Conceição Faria tem 76 anos, recebe uma pensão de reforma de 392 euros e paga 317 euros por um quarto em Benfica, Lisboa. Esta renda corresponde a cerca de 81% da sua pensão, deixando-lhe apenas 75 euros para todas as outras despesas. Segundo o seu testemunho à Renascença, frequentemente não consegue comprar os medicamentos prescritos pelo médico, preferindo passar fome a roubar.
Natural do Funchal, Conceição cresceu com oito irmãos numa família com dificuldades. Trabalhou no artesanato e em cabeleireiros, e ainda criança chegou a pedir sapatos nas lojas. Ainda menor, foi levada para Lisboa no navio Santa Maria com um documento de identidade falso, prometendo-lhe trabalho num salão de beleza que não existia. Só conseguiu escapar dessa situação em 1969, primeiro com ajuda da filha de uma das mulheres e depois com o apoio de um polícia.
Com a independência de Moçambique, regressou a Lisboa através da Ponte Aérea, mas voltou a partir para viver entre a Bélgica e Espanha durante mais de duas décadas. O regresso definitivo aconteceu em 1997, depois de um negócio falhado na Andaluzia. Conseguiu trabalho num hotel no centro de Lisboa e começou a acumular empregos, chegando a trabalhar das seis da manhã à meia-noite em quatro atividades diferentes: limpezas, hotel, outro emprego e metro.
Encontrou um T0 no bairro social das Galinheiras, onde viveu mais de 20 anos, mas em 2022 as infiltrações pioraram e chovia dentro da habitação. Aceitou mudar-se para a Covilhã com uma conhecida, mas acabou burlada e regressou a Lisboa. Vive agora num quarto em Benfica, partilhando um T6 com cinco idosos, descrevendo problemas de higiene, apenas dois bicos de fogão a funcionar e situações de violência por parte de um dos moradores. Com apoio do Centro Social de Nossa Senhora do Amparo, continua a procurar uma casa própria.




