A exposição "3 Vistas de Lisboa" no Museu de Lisboa, no Palácio Pimenta, revelou que um quadro anteriormente intitulado "Junot passando revista às tropas no Rossio" não retrata o general francês Junot, mas sim a primeira formatura do Regimento de Infantaria dos Voluntários Reais do Comércio de Lisboa, criado em 1809, após a retirada das tropas invasoras. Os especialistas Philippe Mendes, Pedro Flor e Paulo Almeida Fernandes determinaram que o protagonista da tela, um cavaleiro com chapéu de dois bicos, é provavelmente António Francisco Machado, comerciante de tabaco e primeiro comandante desse corpo miliciano de elite, formado por burgueses e homens de negócios lisboetas.
A investigação identificou que Machado foi obrigado a pagar 120 mil réis como "Empréstimo Forçado" ao exército de Junot, conforme lista publicada na Gazeta de Lisboa em 3 de dezembro de 1807. A obra permaneceu durante décadas na coleção da família Machado, descendente do comerciante, o que indicia ter sido ele o encomendador do quadro. Propõe-se que o novo título seja "A primeira formatura do regimento de infantaria dos Voluntários Reais do Comércio". O quadro, que esteve escondido por quase dois séculos e foi brevemente exposto em 1947 no Museu Nacional de Arte Antiga aquando das celebrações da tomada de Lisboa aos mouros, invasão francesa e fuga da corte para o Brasil, pertence agora ao príncipe Rahim Aga Khan V, residente em Genebra.
Existe outro quadro com o mesmo título, desta vez uma gravura a tinta-da-china de Luís António Xavier (LAX), que realmente retrata Junot a passar revista no Rossio em 1 de fevereiro de 1808, conforme descrito na Gazeta de Lisboa da época. A obra de LAX mostra Junot a cavalo com o uniforme da Legião de Honra, acompanhado de oficiais-generais, vindo do palacete do Barão de Quintela na Rua do Alecrim para o Rossio, com a bandeira tricolor francesa hasteada no Castelo de São Jorge. Este desenho, em contraste com a tela anónima, apresenta uma parade militar rigorosa e ordenada.
A tela anónima, além da controvérsia sobre o protagonista, constitui um valioso documento histórico de Lisboa no início do século XIX, mostrando a reconstrução pós-terramoto de 1755, os edifícios pombalinos do Rossio, o Café Nicola, as ruínas do Convento do Carmo (com metade das janelas que hoje possui, pois o edifício viria a ser quartel da GNR), e multidões de lisboetas que viveram meio século de convulsões políticas e sociais desde o terramoto até às invasões francesas. A obra estará exposta no Museu de Lisboa até final de setembro, disponibilizada pelo novo proprietário.




