
A tendência mundial de agravamento das “yields” não está a ser inócua para Portugal. Os juros da dívida pública portuguesa voltam a subir em todas as maturidades, impulsionados pela tensão geopolítica no Médio Oriente e pela perspetiva de novas subidas das taxas de juro pelo BCE.
Apesar da recente subida do rating pela Fitch para A+, Portugal voltou a ver agravado o custo para obter financiamento no mercado de dívida pública.
A operação realizada pela Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) resultou na colocação de 1.628 milhões de euros através de três leilões de Obrigações do Tesouro (OT), registando uma subida generalizada do rendimento (yields) exigido pelos investidores, em linha com a tendência global.
A emissão com maturidade mais longa — a nove anos — garantiu 602 milhões de euros, mas exigiu um juro médio de 3,632%, segundo dados da Bloomberg. O valor reflete um agravamento face a meados de junho, altura em que o país emitiu 636 milhões no mesmo prazo com uma taxa de 3,342%.
Na linha a oito anos, um prazo com menor frequência de emissão, o IGCP capta 626 milhões de euros com uma taxa de 3,559%. Para encontrar uma referência comparável, é preciso recuar a março, quando uma emissão a sete anos fixou o cupão nos 3,009% para angariar 679 milhões de euros.
Na maturidade a quatro anos, a mais curta do leilão o financiamento fixou-se nos 400 milhões de euros a uma taxa de 3,122%, valor visivelmente acima dos 2,834% registados na última emissão comparável, em maio, onde se tinham angariado 671 milhões de euros.
A subida dos juros da dívida soberana nacional é reflexo direto de um cenário global instável. O conflito no Médio Oriente reacendeu receios inflacionistas e reforçou as apostas de que o Banco Central Europeu (BCE) voltará a encarecer o preço do dinheiro, antecipando-se um aumento de 25 pontos-base na reunião da autoridade monetária.
Também a guerra da Ucrânia está a ajudar à inflação. Além da redução das exportações do Golfo, ataques ucranianos a refinarias russas diminuíram a oferta de combustíveis no mercado internacional. Os ataques contínuos a refinarias e portos do Mar Negro mantêm uma pressão estrutural sobre os preços não só dos combustíveis mas de grãos.
O ambiente de apreensão estende-se ao resto da Zona Euro. A Alemanha emitiu dívida a 10 anos com o rendimento mais alto registado desde 2010. No mercado secundário, a yield das Bunds alemãs a 10 anos subiu 3 pontos-base para os 3,395%, enquanto a taxa equivalente para a dívida soberana portuguesa avançou 4,2 pontos-base, atingindo os 3,741% — o valor mais elevado desde abril de 2017.
Num contexto de pressão ascendente sobre as rentabilidades da dívida, Florian Späte, estratega sénior de obrigações da Generali Investments, considera que a subida dos rendimentos ainda não terminou. Na sua opinião, os riscos fiscais, a inflação e as crescentes necessidades de financiamento continuarão a impulsionar os prémios de prazo, pelo que ainda é prematuro aumentar a exposição a obrigações de longa duração.
Num relatório recente, o especialista aponta que os riscos orçamentais, a inflação persistente e a necessidade crescente de emissões de dívida continuarão a inflacionar os prémios de risco exigidos pelos mercados, considerando “prematuro” reforçar posições em títulos de maturidade longa.
Apesar deste contexto conturbado, Späte antecipa que as diferenças de rendimento (spreads) da dívida dos países da periferia da Zona Euro permaneçam estabilizadas.
Em contrapartida, destaca a vulnerabilidade de França, cujos desequilíbrios fiscais e incertezas políticas deixam as suas obrigações mais expostas a um alargamento do prémio de risco.




