O último Neandertal e a reforma da Segurança SocialFoto de Los Muertos Crew no Pexels
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O último Neandertal e a reforma da Segurança Social

Jornal Económico28 de agosto de 2026 às 00:13

O autor desta peça leu durante as férias o livro de Ludovic Slimak, "O último Neandertal" (2023), que o impressionou tanto pela pesquisa acessível ao público geral quanto pelas inferências que permite fazer sobre a realidade atual. Segundo Slimak, o desaparecimento dos Neandertais não resultou de uma derrota externa ou extinção violenta, mas de um colapso cultural e social interno, caracterizado pela erosão rápida das suas estruturas sociais. Além disso, os Neandertais não eram uma versão imperfeita do Homo sapiens, mas uma forma diferente de humanidade com cultura e racionalidade próprias.

O autor destaca que, diferentemente dos sapiens, os Neandertais eram menos capazes de se integrarem em redes amplas de troca e adaptação, o que os tornou vulneráveis num mundo em grande transformação. A extinção não é excepcional, mas uma possibilidade permanente das sociedades humanas, incluindo as mais sofisticadas, que podem se tornar estruturalmente frágeis se perderem capacidade institucional e cultural de se adaptarem a transformações profundas.

Aplicando essas ideias à atualidade, o autor argumenta que a segurança social não deve ser vista apenas como resposta agregada às necessidades individuais de proteção, mas como instituição fundamental de organização coletiva das sociedades modernas. Numa economia moderna, a produtividade resulta de bens públicos e instituições coletivas que garantem educação, saúde, pesquisa, infraestruturas e proteção social, de modo que a segurança social é parte essencial da infraestrutura institucional que permite o funcionamento do sistema econômico.

O autor conclui que, sendo a riqueza gerada por ação coletiva, o financiamento da proteção social não pode se centrar apenas nas contribuições de trabalhadores e empresas empregadoras, especialmente num contexto em que a automação e a inteligência artificial tenderão a substituir o trabalho direto. O financiamento da proteção social deve ser encarado como responsabilidade coletiva, garantindo a adaptação que Slimak identifica como decisiva para a sobrevivência das comunidades humanas.

Nestas férias aproveitei para terminar a leitura do livro de Ludovic Slimak, O último Neandertal, sugestivamente subintitulado, Compreender como morrem os homens (2023). Não sendo um especialista em paleoantropologia – longe disso –, não posso deixar de manifestar o impacto francamente positivo que o livro me causou. Não apenas pela investigação notável que é tornada acessível a um público vasto, no qual me incluo, mas, sobretudo, pela inferência que nos convida a fazer para a realidade atual que a Europa e o Mundo estão a atravessar.

Correndo o risco de uma interpretação redutora quero salientar duas ou três ideias que me parecem particularmente impressivas e que vão contra o senso comum instalado. A primeira, a de que o desaparecimento dos Neandertais poderá ser visto como uma forma de colapso cultural e social interno, mais do que como o resultado de uma derrota externa. Ou seja, em termos do próprio autor, não como uma extinção violenta, mas como o resultado da erosão – bastante rápida para o referencial temporal do período – das estruturas sociais e culturais em que viviam.

A segunda ideia, ligada à primeira, é a de que os Neandertais não podem ser vistos como uma versão imperfeita do Sapiens, mas como forma diferente de Humanidade com uma cultura e modos de vida próprios e com uma racionalidade própria.

A terceira é a de que, diferentemente dos Sapiens – com quem terão coexistido até mais recentemente do que é suposto – os Neandertais eram menos capazes de se integrarem em redes amplas de troca e de adaptação, o que os tornou mais vulneráveis num mundo que se encontrava em grande mudança.

Arrisco acrescentar uma quarta ideia, de certo modo conclusiva das anteriores – a de que a extinção não é excecional, mas uma possibilidade permanente das sociedades humanas. Mesmo as sociedades mais sofisticadas, como as atuais, podem tornar-se estruturalmente frágeis se perderem capacidade institucional e cultural de se adaptarem a transformações profundas do seu ambiente económico e tecnológico.

Dou um salto para a atualidade para introduzir um tema que não poderá deixar de ser pensado à luz das ideias retidas de Slimak: a segurança social, entendida não como uma resposta agregada às necessidades individuais de proteção, mas como uma instituição fundamental de estruturação e organização coletiva de uma sociedade moderna.

Numa economia moderna a produtividade não resulta apenas – nem sobretudo – do esforço individual, mas de um conjunto de bens públicos e de instituições que garantem a educação, a saúde, a investigação científica, as infraestruturas adequadas, um sistema judicial, a segurança, a estabilidade política e a proteção social. Uma empresa é competitiva porque está inserida num ecossistema que foi construído coletivamente ao longo do tempo e que gera externalidades positivas que beneficiam os agentes económicos considerados nas suas particularidades. Neste contexto a segurança social não pode ser encarada como um simples mecanismo de redistribuição, mas como uma parte fundamental da infraestrutura institucional que permite o funcionamento, a adaptação e a reprodução do sistema económico.

Se a riqueza é gerada por uma ação coletiva crescente é lógico que a discussão do financiamento não pode estar centrada apenas nas contribuições dos trabalhadores e das empresas empregadoras, particularmente num contexto em que a automação e a IA tenderão a substituir o trabalho direto. Se se reconhecer que uma parte relevante da riqueza moderna resulta de investimentos coletivos acumulados ao longo do tempo, então também o financiamento da proteção social deverá ser encarado como uma responsabilidade coletiva.

E esse poderá ser um caminho para garantir a adaptação coletiva exigida pelas transformações tecnológicas e económicas em curso. Precisamente o que Slimak identifica como decisivo para a sobrevivência das comunidades humanas.

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