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A confiança é um fator económico

Eco28 de agosto de 2026 às 09:30

A confiança é um fator económico essencial na economia moderna, segundo Isabel Cipriano, autora deste artigo de opinião. Uma grande parte do valor das organizações assenta em fatores intangíveis como reputação, cultura ética e, sobretudo, a confiança que conseguem gerar nas suas relações económicas e laborais. A OCDE tem vindo a sublinhar a relação entre confiança, funcionamento dos mercados, investimento e crescimento económico, enquanto os Princípios de Governação Corporativa do G20/OCDE 2023 estabelecem a ligação entre governação, confiança, integridade dos mercados e crescimento sustentável.

O artigo destaca que em Portugal existe um contrassenso legislativo ao permitir a criação de empresas com capital social de apenas um euro, tanto para sociedades unipessoais por quotas como para sociedades por quotas com vários sócios. Esta situação levanta questões sobre a confiança que pode ser expectável quando os sócios apenas se responsabilizam por valores mínimos tão reduzidos. A autora alerta que conhecer um cliente, fornecedor ou parceiro não é uma manifestação de desconfiança, mas sim uma forma de reduzir a assimetria de informação.

Como exemplo concreto, o artigo refere que em julho de 2025 a Financial Conduct Authority britânica aplicou ao banco Barclays uma sanção de 42 milhões de libras por falhas na gestão de riscos de criminalidade financeira, relacionadas com as empresas clientes Stunt & Co e WealthTek. A FCA identificou que o banco não tinha recolhido informação suficiente para compreender o risco de branqueamento de capitais, nem sequer tinha realizado uma consulta simples ao seu próprio registo de entidades autorizadas, que teria mostrado que a WealthTek não estava autorizada a deter dinheiro de clientes.

A autora conclui que as organizações que conseguem construir relações económicas mais sólidas o fazem porque conhecem melhor os riscos que assumem. Uma empresa pode perder dinheiro e recuperar, mas quando perde a confiança de quem a financia, compra, fornece ou investe nela, pode perder simultaneamente parte significativa da sua capacidade de criar valor. Este "criar valor" e "futuro" designa-se por produtividade, e sem aumento sustentado da produtividade, não há forma sustentável de aumentar salários.


Na economia moderna, uma boa parte do valor das organizações assenta em fatores que não aparecem de forma autónoma no balanço: reputação, qualidade de gestão, credibilidade da informação, robustez dos mecanismos de controlo interno, cultura ética, capacidade de antecipar riscos e, sobretudo, a confiança que a organização consegue gerar nas suas relações económicas e laborais. Neste contexto, a confiança não significa uma qualidade desejável, é sobretudo um fator económico.

Penso que é consensual que uma relação económica se baseia sempre, por um lado, em informação incompleta e, por outro, nas expectativas sobre o comportamento futuro da outra parte. Quase que parece um casamento!

É impossível prever todas as contingências e redigir contratos/acordos capazes de antecipar todas as situações. Quanto maior for o grau de incerteza, maior tende a ser a necessidade de verificação, proteção, supervisão e controlo. É aqui que a confiança ganha expressão económica: facilita a cooperação, reduz os custos de transação e permite que os recursos — capital, trabalho, conhecimento e tempo de gestão — sejam aplicados de forma mais eficiente. A OCDE tem vindo a sublinhar precisamente esta relação entre confiança, funcionamento dos mercados, investimento e crescimento económico.

Já falei anteriormente na questão do due diligence, em que duas empresas podem apresentar propostas comerciais semelhantes, mas o custo económico da relação não será necessariamente o mesmo.

A falta de confiança transforma-se, assim, em custo, e é por isso que a confiança pode ser vista como uma espécie de “infraestrutura invisível das relações económicas”, pois quando existe, muitas operações tornam-se mais simples; mas quando desaparece, multiplicam-se os mecanismos necessários para compensar a incerteza.

A economia não funciona apenas através de preços, mas também de expectativas – e a confiança é uma das bases dessas expectativas. Esta realidade ajuda-nos a compreender por que razão a governação das organizações deixou de ser uma preocupação apenas nas grandes sociedades cotadas ou aos manuais de gestão.

A boa governação tem consequências económicas concretas. Os Princípios de Governação Corporativa do G20/OCDE 2023 estabelecem expressamente a ligação entre governação, confiança e integridade dos mercados, eficiência económica, crescimento sustentável e estabilidade financeira. Não esquecer que são as estruturas de governação credíveis que podem melhorar o acesso das empresas ao financiamento, e por conseguinte, promovem o investimento, a inovação e a produtividade.

Uma empresa que apresenta uma informação transparente, mecanismos de controlo credíveis e responsabilidades bem definidas reduz a assimetria de informação entre quem gere e quem financia. Para um banco ou para um investidor, isso pode significar uma maior capacidade para avaliar o risco. Para um fornecedor, pode significar uma maior segurança sobre a continuidade da relação comercial. Para um cliente, pode incutir uma maior confiança na capacidade de cumprimento.

Porque, no final das contas, a qualidade da governação pode influenciar o custo e a disponibilidade do capital. Esta não é uma questão meramente institucional, passou a ser um problema económico.

“Continuamos a permitir abrir uma empresa com um euro”

Toda a atividade empresarial envolve risco. Em Portugal, temos o contrassenso de ignorar a avaliação do risco associado ao capital, pois continuamos a ter legislação que permite abrir uma empresa com um capital social de apenas um euro. Isso aplica-se especificamente a dois tipos de empresas: sociedade unipessoal por quotas – se abrir a empresa sozinho, o capital mínimo total pode ser de um euro – e sociedade por quotas – se a empresa tiver dois ou mais sócios, o valor mínimo é de um euro por sócio (ou seja, se forem dois, o capital social mínimo global será de dois euros). Ora, se o capital social é o montante investido pelos sócios ou acionistas da empresa para o início da atividade da empresa, ao permitir-se que os sócios apenas se responsabilizem por um euro, o que poderemos expectar em termos de confiança?

Por outro lado, não nos podemos fixar somente na eliminação do risco, pois no limite ao queremos reduzir totalmente o risco, podemos, em muitos casos, suprimir a capacidade de inovar, investir e crescer. Mas, há cautelas que são essenciais para a tomada de uma decisão consciente: conhecer um cliente, fornecedor, parceiro ou investidor não é uma manifestação de desconfiança. É uma forma de reduzir a assimetria de informação.

Questões aparentemente simples podem ter consequências económicas importantes:

  • Quem é realmente o beneficiário efetivo? Qual é a estrutura de propriedade e controlo?
  • Qual é a atividade efetivamente desenvolvida? Porque, não raras vezes, o CAE é uma miragem
  • A operação é coerente com essa atividade? Qual é a origem dos fundos?
  • Existem alterações recentes ou circunstâncias que modifiquem o risco?

O princípio económico subjacente é simples, quanto mais relevante for a incerteza, maior deverá ser a qualidade da informação antes da decisão. Isto não significa transformar todas as operações num processo burocrático pesado, antes pelo contrário. Uma abordagem baseada no risco permite concentrar os recursos onde eles são mais necessários, o que se torna particularmente importante para as empresas de menor dimensão, ou seja, para mais de 90% do tecido empresarial português.

Perante este cenário, o caminho a percorrer é entre o equilíbrio do controlo e o da eficiência. Um sistema de controlo que obriga uma pequena empresa a aplicar a todas as operações o mesmo grau de verificação utilizado por uma multinacional pode gerar custos desproporcionados, sem necessariamente produzir maior segurança. A eficiência exige proporcionalidade. Controlar tudo da mesma maneira pode ser tão inadequado como não controlar nada.

A gestão inteligente do risco procura identificar onde o controlo produz um maior valor. Controlos adequados podem parecer, à primeira vista, um fator que torna as empresas mais lentas, mas um controlo mal desenhado pode gerar burocracia; um controlo bem desenhado pode evitar interrupções, perdas e retrabalho.

Imaginemos uma empresa que depende de dezenas de fornecedores e que não dispõe de procedimentos adequados para validar alterações às contas bancárias dos seus parceiros. Uma alteração fraudulenta pode resultar numa transferência indevida. O custo não será apenas o montante perdido, pois ainda haverá o custo do tempo de investigação, a interrupção de processos, os custos jurídicos, a eventual litigância, a perturbação da relação comercial e, sobretudo, a perda de confiança.

O controlo que valida a alteração bancária tem um custo, é certo, mas a ausência desse controlo pode ter um custo muito superior. É precisamente por isso que não devemos olhar para os mecanismos de controlo apenas como meras despesas administrativas, pois este controlo protege a produtividade.

Em julho de 2025, a Financial Conduct Authority (FCA) britânica aplicou ao banco Barclays uma sanção global de 42 milhões de libras por falhas na gestão de riscos de criminalidade financeira, ou seja, falhas graves na gestão de riscos de branqueamento de capitais e crimes financeiros que envolveram duas empresas clientes: a Stunt & Co e a WealthTek.

Antes de abrir uma conta destinada a dinheiro de clientes, o Barclays não tinha recolhido informação suficiente para compreender o risco de branqueamento de capitais associado à relação com a WealthTek. A FCA identificou que uma verificação particularmente simples que poderia ter sido realizada, que é a consulta do seu (banco) próprio registo de entidades autorizadas. Essa consulta mostraria que a WealthTek não estava autorizada a deter dinheiro de clientes.

É certo que essa consulta prévia não teria evitado todas as consequências posteriores, mas uma verificação simples, realizada antes da decisão, poderia ter evidenciado um fator de risco material que deveria ter influenciado a avaliação da relação.

Voltamos, então, à questão inicial. Porque é que algumas organizações conseguem construir relações económicas mais sólidas do que outras? Não será apenas porque têm melhores produtos, ou porque apresentam melhores resultados. E também não será necessariamente porque assumem menos riscos. Mas, será porque conhecem melhor os riscos que assumem.

No fundo, trata-se de proteger a capacidade de uma organização continuar a merecer confiança. Porque uma empresa pode perder dinheiro e recuperar, pode perder um cliente e conquistar outro, pode enfrentar uma crise e reconstruir-se. Mas quando perde a confiança de quem financia, compra, fornece, trabalha ou investe nela, pode perder simultaneamente uma parte significativa da sua capacidade de criar valor.

Todas estas razões relacionadas com o significado de confiança – embora a confiança não apareça discriminada numa rubrica nas demonstrações financeiras – fundamentam porque razão está patente e contabilizada nas decisões, nos custos, no risco e, sobretudo, na capacidade de criar valor no futuro.

E este “criar valor” e “futuro” designa-se por “produtividade” que comummente tende a ser associada ao PIB, de uma forma errática. Podemos ter um crescimento de PIB e nem por isso os contribuintes estarem a aumentar a sua riqueza. Se cada hora trabalhada continuar a produzir um baixo valor, não há forma sustentada de aumentar salários.

Estamos quase no final do período de férias tradicional e em breve regressa-se às rotinas, às aulas, ao trânsito. Importa lembrar que se queremos mudanças para melhor, tanto na nossa esfera pessoal como profissional, devemos ter presente que a riqueza não se decreta por lei: cria-se através da combinação de talento, investimento, inovação, boa gestão e produtividade. E recordar as palavras de Fiódor Dostoiévski: “Um ato de confiança dá paz e serenidade”.

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Jornal Económico28/08/26, 10:00