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Enchem a ilha de estrangeiros e depois castigam os madeirenses

Madeira Opina7 de setembro de 2026 às 12:09

Este artigo de opinião critica as políticas de mobilidade no Funchal, argumentando que os residentes madeirenses estão sendo penalizados com restrições ao trânsito automóvel, enquanto as frotas de locadoras de veículos e o turismo massivo continuam crescendo sem controle. O autor aponta que o verdadeiro problema não são os madeirenses, mas a falta de regulação das empresas de aluguel de veículos e a transformação da cidade num resort para turistas. Apela para que o poder local enfrente os lobbies hoteleiros e turísticos e implemente soluções práticas para a população local, alertando que a continuidade dessa política pode alimentar o crescimento de forças políticas radicais.

O Funchal não é uma teoria de laboratório, são vivências que existiam e que querem banir, o madeirense é que paga sempre o custo da ilha do turismo massivo e da capital resort? 

A

ssistimos a mais um capítulo da higienização mediática das políticas de mobilidade no Funchal. Em grande página, surge o discurso académico a legitimar o desmantelamento da circulação automóvel em prol dos autocarros e do transporte público. A teoria, no papel e no ecrã do computador, é belíssima. Mais uma cópia de fora. Retira-se espaço ao carro privado, ganha-se eficiência coletiva. O problema é que o Funchal não é um laboratório virtual. É uma cidade acidentada, com uma população envelhecida, infraestruturas saturadas e uma realidade social que os gabinetes de planeamento e as narrativas oficiais insistem em ignorar.

A pergunta que ninguém quer fazer no poder local é simples, quem é que está verdadeiramente a descontrolar a mobilidade na capital? Eu respondo, Eduardo Jesus e suas rent-a-cars a metro que não têm números limite, continuam a entrar à grande, tenham coragem de olhar para os carros a circular e a estacionar nesta cidade e identifiquem o problema pelas etiquetas de rent-a-car ou aviso na boca do depósito da gasolina para deitar o combustível certo.

Carlos Rodrigues abordou Eduardo Jesus para mudar a política que está incomportável? Decidiu acabar com a "resortificação" da cidade com hotéis de cidade e Alojamentos Locais sem estacionamento próprio? Tem coragem de enfrentar o lóbi que provoca isto tudo? Hoteleiros, construção e serviços associados? Não! Qual o elo mais fraco? De novo o madeirense.

Acontece assim com o preço e gestão da água, com locais turísticos que também gostamos de visitar, com os estacionamentos tornados parques das rent-a-cars, agora o acesso automóvel aos Funchal, onde, podem escrever, a cidade ficará para carros de rent-a-car na cidade resort e o madeirense vai ser de novo escorraçado da sua capital. Enquanto se desenham corredores BUS e restrições à circulação sob o pretexto da "sustentabilidade", esquece-se o quotidiano real das famílias madeirenses. Como faz um filho que precisa de levar a mãe idosa ou o pai debilitado a uma consulta no centro do Funchal? Onde estão as soluções humanas e pragmáticas, como zonas de Kiss & Ride ou acessos facilitados e protegidos para quem presta cuidados a familiares? Não existem. A resposta da gestão municipal é punitiva, encarecer, dificultar e afastar. Carlos Rodrigues é igual a Eduardo Jesus. O madeirense é, passo a passo, escorraçado da sua própria capital.

Esta forma de governar segue um padrão antigo e bem conhecido na Região: criar o problema através da desregulamentação para depois vender soluções dispendiosas que beneficiam os do costume. É a lógica do "cimento": em vez de se atacarem as causas estruturais, como criar hubs e estações de rent-a-car fora do núcleo urbano com shuttles próprios ligados aos hotéis, prefere-se intervir na via pública com obras (pilaretes), restrições e custos acrescidos para o cidadão comum. Afinal o que foi que descontrolou? As rent-a-car, não os madeirenses!

Não foram os funchalenses nem os madeirenses que, subitamente, decidiram encher as artérias da cidade com milhares de viaturas com o "dinheirão" que ganham desta economia de fazer pobres e mal pagos. O caos do trânsito é o resultado direto de uma estratégia política que escancarou as portas da ilha ao turismo massificado e à pressão imobiliária estrangeira, sem qualquer planeamento de salvaguarda para quem cá vive e trabalha. O resultado está à vista de todos.

As frotas de rent-a-car multiplicaram-se e ocupam o espaço público como se de parques de estacionamento privados se tratasse, enquanto o residente perde continuamente o acesso ao centro.

A pressão turística inflaciona os custos de vida, desde a gestão e preço da água aos parques de estacionamento públicos, transformando o Funchal numa "cidade-resort" feita à medida do visitante de curta duração.

O mais grave neste cenário é a cegueira e a conivência de parte da oposição política, porque vivem também dos mesmos lóbis, acham que ofendê-los retira votos, e depois lá vão visitar os madeirenses que emigraram, que cinismo! Ao alinharem acriticamente com a agenda ideológica do transporte público sem exigirem alternativas reais para a população local, estes partidos tornam-se cúmplices do sentimento de abandono vivida pelos cidadãos. A revolta e o sentimento de injustiça que hoje se sentem nas ruas já não são meras discussões de café ou escaramuças passageiras, são o reflexo de uma população calada, medrosa, mas indignada que vê a sua qualidade de vida ser sacrificada em nome do negócio e da conveniência de terceiros.

Se a oposição continuar a ir na "cantiga" e a ignorar a dor real de quem precisa da cidade para viver, não se surpreendam com o crescimento das forças de rutura e do protesto radical. Ninguém precisa de perguntar como crescem certas dinâmicas políticas. Viram a Alemanha ontem? Elas crescem precisamente aqui, na incapacidade e clientelas dos partidos tradicionais, no descontentamento gerado por decisões que tratam os locais como um obstáculo e a cidade como um mero ativo turístico.

O Funchal precisa de mobilidade inteligente, sim, mas precisa, acima de tudo, de ser uma cidade funcional para os madeirenses. Reparem que os madeirenses estão a ser o acessório e o turismo o primordial. Antes de se fechar a capital a quem lá trabalha e cuida dos seus, exige-se coragem para regular quem verdadeiramente descompensou o sistema.

Nota: vão acabar de vez com o comércio tradicional e ficará todo tipo de gente de fora que vende o que o turista quer, as grandes superfícies ganham em comodidade. É assim que se "resortifica".

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