O Papa Leão, na encíclica "Magnifica Humanitas", dedica o III Capítulo à relação entre a grandeza da pessoa humana e as promessas da Inteligência Artificial, analisando o paradigma tecnocrático no mundo globalizado, onde predominam as lógicas de eficiência, domínio e lucro. O Papa lembra que "mais poderoso não significa necessariamente melhor" e evoca Paulo VI, que defendia que os progressos científicos e o desenvolvimento económico, "se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se, necessariamente, contra o homem". A encíclica alerta também para o risco da concentração de poder digital nas mãos de poucos, através do controle das plataformas, infraestruturas, dados e capacidade de computação.
Face a esta concentração de poder, o Papa propõe que os grandes princípios da Doutrina Social da Igreja se tornem critérios para avaliar o novo cenário digital: a dignidade inalienável da pessoa, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social. Leão XIV sublinha que as Inteligências Artificiais não vivem experiências, não possuem corpo nem consciência moral, não conhecem o amor, o trabalho ou a amizade, nem assumem o peso das consequências das suas ações. Apesar de ser uma ajuda preciosa, a IA não é moralmente neutra e requer atenção especial.
A encíclica alerta para cautelas necessárias,,指出 pequenos grupos muito influentes podem orientar a informação e o consumo, condicionar processos democráticos e afetar dinâmicas económicas em seu próprio benefício. O Papa defende que é essencial garantir o acesso universal às tecnologias e à formação. O verbo mais forte proposto é "desarmar": remover a IA da lógica da competição armada, que hoje é também económica e cognitiva, quebrando a equivalência entre poder técnico e direito de governar. A IA é o ambiente em que estamos imersos e, por isso, não basta regulá-la: deve ser desarmada e tornada acolhedora.
O Papa conclui que a qualidade de uma civilização não se mede pelo poder dos seus meios, mas pelo cuidado que sabe oferecer e pela capacidade de reconhecer o outro como pessoa. Defende o valor da cultura e da arte autêntica, que impedem a normalização do mal, citando exemplos como a Nona Sinfonia de Beethoven, a Guernica e o filme A Lista de Schindler. O humanismo cristão não rejeita a ciência e a técnica, mas afirma que o que amamos orienta as nossas vidas. A construção de um mundo melhor começa em cada um de nós. O próximo capítulo abordará a salvaguarda do humano na transformação: verdade, trabalho e liberdade.
Tony Neves, em Fátima

O Papa Leão, no III Capítulo da encíclica ‘Magnifica Humanitas’ põe a grandeza da pessoa humana em confronto com as promessas da Inteligência Artificial. Analisa o paradigma tecnocrático neste nosso mundo globalizado, em que vencem as lógicas perversas da eficiência, do domínio e do lucro (cf nº92). O Papa lembra que ‘mais poderoso não significa necessariamente melhor’ (nº93). Já o Papa Paulo VI defendia que os progressos científicos, as invenções técnicas e o desenvolvimento económico ‘se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se, necessariamente, contra o homem’ (nº94). Também há que evitar o risco da concentração na mão de poucos do poder, em contexto digital, que vem do ‘controle das plataformas, das infraestruturas, dos dados e da capacidade de computação’ (nº95).
A conclusão que o Papa partilha é: ‘ante esta concentração de poder no mundo digital, os grandes princípios da DSI tornam-se critérios para avaliar e discernir o novo cenário: a dignidade inalienável da pessoa, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social’ (nº96). E, para Leão XIV é obvio: ‘as ditas inteligências artificiais não vivem uma experiência, não possuem um corpo, não passam pela alegria e pela dor, não amadurecem nas relações, não conhecem internamente o que significa o amor, trabalho, amizade, responsabilidade. Nem sequer possuem uma consciência moral: não julgam o bem e o mal, não captam o sentido último das situações, não assumem sobre si o peso das consequências’ (nº99). Mas – há que reconhecer – a IA é uma ajuda preciosa, mas não é moralmente neutra e requer atenção. Também é importante olhar para a perspetiva ecológica: ‘é essencial desenvolver soluções tecnológicas mais sustentáveis para reduzir o impacto ambiental e cuidar da nossa Casa comum’ (º101).
Temos que saber a quem pedir contas dos efeitos da utilização da IA. Há cautelas a ter: ‘pequenos grupos muito influentes podem orientar a informação e o consumo, condicionar processos democráticos e incidir sobre dinâmicas económicas em seu próprio benefício, contrariando a justiça social e a solidariedade entre os povos’ (nº108). E ‘falar de destinação universal dos bens significa encontrar formas de garantir o acesso universal às tecnologias e à formação’ (nº109).
O verbo mais forte é ‘desarmar’: ‘desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também económica e cognitiva(…). Desarmar significa quebrar esta equivalência entre poder técnico e direito de governar’. Em conclusão: ‘a IA é o ambiente em que estamos imersos e o poder com que temos de lidar. Por isso, não basta regula-la: deve ser desarmada e tornada acolhedora’ (nº110).
O Papa alerta para o risco da exposição a lógicas de domínio e exclusão, defendendo que ‘a qualidade de uma civilização não se mede pelo poder dos seus meios, mas pelo cuidado que sabe oferecer, pela capacidade de reconhecer o outro enquanto pessoa e não enquanto função’ (nº114).
Há que valorizar a cultura e a arte, ‘quando autênticas, impedem a normalização do mal. Assim, algumas obras assumiram um valor quase profético: a Nona Sinfonia de Beethoven, enquanto desejo de unidade; o quadro da Guernica, enquanto denúncia da desumanização; o filme A Lista de Schindler, enquanto convite a não deixar cair o passado no esquecimento’ (nº122).
Depois de apresentar bons exemplos de pessoas e instituições, diz Leão XIV: ‘é precisamente esta interconexão de instituições justas, testemunhos fidedignos e fidelidades quotidianas, que mantém viva a esperança e indica uma direção: permitir o crescimento da técnica sem deixar regredir o coração’ (nº126).
O humanismo cristão não rejeita a ciência e a técnica: ‘é um amor que nos guia: o que, enquanto indivíduos e enquanto sociedade, amamos verdadeiramente orienta nossas vidas e ações’. Conclui o Papa: ‘a era da IA não escapa a esta regra: a construção de Babel ou a de Jerusalém começa em cada um de nós’ (n130).
O IV Capítulo abordará outro tema quente: salvaguardar o humano na transformação. Verdade, trabalho e liberdade.
Tony Neves, em Fátima