Nos últimos dias de agosto de 1945, após a rendição do Japão, Hong Kong encontrava-se numa situação delicada. As forças nacionalistas chinesas de Chiang Kai-shek poderiam ocupar a colónia britânica, transformando a capitulação nipónica numa mudança irreversível de poder. Se tal acontecesse, Macau ficaria igualmente ameaçado, pois o enclave português, neutro mas indefeso, seria inevitavelmente absorvido pela vaga nacionalista de recuperação territorial.
A comunidade portuguesa e macaense em Hong Kong e Macau desempenhou um papel decisivo nesta conjuntura. O Dr. Eduardo Liberato "Eddie" Gosano, médico e agente do British Army Aid Group (BAAG), sobreviveu aos campos de Sham Shui Po e Argyle antes de conseguir fugir para Macau. Leonardo d'Almada e Castro, prestigiado jurista, Jack Braga, operador de rede de informações a partir de Macau, e Bernard Felix Xavier, sinaleiro e agente da OSS, integraram esta rede que operava entre comunidades, consulados e zonas de conflito.
A operação mais extraordinária consistiu na viagem de Gosano e d'Almada e Castro da China ocupada até Londres, onde obtiveram um mandato formal para a restauração da administração britânica em Hong Kong. Regressaram atravessando fronteiras fechadas, com identidades falsas, até chegarem a Sham Shui Po, onde entregaram as ordens a Franklin Gimson, ainda prisioneiro. Gimson declarou a restauração do governo britânico a 28 de agosto de 1945, dois dias antes da chegada da Royal Navy. O Coronel Henrique Alberto de Barros Botelho, combatente da Batalha de Hong Kong e prisioneiro de guerra, também participou em missões especiais para coordenar a libertação.
Em 2024, o Estado português prestou homenagem oficial a estas comunidades através do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, por ocasião do aniversário da libertação de Hong Kong. As celebrações incluíram visitas à Associação do Royal Hong Kong Regiment, ao Museu de História de Hong Kong, ao Clube Lusitano e ao Clube de Recreio, onde decorreram uma missa campal e a deposição de uma coroa de flores em memória dos portugueses mortos no conflito.




