O artigo critica duramente a cobertura do Diário de Notícias sobre o ferry que liga o continente à Madeira, acusando o matutino de defender sistematicamente os interesses do seu proprietário, o Grupo Sousa. O autor lembra que o jornal já havia apoiado posições semelhantes no passado, como no caso do "inquérito parliamentary sobre as obras inventadas", e alerta que todos os que aparecem no jornal podem um dia ser descartados quando deixarem de ser úteis aos interesses econômicos do grupo. A primeira página do DN destaca um título alarmista, "MELHOR CENÁRIO DO FERRY TERIA DÉFICIT DE 18,59 MILHÕES", procurando convencer o leitor de que a operação marítima é inviável.
O artigo revela uma falha metodológica grave no estudo publicado pelo DN: apenas um armador foi consultado, precisamente o Grupo Sousa, que é simultaneamente proprietário do jornal e detentor do monopólio do transporte de mercadorias para a Região. Outros operadores internacionais identificados no relatório, como o Grupo ETE, Grimaldi, Baleària e FRS Portugal, simplesmente "não responderam" ou "não foi possível o contato", segundo o próprio relatório. O autor questiona como um estudo que pretende analisar concorrência e custos marítimos pode basear-se exclusivamente no operador que detém o monopólio.
O editorial do diretor, Ricardo Miguel Oliveira, sob o título "A utopia tem um preço", classifica o debate sobre o ferry como uma "sucessão de versões confortáveis" e conclui que o ferry é uma despesa desnecessária. Para dar aparência de pluralismo, o jornal abriu uma seção a três convidados, um do PS, um da Iniciativa Liberal e o presidente da Ordem dos Economistas regional, mas o autor argumenta que as perguntas induzidas e o enquadramento editorial garantem que essas vozes acabem por legitimar a narrativa do grupo proprietário, tal como candidatos em uma fotografia de campanha.
O autor conclui que o sistema político e social made
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oje lembrei-me do Sérgio Marques a passar capas do Diário de Notícias naquele inquérito parlamentar sobre as obras inventadas. Hoje tivemos mais uma vez a postura completamente sectária do Diário de Notícias a defender a posição do seu proprietário. Serve de exemplo a muitos que lhe dão força com a sua presença no matutino para o que lhes espera quando por alguma razão, em eleições ou outros enfrentamentos já não interessarem ou haver um "valor" maior a defender como a subsistência do Diário de Notícias
Fica claro como o DN, em contactos a cada um, compõe depois a participação de muitos na narrativa do senhor Sousa. É assim que se manipula, parecem as fotografias de campanha eleitoral em que o candidato encosta, o fotógrafo tira a foto e todos passam a ser apoiantes. Andam todos a ser levados pela certa com a sua vaidade, aparecem no sistema e participam nele.
Na primeira página, o destaque é intencionalmente alarmista, «MELHOR CENÁRIO DO FERRY TERIA DÉFICE DE 18,59 MILHÕES». O leitor que apenas passa os olhos pela banca fica imediatamente programado com o dogma do costume, o ferry é insustentável, inviável e uma loucura financeira. O Diário sabe que não é lido? Ou sabe do vício de tantos madeirenses?
Ao folhear para as páginas centrais (páginas 6 e 7), a manchete é ainda mais perentória, «APENAS 32% EMBARCAM», acompanhado por uma citação em destaque gigantesco (quote box) destinada a selar o veredicto político
A ausência de uma verdadeira falha de mercado (...) torna questionável a própria justificação da imposição de uma obrigação de serviço público.
Trata-se do desmantelamento metódico do próprio conceito de continuidade territorial. Quando se fala de transporte rodoviário, aéreo ou marítimo para regiões insulares, o debate num Estado de Direito soberano baseia-se no direito de mobilidade dos cidadãos e na quebra de monopólios. Mas para a linha editorial do matutino, a coesão territorial passa a ser tratada como um mero "capricho dispendioso".
O detalhe escondido, a auscultação a um único armador, por vontade dos autores do estudo ou pelo descrédito da Região e das entidades com longos anos de novela de ferry que acaba sendo sempre para matá-lo e manter intocável o monopólio do senhor Sousa, proprietário do Diário de Notícias.
No meio de um mar de números negativos, tabelas e gráficos desenhados para desacreditar a operação marítima, surge um pequeno caixa de texto na página 6, assinado por João F. Pestana, que desmascara todo o aparato, «RELATÓRIO SÓ CONSEGUIU OUVIR UM ARMADOR». Não pensou mais além?
O Grupo Sousa foi o único armador ouvido no estudo, a 25 de Março. O relatório identifica 4 outros armadores — Grupo ETE, Grimaldi, Baleària e FRS Portugal — para auscultação, mas diz que 'não se obteve resposta ou não foi possível o contacto'.
Este pormenor revela a fragilidade metodológica do estudo e a parcialidade da cobertura. Num trabalho que se pretende rigoroso sobre concorrência e custos marítimos, o único operador privado auscultado foi precisamente o grupo detentor do monopólio do transporte de mercadorias para a Região, e que é, simultaneamente, o proprietário do próprio Diário de Notícias. Todos os outros potenciais concorrentes internacionais simplesmente "não responderam" ou "não foi possível o contacto".
Apesar desta falha gravíssima, o jornal não questiona a validade do estudo, pelo contrário, pega no documento e transforma-o na sua verdade absoluta. Também não lhe importa destacar do mesmo descrédito de que enferma.
O "Editorial-Sentença" e a ilusão de pluralismo vem em seguida. A opinião do diretor, Ricardo Miguel Oliveira, sob o título «A utopia tem um preço», encarrega-se de ditar a sentença política. O texto desvaloriza anos de debate sobre o ferry, classificando-o como uma "sucessão de versões confortáveis" e concluindo que "o ferry não é a solução que falta no mercado, é a despesa que importa decidir antes de assumir". Ninguém vista toda a Europa para ver a enormidade das afirmações fixas ao senhor Sousa?
Para conferir uma patina de "isenção" e pluralismo, o jornal abre a página 28 (seção Observatório) a três convidados: um deputado do PS (Carlos Pereira), um da Iniciativa Liberal (Gonçalo Maia Camelo) e o presidente da Ordem dos Economistas regional (Paulo Pereira). É o clássico expediente de incluir vozes divergentes, estrategicamente enquadradas por perguntas induzidas ("Quais os maiores riscos para a sustentabilidade?"), garantindo que as individualidades locais continuem a responder à chamada do jornal, alimentando a sua própria vaidade de figurar nas páginas do matutino, enquanto ajudam involuntariamente a legitimar a moldura (the framing) traçada pelo grupo proprietário. Quantos deles sabem que estão numa emboscada que é o conjunto da edição do DN Madeira ou da pergunta inquinada para condicionar?
Tal como as tradicionais fotografias de campanha, em que o candidato encosta para a foto e todos passam automaticamente a figurantes do enredo, o sistema político e social madeirense continua a cair no mesmo abraço do urso, participa docilmente no ecossistema mediático que, no dia em que os interesses do poder económico assim o exigirem, não hesitará em descartar qualquer um em nome de um "valor maior", a manutenção das suas rendas e monopólios.
O ferry é rentável até mesmo com concorrência, há soluções já experimentadas que condicionaram, limitaram e expulsaram. Tudo começou com o interesse de um privado e agora estamos nesta conversa parva. Entretanto o senhor Sousa comprou mais 2 transitário e a autoridade da concorrência nada vê, até parece as "autoridades" do estudo.