Manuel Castelo Branco, professor com passagem pelo Governo Barroso e atual presidente do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), defende uma aproximação entre o Politécnico e a Universidade de Coimbra, considerando que essa fusão é o destino comum das grandes instituições acadêmicas da cidade. Em entrevista ao Campeão das Províncias, Castelo Branco afirma que Coimbra pode ser um campus único que contraria o centralismo de Lisboa e do Porto.
O ISMT, com 90 anos de história, é a segunda escola de Serviço Social mais antiga do país, tendo sido fundada por Bissaya Barreto para formar profissionais para a sua obra. A instituição é única em Portugal por pertencer à Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra, sendo titulares os 19 municípios da região. Essa ligação estatutária permite levar cursos e formação aos diversos municípios, conectando a escola a prefeituras, empresas e instituições sociais.
Manuel Castelo Branco assumiu a direção num momento difícil, após um processo que considerou ter causado danos injustos à escola, com dúvidas infundadas sobre a qualidade do ensino levantadas por entidades sem legitimidade democrática. Os alunos foram fundamentais ao permanecerem e defenderem a instituição, mantendo os inscritos apesar da queda de novos alunos. As conversas com a Universidade de Coimbra decorrem com serenidade e sem retrocesso, existindo vários modelos possíveis, desde protocolos de colaboração até um consórcio ou integração formal.
O Instituto planeja ainda expandir-se para a Baixa de Coimbra, na Rua Ferreira Borges, num desejo que coincide com uma prioridade da Câmara Municipal. Cerca de 1.200 alunos e centenas de formandos poderão devolver movimento à zona histórica. Castelo Branco garante que a identidade do Miguel Torga não será negociada, mantendo o nome, os cursos, os professores e a autonomia acadêmica. Defende ainda que Coimbra não pode tornar-se periférica e que a cidade precisa recuperar poder e ambição.
Professor, com passagem pelo Governo Barroso e presidente do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), Manuel Castelo Branco fala ao Campeão das Províncias sobre o futuro da instituição, a aproximação à Universidade de Coimbra, a expansão para a Baixa e a necessidade de a cidade recuperar poder e ambição. E garante: a identidade do Miguel Torga não será negociada.
Campeão das Províncias [CP]: Divide o tempo entre Cantanhede, Coimbra e a Figueira da Foz. Como vive esta ligação?
Manuel Castelo Branco [MCB]: Vivo em Buarcos há dezassete anos e encontrei ali uma comunidade, feita das pessoas, dos cafés, dos restaurantes e dos encontros quotidianos. Quando isso se junta à beleza da baía, é um privilégio. Depois há a Praia de Mira, uma paixão ligada às memórias da família, da infância e da adolescência. Todos os fins-de-semana, fizesse chuva ou sol, íamos para lá. Aprendi a gostar daquele Atlântico duro, sobretudo no Inverno. As minhas Maldivas ficam entre Mira e Buarcos.
[CP]: E Coimbra é sobretudo uma terra de trabalho?
[MCB]: Também é uma terra de afectos. Vivo e trabalho aqui há muitos anos, o meu filho é de Coimbra e estão aqui grandes amigos. Passei ainda pelo Governo, uma experiência marcante, mas a minha vida está sobretudo ligada à cidade e ao ensino superior.
[CP]: Que avaliação faz das escolas do Politécnico de Coimbra?
[MCB]: São escolas muitíssimo qualificadas, capazes de competir com quaisquer outras em Portugal. Entre elas está a Coimbra Business School, onde lecciono, mas essa qualidade estende-se às restantes. A Escola Superior Agrária é uma verdadeira jóia da coroa. Também ensinei no Porto e não tenho dúvidas quanto à excelência destas instituições.
[CP]: Há seis anos já defendia uma aproximação entre o Politécnico e a Universidade de Coimbra. Continua a considerá-la necessária?
[MCB]: Continuo. A minha candidatura, lançada numa entrevista ao Campeão das Províncias, assentava numa fusão, entre Universidade e Politécnico. Penso que esse é o destino comum das grandes instituições académicas de Coimbra. A própria cidade é um campus e, num país sem regionalização, o ensino superior pode contrariar o centralismo de Lisboa e do Porto.
[CP]: É nesse contexto que surge o Instituto Superior Miguel Torga?
[MCB]: O Miguel Torga não é uma escola qualquer. Tem 90 anos e é a segunda escola de Serviço Social mais antiga do país. Foi criada por Bissaya Barreto para formar profissionais para a sua obra, antecipando uma ideia de Estado Social, e ficou marcada pelo progressismo de Teresa Granado. Junta-se o legado de Miguel Torga: a defesa da liberdade, do saber e da cultura perante poderes arbitrários. Essa herança obriga-nos a preservar a dimensão humanista.
[CP]: A propriedade e a ligação ao território também tornam o Instituto singular?
[MCB]: É uma realidade provavelmente única em Portugal e talvez na Europa. A escola começou ligada à Junta da Província da Beira Litoral, passou pela Junta e pela Assembleia Distrital e, com a extinção desta, ficou na esfera da Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra. Os titulares são os 19 municípios da região. Isso dá-nos uma responsabilidade e uma oportunidade enormes.
A nossa intervenção vai do litoral praticamente até à Guarda. Nenhuma outra escola de Coimbra tem esta ligação estatutária. Através da Escola de Coimbra, levamos cursos e formação aos concelhos, quase como um ensino “ao domicílio”. O Interior começa muito perto de Coimbra. Esta presença liga-nos a autarquias, empresas, associações e instituições sociais.
[CP]: Assumiu a direcção numa altura difícil. O que encontrou?
[MCB]: Encontrei uma escola atingida por um processo que me desapontou, sobretudo pelo peso e papel de entidades sem legitimidade democrática e com motivações obscuras. Foram levantadas dúvidas infundadas e injustas sobre a qualidade do ensino. Isso causou um dano enorme. Uma avaliação séria faz-se com transparência e permite corrigir o necessário. Não se põe em causa uma escola com esta história através de insinuações.
[CP]: Como reagiu a comunidade académica?
[MCB]: Os alunos foram fundamentais: permaneceram e defenderam a escola. Mantivemos os inscritos, embora tenha havido uma quebra de novos alunos, em linha com a quebra então acontecida em todo o ensino superior, com consequências duras. Pertencemos a entidade pública, mas somos financiados exclusivamente pelas propinas. Apesar de pertencemos a 19 municípios prestarmos um serviço público.
[CP]: Em que ponto está a aproximação à Universidade de Coimbra?
[MCB]: O impulso partiu do Miguel Torga. E as conversas decorrem com serenidade. O processo começou antes da alteração do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, mas ganhou novas possibilidades. Uma mudança anterior resolvera outro problema: as leis autárquicas e o RJIES não previam uma instituição privada tutelada por uma comunidade intermunicipal. Derrubado esse “muro de Berlim jurídico”, abriram-se vários modelos de colaboração.
[CP]: Que modelos estão em cima da mesa?
[MCB]: Não há um modelo fechado. Pode haver protocolos de colaboração, projectos conjuntos, um consórcio ou uma integração formal. O consórcio permite colaborar sem retirar autonomia. A CIM pode participar directamente ou através de uma entidade intermunicipal, conjugando uma escola privada com uma universidade pública. A integração poderia transformar o Miguel Torga numa unidade orgânica, mas estamos longe dessa decisão. É preciso construir confiança e avaliar os benefícios recíprocos dos vários modelos possíveis.
[CP]: A Universidade é o parceiro desejado? Houve algum recuo depois de o processo se tornar público?
[MCB]: É o parceiro natural e desejado. A Universidade tem uma dimensão científica, humana e material extraordinária; o Miguel Torga acrescenta história, qualidade, flexibilidade e ligação profunda ao território. Temos sido contactados por entidades privadas fortes, mas não é esse o caminho que desejamos.
Também não houve recuo. Houve ruído semântico, apenas. Os órgãos da Universidade ainda não apreciaram profundamente este processo embrionário. Deixo um tributo ao Reitor: há dois anos, num momento difícil, a Universidade ajudou-nos de forma imediata e incondicional. Isso foi então decisivo e demonstrou que reconhece a nossa qualidade.
[CP]: Há garantias de que o Instituto não perderá a identidade?
[MCB]: Essa condição é intocável. Seja qual for o modelo, o Miguel Torga não desaparece. Mantém o nome, a identidade, os cursos, os professores, os funcionários, os alunos e a autonomia académica. Temos docentes de altíssima qualidade. Uma escola com 90 anos não pode ser diluída. Respondemos perante a CIM, os municípios e a comunidade académica.
[CP]: É também neste quadro que surge a ida para a Baixa?
[MCB]: A mudança junta um desejo do Instituto a uma prioridade da Câmara. Quando Ana Abrunhosa falou da revitalização da Baixa através do ensino superior, quisemos participar. O município e a CIM disponibilizaram dois edifícios na Rua Ferreira Borges, com acesso pela Praça do Comércio. Queremos começar aí as aulas a 14 de Setembro. Alguns serviços continuarão em Celas, mas professores, funcionários, cerca de 1.200 alunos e centenas de formandos podem devolver, e vão devolver, movimento e vida diários à Baixa.
[CP]: Tem dito que Coimbra é uma cidade demasiado confortável. O que quer dizer?
[MCB]: Coimbra tem uma qualidade de vida extraordinária, mas esse conforto pode gerar uma “modorra psicossociológica”. Estando bem, para quê mexer? Gosto desse lado “coimbrinha”, mas o mundo muda depressa, Lisboa e Porto concentram o poder e Coimbra pode tornar-se periférica.
Muitos jovens da cidade já procuram as universidades “da moda” de Lisboa e do Porto, apesar de Coimbra continuar a oferecer, em muitas áreas, o melhor ensino. Procuram também as redes ligadas ao poder político, económico e social. Sem regionalização, Coimbra perdeu parte desse poder de atracção.
[CP]: Ainda acredita que Coimbra pode inverter essa tendência?
[MCB]: Acredito. Cambridge e Oxford também não ficam em Londres. Coimbra tem tudo para construir uma estrutura forte, com a Universidade como grande pólo nacional e internacional, integrando o Politécnico e o Miguel Torga. Trazemos uma ligação única aos municípios, ao território e às redes internacionais das autarquias. Defenderemos a escola, as suas pessoas, a sua autonomia, a sua ligação umbilical ao território. Há momentos em que é preciso saber dizer não. Sabemos quais as linhas que não podem ser ultrapassadas.
LINO VINHAL / JOANA ALVIM