divulgação.

FOTO: Lake County Schools.

Um relatório sigiloso de um júri de acusação estadual concluiu que o governo do governador Ron DeSantis desviou US$ 10 milhões em dinheiro público para a Hope Florida Foundation, entidade beneficente ligada à primeira-dama Casey DeSantis, como parte do que os jurados classificaram como um esquema sofisticado para financiar atividades políticas. Apesar da conclusão, o próprio júri decidiu não indiciar criminalmente nenhum dos envolvidos.

De onde veio o dinheiro

O caso tem origem em um acordo de US$ 67 milhões fechado em 2024 entre o estado da Flórida e a Centene Corporation, empresa terceirizada do programa Medicaid acusada de cobrar valores indevidos do sistema de saúde infantil do estado. Segundo o relatório, em vez de todo o valor retornar aos cofres públicos, o acordo foi modificado em setembro de 2024 para que US$ 57 milhões fossem destinados ao estado e US$ 10 milhões fossem enviados à Hope Florida Foundation, iniciativa estadual liderada pela primeira-dama que conecta pessoas em situação de necessidade a recursos assistenciais.

Para onde o dinheiro foi depois

Dias depois de receber o valor, a fundação repassou US$ 5 milhões cada para duas organizações sem fins lucrativos: a Secure Florida’s Future e a Save Our Society From Drugs. Pouco tempo depois, uma parcela significativa desse dinheiro, cerca de US$ 8,5 milhões, foi repassada por essas duas entidades ao Keep Florida Clean, comitê de ação política que, segundo o relatório, era administrado por James Uthmeier, então chefe de gabinete de DeSantis e hoje procurador-geral da Flórida. O comitê usou parte desses recursos na campanha contra a Emenda 3, proposta de legalização da maconha que foi derrotada nas urnas em 2024.

O papel de Uthmeier e da ex-procuradora-geral

Segundo o relatório do júri, Uthmeier ocupava uma posição de autoridade sobre os responsáveis por fechar o acordo com a Centene, e testemunhas o identificaram como tendo participação direta na destinação do dinheiro depois que ele chegou à Hope Florida. O documento também aponta que Ashley Moody, procuradora-geral da Flórida à época do acordo e hoje senadora dos Estados Unidos, sabia dos planos e autorizou seu então vice-procurador-geral, John Guard, a assinar o acordo de indenização. Nem Moody, nem DeSantis, nem Uthmeier foram chamados a depor pessoalmente perante o júri de acusação em Tallahassee.

Por que ninguém foi indiciado

Apesar de concluir que o dinheiro foi desviado, o júri afirmou não haver evidências suficientes para indiciar criminalmente qualquer pessoa. Segundo o próprio relatório, ninguém assumiu a responsabilidade por decidir que os US$ 10 milhões em dinheiro público iriam para a Hope Florida, o que dificultou o avanço de uma acusação formal. Os jurados também recomendaram que a Assembleia Legislativa da Flórida aprove leis de transparência mais rígidas, exigindo que valores de acordos judiciais retornem diretamente ao fundo geral do estado, para evitar desvios semelhantes no futuro.

O que dizem os envolvidos

Questionado sobre o caso durante uma coletiva de imprensa nesta semana, DeSantis afirmou não ter participado do acordo com a Centene, mas disse estar muito satisfeito com a forma como tudo foi conduzido. Uthmeier, por sua vez, já declarou publicamente que nenhuma irregularidade ocorreu. Moody não respondeu a questionamentos sobre seu papel no acordo.

Uma investigação que nasceu no Legislativo

A investigação teve início após o deputado estadual Alex Andrade, republicano de Pensacola e ex-presidente do subcomitê de orçamento de saúde da Câmara estadual, começar a apurar o caso durante a sessão legislativa de 2025. Andrade, que também é advogado, chegou a acusar publicamente Uthmeier e o advogado Jeff Aaron, ligado à fundação e próximo ao governo DeSantis, de terem violado a lei no processo.

Sete meses de sigilo

O relatório foi protocolado sob sigilo no cartório do Condado de Leon em 28 de janeiro, mas seu conteúdo só veio a público nesta semana, obtido com exclusividade pela CBS News Miami. Segundo uma fonte familiarizada com a investigação, pessoas citadas no documento, incluindo o próprio Uthmeier, teriam trabalhado nos últimos sete meses para impedir sua divulgação por meio de processos judiciais mantidos em sigilo. Moody e Uthmeier concorrem à reeleição em novembro.

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