Pedro ha fatto della nonna Margarida un'opera teatrale: stiamo diventando più conservatori?Foto di pejottap su Pexels
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Pedro ha fatto della nonna Margarida un'opera teatrale: stiamo diventando più conservatori?

Mensagem de Lisboa7 settembre 2026 alle ore 11:18

Il regista portoghese Pedro Sousa Loureiro ha creato lo spettacolo "Nonna Magnetica", ispirato alla nonna Margarida, che verrà presentato al Festival TODOS di Lisbona. Lo spettacolo, che ha debuttato al Teatro Ibérico e ha fatto tappa a Fafe e Ponte de Lima, torna a Lisbona il 10 in una sala già esaurita. Lo spettacolo esplora il percorso queer dell'autore, avendo come punto di partenza il momento in cui Pedro ha fatto il suo "coming out" e ha scoperto che la nonna, senza bisogno di una conversazione diretta, ha sempre accettato il nipote incondizionatamente, a differenza del padre. L'opera solleva questioni sul conservatorismo generazionale, chiedendosi se la società attuale sia più conservatrice della precedente, dato che la generazione più anziana sembra affrontare questi temi in modo più naturale.

A ideia surgiu durante as aulas de teatro documental no mestrado em encenação realizado em Bruxelas: usar o seu super herói favorito como inspiração para um texto teatral. O encenador português Pedro Sousa Loureiro não teve dúvidas e resgatou do panteão familiar uma super heroína: a avó Margarida. 

Nascia assim a Avó Magnética, a peça que o neto orgulhoso leva no próximo dia 10 ao palco da Sala Valentim de Barros, nos Jardins do Bombarda. Uma parte da programação trazida pelo Festival TODOS a Arroios, que acontece entre 10 e 13 de setembro.

Uma peça onde a avó Margarida, ao lado das avós dos outros atores que contracenam ao lado de Pedro, são heroínas sem capas, mas dotadas dos superpoderes da compreensão e do acolhimento. Capazes de manter o máximo possível uma família unida e funcional. O que, convenhamos, é um poder e tanto.

Pedro conheceu os poderes da avó Margarida de perto enquanto conviveu com ela entre 2016 e 2021, em Sacavém. Um período de afirmação profissional, com a encenação do primeiro texto, Beautiful House, pelo Os Pato Bravos, em 2017, nas caves do Liceu Camões.

E também de afirmação pessoal, de reafirmação de género. 

Pedro e o elenco da Avó Magnética e as respetivas avós em cena: homenagem e debate sobre as questões de género. Foto: Alípio Padilha/Divulgação.

“É engraçado como nunca precisei de falar diretamente sobre o assunto com a avó Margarida, mas ela de alguma forma já tinha percebido e lidava tão bem com isso”, lembra Pedro.

Esse momento pessoal, importante e crucial de “coming out”, nas palavras de Pedro, é o leitmotiv da peça, que começou a ser costurada com a coautoria do amigo Miguel Stichini, em 2021. Justamente quando Pedro deixou a casa da avó em Sacavém para estudar em Bruxelas, com uma bolsa de artes no estrangeiro da Fundação Gulbenkian.

Quem é a avó Margarida?

A avó ficou em Portugal, mas as memórias afetivas viajaram com Pedro. Foi na capital belga, durante um passeio pelo mercado público de Abattoir, por entre o frenesim das bancas de frutas e verduras e o alvoroço dos vendedores, que o encenador teve a certeza de que a herança cultural se transmite também pela comida: veio-lhe à mente e ao coração a couve de boi com bacalhau e ovos cozidos, o prato preferido da avó. Ela nascida em Tibaldinho, em Mangualde, que ganhou a vida como os feirantes do Abattoir, com esforço e suor. 

“Já a viver em Sacavém, a minha avó primeiro vendeu leite de porta a porta. Depois, teve uma banca de frutas e verduras na praça da República”, conta o neto.

A atmosfera efervescente e irreverente dos mercados de rua é levada ao palco da Avó Magnética, numa produção que, assim como as feiras, derruba a quarta parede e convida o espectador a interagir com os atores em palco. São eles Ana Graça, Francisco Barahona, Margarida Bento, Margarida Cardeal, Violeta Luz e o próprio Pedro.

E interagir também nas performances em vídeo com Alex Azevedo, Ana Noronha Andrade, Gilvânio Souza Gigi e Marta Barahona Abreu – além dos demais elementos cénicos, numa experiência de reflexão coletiva.

Foi assim na temporada do espetáculo no Teatro Ibérico e nas apresentações em Fafe e Ponte do Lima. E certamente será no próximo dia 10, nos Jardins do Bombarda, às 21h, com os 101 lugares da Sala Estúdio Valentim de Barros já sold out.

A Sala Estúdio Valentim de Barros, nos Jardins do Bombarda. Foto: LARGO Residências

Aos 36 anos, depois de várias experiências fora de Portugal, Pedro está de volta a Lisboa. Acabou de se mudar para a Lapa. Não que o vem e vai entre Sacavém e a capital fosse um problema.

“Difícil era no tempo da minha avó. Ela só fez a quarta classe e queria tirar a carta de condução. Para isso, teve de terminar o curso e estudou numa escola, ali perto do Hospital das Bonecas, na Praça da Figueira. Isso há 50 anos! E, mesmo assim, a avó veio todos os dias estudar em Lisboa”, lembra, orgulhoso.

A avó Margarida também deixou Sacavém e está em Oliveira do Hospital, onde vive num lar. O neto sempre quando é possível a visita no lar, mas faz questão de manter a rotina diária de falar com a sua super heroína por telefone.

Aos 89 anos, a saúde já não é nem de longe a mesma quando andava de porta em porta a vender leite e a memória paulatinamente também já a abandona. Mesmo assim, pergunto se a avó Margarida entende que inspirou o neto numa obra artística. “Vai entendendo como pode”, responde Pedro. O “como pode” são os vídeos no telemóvel que exibe à avó nas idas a Oliveira de Hospital ou no relato diário pelo telefone. A reação da avó é tímida e, às vezes, insondável, mas o neto vai colhendo aqui e ali um indício de que a sua mensagem está a ser percebida.

A peça propõe uma reflexão: se a sociedade atual é mais conservadora do que a anterior. Foto: Alípio Padilha/Divulgação.

Será que estamos a ficar mais conservadores?

Nascido em Coimbra, Pedro não demorou muito para preparar o salto rumo à capital. Após uma rápida escala em Caldas da Rainha, onde começou e não terminou o curso em artes plásticas, aportou aos 19 anos em Lisboa para começar – e aí, sim, terminar – a Escola Superior de Teatro e Cinema, na Amadora.

O fim do curso marcou a mudança de Lisboa para Sacavém e o início da sua fase mais produtiva. Depois da encenação de Beautiful House, viriam Imperatore (2018) Online Distortions / Borderline(s) (2019) e Long Summer Dreams (2024), que se estreou em Bruxelas antes de chegar em Portugal.

Esse verão longo, quase interminável, é o primeiro capítulo de uma trilogia na qual a Avó Magnética é a segunda paragem da jornada queer do autor. Long Summer Dreams termina com uma carta ao pai do encenador, que relutou em aceitar o filho gay, atrasando o encontro público com a sua identidade de género.

Pedro Sousa Loureiro, encenador português. Fotografia: Beatriz Vicente

A Avó Magnética retoma o fio da peça anterior e reflete justamente sobre a curiosa constatação de uma geração mais antiga, como a da avó Margarida, em lidar com a temática queer de uma maneira mais natural do que a dos pais do autor.

“A minha avó manteve o seu amor incondicional pelo neto, no matter of gender”, conta Pedro.

E, então, questionou-se: “Será que estamos a ficar mais conservadores?”

Esse papel reflexivo, reforça Pedro, é um dos grandes trunfos das residências artísticas internacionais, como naquela realizada em 2016 em França, quando acabou por conhecer Miguel Stichini, com quem escreveu a Avó Magnética. “Nela, conheci artistas, filósofos, sociólogos e jornalistas de vários países da Europa e da região do Cáucaso, como a Arménia”, conta. 

Para Pedro, vivências como esta comprovam a importância das residências internacionais nos percursos artísticos e reafirma a importância da comunidade artística em fazer circular a informação sobre open calls e residências. “Parece-me fundamental que essa informação circule e seja partilhada entre nós, para que cada vez mais artistas possam conhecer, candidatar-se e beneficiar destas experiências.”

A atmosfera efervescente e irreverente dos mercados de rua é levada ao palco da Avó Magnética. Foto: Alípio Padilha/Divulgação.

Isso e, talvez, um amor sólido e incondicional, como o amor da avó Margarida e de tantas avós.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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