Cinco anos depois de os talibãs terem entrado em Cabul, a 15 de agosto de 2021, marcando o fim abrupto e humilhante de duas décadas de intervenção ocidental no Afeganistão, o país desapareceu em grande parte dos ecrãs mundiais. As imagens icónicas de famílias nos portões do aeroporto de Cabul, de pessoas a correr pela pista e a agarrar-se aos aviões, tornaram-se um símbolo do colapso de um projeto político. A responsabilidade do Ocidente não terminou quando as últimas tropas partiram, argumenta o autor do artigo.
As consequências da retirada têm sido particularmente profundas para milhões de afegãos, especialmente mulheres e raparigas. O Afeganistão continua a ser o único país do mundo onde raparigas e mulheres são excluídas do ensino secundário e superior, com a UNESCO a estimar que 2,4 milhões de raparigas estão atualmente impedidas de estudar. As mulheres têm sido progressivamente excluídas do emprego e da vida pública, sujeitas a restriçõesseveras à mobilidade e a qualquer forma de expressão. O Relator Especial da ONU para o Afeganistão concluiu que o sistema imposto equivale ao crime contra a humanidade de perseguição de género.
Os Estados Unidos gastaram cerca de 2,3 biliões de dólares na sua guerra de 20 anos, mas as forças governamentais e de segurança que apoiavam colapsaram rapidamente mal o apoio americano e da NATO acabou. Antes do regresso dos talibãs, a ajuda externa financiava cerca de três quartos das despesas públicas do Afeganistão, tornando essa soberania dependente de instituições, dinheiro e poder militar estrangeiros. Mais de 22 milhões de afegãos necessitam de assistência humanitária, incluindo 10,7 milhões de mulheres e raparigas.
O autor defende que isolar o Afeganistão não é solução, propondo um envolvimento sem legitimação: manter canais diplomáticos enquanto se recusa a aceitar a repressão, apoiar a assistência humanitária e a sociedade civil afegã, garantir oportunidades educativas para raparigas e honrar os compromissos feitos àqueles que confiaram nos governos ocidentais. O futuro do Afeganistão não pode ser desenhado apenas em Washington, Bruxelas ou Londres, sendo a cooperação regional com países como o Irão, o Paquistão e a China indispensável.




