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Se o voto popular determina quem exerce um cargo, determina também quem pode pronunciar-se sobre assuntos públicos? E durante quanto tempo? Um mandato? Até à próxima eleição? Ou existe agora uma licença de opinião, com carimbo próprio?
O problema é simples, confunde autoridade política com autoridade sobre o pensamento. Uma eleição decide quem recebe um mandato. Não decide quem adquire o monopólio da razão. Quem perde pode estar errado; quem ganha também; e a realidade continua suficientemente mal-educada para não respeitar as eleições.
Existe ainda uma variante particularmente pitoresca, avaliar a legitimidade de uma opinião através da vida privada de quem a profere. Tem emprego? Tem carro? Vive com os pais? Tem dinheiro? É casado? Tem filhos? Anda de autocarro? Excelente. Descobrimos a nova ciência política, a epistemologia automóvel. A qualidade de uma ideia passa a ser medida pela cilindrada do veículo do seu autor e a validade de um argumento pelo saldo da conta bancária.
Segundo esta métrica, uma pessoa rica teria automaticamente razão, enquanto uma pessoa sem dinheiro deveria limitar-se a ouvir. Um cidadão casado seria mais competente para discutir a habitação; um pai teria licença para falar de educação, e quem conduz um automóvel caro receberia competência para comentar os transportes públicos. O autocarro, aparentemente, transporta pessoas e retira-lhes também autoridade intelectual.
Há uma regra mais simples, critica-se a ideia, não a biografia. Se existe um argumento fraco, desmonta-se. Se existe uma contradição, demonstra-se. Se existe um erro factual, apresenta-se o facto. Recorrer à situação económica, à aparência, ao estado civil ou à família do adversário não torna a crítica mais forte, apenas mostra que faltou munição intelectual.
A democracia tem este incómodo histórico, não exige que alguém tenha ganho eleições para poder falar. Exige que as pessoas possam falar, discordar, criticar e ser criticadas. O leitor pode considerar uma opinião brilhante, medíocre ou completamente disparatada. O que não faz sentido é transformar uma derrota eleitoral num exílio cívico.
A questão é, quem pensa que um ex-candidato é para continuar a dar opiniões? Precisamente aquilo que qualquer cidadão continua a ser depois de uma eleição: um cidadão. Pode ter perdido votos, o cargo pretendido ou até uma discussão. Não perdeu o direito de pensar, falar e ser ouvido.
Numa democracia, até quem não ganhou continua autorizado a ter razão.





