FOTO: Lake County Schools.
Um relatório sigiloso de um júri de acusação estadual concluiu que o governo do governador Ron DeSantis desviou US$ 10 milhões em dinheiro público para a Hope Florida Foundation, entidade beneficente ligada à primeira-dama Casey DeSantis, como parte do que os jurados classificaram como um esquema sofisticado para financiar atividades políticas. Apesar da conclusão, o próprio júri decidiu não indiciar criminalmente nenhum dos envolvidos.
De onde veio o dinheiro
O caso tem origem em um acordo de US$ 67 milhões fechado em 2024 entre o estado da Flórida e a Centene Corporation, empresa terceirizada do programa Medicaid acusada de cobrar valores indevidos do sistema de saúde infantil do estado. Segundo o relatório, em vez de todo o valor retornar aos cofres públicos, o acordo foi modificado em setembro de 2024 para que US$ 57 milhões fossem destinados ao estado e US$ 10 milhões fossem enviados à Hope Florida Foundation, iniciativa estadual liderada pela primeira-dama que conecta pessoas em situação de necessidade a recursos assistenciais.
Para onde o dinheiro foi depois
Dias depois de receber o valor, a fundação repassou US$ 5 milhões cada para duas organizações sem fins lucrativos: a Secure Florida’s Future e a Save Our Society From Drugs. Pouco tempo depois, uma parcela significativa desse dinheiro, cerca de US$ 8,5 milhões, foi repassada por essas duas entidades ao Keep Florida Clean, comitê de ação política que, segundo o relatório, era administrado por James Uthmeier, então chefe de gabinete de DeSantis e hoje procurador-geral da Flórida. O comitê usou parte desses recursos na campanha contra a Emenda 3, proposta de legalização da maconha que foi derrotada nas urnas em 2024.
O papel de Uthmeier e da ex-procuradora-geral
Segundo o relatório do júri, Uthmeier ocupava uma posição de autoridade sobre os responsáveis por fechar o acordo com a Centene, e testemunhas o identificaram como tendo participação direta na destinação do dinheiro depois que ele chegou à Hope Florida. O documento também aponta que Ashley Moody, procuradora-geral da Flórida à época do acordo e hoje senadora dos Estados Unidos, sabia dos planos e autorizou seu então vice-procurador-geral, John Guard, a assinar o acordo de indenização. Nem Moody, nem DeSantis, nem Uthmeier foram chamados a depor pessoalmente perante o júri de acusação em Tallahassee.
Por que ninguém foi indiciado
Apesar de concluir que o dinheiro foi desviado, o júri afirmou não haver evidências suficientes para indiciar criminalmente qualquer pessoa. Segundo o próprio relatório, ninguém assumiu a responsabilidade por decidir que os US$ 10 milhões em dinheiro público iriam para a Hope Florida, o que dificultou o avanço de uma acusação formal. Os jurados também recomendaram que a Assembleia Legislativa da Flórida aprove leis de transparência mais rígidas, exigindo que valores de acordos judiciais retornem diretamente ao fundo geral do estado, para evitar desvios semelhantes no futuro.
O que dizem os envolvidos
Questionado sobre o caso durante uma coletiva de imprensa nesta semana, DeSantis afirmou não ter participado do acordo com a Centene, mas disse estar muito satisfeito com a forma como tudo foi conduzido. Uthmeier, por sua vez, já declarou publicamente que nenhuma irregularidade ocorreu. Moody não respondeu a questionamentos sobre seu papel no acordo.
Uma investigação que nasceu no Legislativo
A investigação teve início após o deputado estadual Alex Andrade, republicano de Pensacola e ex-presidente do subcomitê de orçamento de saúde da Câmara estadual, começar a apurar o caso durante a sessão legislativa de 2025. Andrade, que também é advogado, chegou a acusar publicamente Uthmeier e o advogado Jeff Aaron, ligado à fundação e próximo ao governo DeSantis, de terem violado a lei no processo.
Sete meses de sigilo
O relatório foi protocolado sob sigilo no cartório do Condado de Leon em 28 de janeiro, mas seu conteúdo só veio a público nesta semana, obtido com exclusividade pela CBS News Miami. Segundo uma fonte familiarizada com a investigação, pessoas citadas no documento, incluindo o próprio Uthmeier, teriam trabalhado nos últimos sete meses para impedir sua divulgação por meio de processos judiciais mantidos em sigilo. Moody e Uthmeier concorrem à reeleição em novembro.




