O artigo aborda a crescente impoveria vocabular e cultural da sociedade, exemplificando com uma situação presenciada num jogo de cartas. Uma criança de cerca de oito anos chamou "flamingo" a um golfinho, e quando corrigida por um adulto, insistiu que eram "a mesma coisa" por serem ambos "animais". O artigo usa este episódio para ilustrar um problema mais amplo de desconhecimento e desinteresse em distinguir e nomear coisas.
A autora cita Irene Vallejo, que refere que quem lê consegue expressar melhor as suas ideias, traduzir emoções em palavras e verbalizar o percurso da aprendizagem. Gregorio Luri é igualmente citado, afirmando que leitura, escrita e fala estão unidas, e que o fracasso escolar é fundamentalmente um fracasso linguístico.
O texto compara a sociedade atual aos "australopitecos viciados no telemóvel", uma droga difícil de combater precisamente pela sua utilidade. O fenómeno do "é a mesma coisa" já terá atravessado o ensino secundário, alimentado pela falta de curiosidade e pelo fechamento no narcisismo e nas certezas que nascem da ignorância.
Para reforçar o argumento, a autora conta que uma funcionária de supermercado não conseguiu identificar gengibre, perguntando se era uma "beringela". O artigo termina com uma provocação: se até futebolistas como Cristiano Ronaldo e Lionel Messi seriam considerados "a mesma coisa" por serem ambos "jogadores".

Era um jogo de cartas, o chamado «double» em que se procurava uma imagem repetida na outra carta. A certa altura, um dos jogadores, com cerca de oito anos, disse rapidamente «flamingo» quando o animal representado era um golfinho. O outro, adulto, contrapôs que não estava certo, pois um golfinho e um flamingo eram animais completamente diferentes. Ao que a criança respondeu: «é a mesma coisa». O outro mostrou-lhe no telemóvel imagens de um golfinho e de um flamingo, para provar que nada tinham de parecido sequer. Mas não se convenceu, continuava a ser a mesma coisa, pois eram «animais». Do mesmo modo, parece só haver uma categoria de plantas, com a designação geral de «ervas». Por isso, as mãos já não têm flores nos vasos, limitando-se a cultivar «ervas». E quem diz que é tudo a mesma coisa são os mesmos que perguntam «posso água?» «Posso bolacha?». É que o mundo das palavras se reduz de tal modo que já não há forma de distinguir, nem de nomear, não há o mínimo interesse nem curiosidade em entender, aprender. Paralelamente à recusa da leitura, a par da rejeição dos livros, da palavra impressa, há uma indigência vocabular e cultural que nos transporta para o reino das cavernas. É que tal como refere Irene Vallejo em Manifesto pela leitura: «Quem lê é capaz de exteriorizar com mais clareza as suas ideias, de traduzir por palavras as suas emoções, de ordenar e de verbalizar o percurso da sua aprendizagem». Nesta sequência, a autora cita ainda o filósofo Gregorio Luri «Leitura, escrita e fala estão unidas. Através da leitura reforçamos o significado das palavras que julgamos entender e aprendemos palavras novas. As crianças que leem mais falam e escrevem melhor. O nosso fracasso escolar é, basicamente, um fracasso linguístico. É-o até na matemática».
Com efeito, a ausência de leitura dificulta também a leitura do mundo, pois tal como afirmou a antropóloga francesa Michelle Petit, «Somos animais poéticos». De um modo geral, vivemos o tempo dos australopitecus viciados no telemóvel, uma droga potente, que, devido ao facto de ter também uma vertente útil, imprescindível, e torna muito difícil de combater.
Assim, o mundo reduz-se a meia dúzia de palavras, uma roseira ou uma urtiga são ervas, o leão e a foca são animais, por isso tudo é a mesma coisa. A natureza da qual fazemos parte deixou de existir e esse desconhecimento de plantas, legumes e outros elementos já começou há algum tempo. O «é a mesma coisa» , pelo que me dizem amigas professoras já cruza as linhas do ensino secundário, embalado pela falta de curiosidade, , por um fechamento na concha do narcisismo e das certezas que sempre nascem no solo da ignorância.
No outro dia, num supermercado, comprei gengibre. A funcionária da caixa olhou para o gengibre, deu-lhe voltas, revirou e nada, não registava, não avançava. Perguntei se havia algum problema. Foi então que ela perguntou: «isto é uma beringela, não é?».
Regressamos ao mesmo, uma beringela converte-se em «sinónimo» de gengibre. Agora pergunto, se, no meio da «febre» de colecção dos cromos dos futebolistas do Mundial, poderemos dizer que o Cristiano Ronaldo ou o Lionel Messi são a mesma coisa? Jogadores, não é? Ou haverá alguma diferença?