L'Europe a dépendu pendant des années de la technologie américaine pour des fonctions critiques dans l'économie et la sécurité, Palantir étant l'un des exemples les plus notables. La société d'analyse de données et d'intelligence artificielle fournit des services de renseignement, de forces de sécurité et de systèmes de santé dans plusieurs pays européens. La question qui se pose est de savoir dans quelle mesure une Europe qui dépend de la technologie développée hors du continent peut se considérer comme véritablement souveraine lorsqu'il s'agit de ses données et de sa sécurité. Aux États-Unis, le système Maven, développé en grande partie par Palantir, a été transformé en programme officiel du Pentagone, garantissant
Moins de Palantir, plus d'Europe. Où se situe le Portugal dans la course à la souveraineté numérique ?

Durante anos, a Europa habituou-se a depender de tecnologia norte-americana para algumas das funções mais críticas da sua economia e segurança. A dependência tornou-se tão natural que, em muitos casos, a discussão sobre quem desenvolveu o software, quem controla a “máquina” ou quem pode aceder aos dados passou para segundo plano. Agora, essa relação está a ser posta em causa. Com a Europa a colocar na ordem de prioridades de segurança a soberania digital dos blocos americano e chinês. Numa luta entre blocos, que papel pode ter Portugal?
O tema da soberania digital em temas de defesa — e da dependência europeia da tecnologia de terceiros — é, particularmente, notório no caso da Palantir. A empresa americana de análise de dados e inteligência artificial (IA) é fornecedora de algumas das organizações mais sensíveis do bloco europeu, desde serviços de informações e forças de segurança até sistemas de saúde. Fundada em 2003 com o objetivo de ajudar agências de informações a utilizar dados de forma segura, hoje os seus produtos Gotham — sistema operacional de tomada de decisões — e Foundry — sistema operacional baseado em ontologia para empresas — são utilizados por governos em muitas parte do mundo para analisar e responder a ameaças de segurança nacional, pode ler-se no site da companhia.
O problema que agora bate à porta das capitais europeias não é saber se a tecnologia funciona. A questão é outra: até que ponto uma Europa que depende de tecnologia desenvolvida por empresas fora do continente pode considerar-se verdadeiramente soberana quando estão em causa os seus dados, a sua defesa e a sua segurança?
O sistema físico é importante, naturalmente, mas a verdadeira diferenciação está cada vez mais na autonomia, no software, nos sensores, nas comunicações, na fusão de dados e na inteligência que permite tomar melhores decisões. É por isso que a soberania deve ser pensada para além do hardware.
Rui LoboDiretor da Tekever do sul da Europa
A pergunta tornou-se mais urgente à medida que a IA passou de uma promessa tecnológica para uma ferramenta operacional. Em março nos Estados Unidos, o sistema Maven, desenvolvido em grande parte pela Palantir, foi transformado num programa oficial do Pentágono, garantindo financiamento e utilização de longo prazo pelas Forças Armadas norte-americanas. O sistema é usado para processar dados provenientes de satélites, drones, radares e outros sensores e apoiar a identificação e avaliação de ameaças.
“É imprescindível que invistamos agora e com foco para aprofundar a integração da inteligência artificial em toda a Força Conjunta e estabelecer a tomada de decisões habilitada por IA como a pedra angular da nossa estratégia”, afirmou o subsecretário de Defesa norte-americano Steve Feinberg numa carta direcionada ao Pentágono e aos comandantes militares dos EUA, citado pela Reuters.
A Palantir tem desde 2008 uma parceria com o Exército dos Estados Unidos, com as soluções de software a serem “implementadas em praticamente todas as áreas de missão do Exército, garantindo que os dados estejam acessíveis em todos os escalões para uma tomada de decisão rápida e ágil, permitindo que o combatente supere o adversário em inteligência e velocidade”, explicita a Palantir no seu site. E a tecnologia de IA da Palantir tem sido usada pelo Pentágono para acelerar a definição de alvos no conflito do Irão.
Zelensky procura reforçar defesa com IA da Palantir
Ler Mais
A adoção do Palantir pelo Pentágono mostra até onde chegou a integração entre análise de dados e operações militares. A guerra moderna está cada vez mais dependente da capacidade de recolher informação e tomar decisões rapidamente. “As necessidades das forças armadas não são estáticas. Doutrinas, ameaças e ambientes operacionais mudam muito rapidamente”, destaca Rui Lobo, diretor da Tekever para a Europa do Sul, ao ECO/eRadar.
“Não estamos simplesmente a construir aeronaves: estamos a construir computadores com asas. O sistema físico é importante, naturalmente, mas a verdadeira diferenciação está cada vez mais na autonomia, no software, nos sensores, nas comunicações, na fusão de dados e na inteligência que permite tomar melhores decisões. É por isso que a soberania deve ser pensada para além do hardware“, reforça Rui Lobo.
A Palantir também continua exponencialmente a crescer. No início de agosto, a empresa reviu em alta a previsão de receitas para 2026 para, pelo menos, 8,15 mil milhões de dólares (pouco mais de 7 mil milhões de euros), impulsionada pela procura por ferramentas de análise de dados e IA, sobretudo nos Estados Unidos. “O nosso negócio está a crescer a uma velocidade e escala que nunca vimos antes”, assinalou o CEO da empresa com sede em Denver, Alex Karp. As vendas ao Governo norte-americano cresceram 90% no segundo trimestre, para 809 milhões de dólares (cerca de 702 milhões de euros).
Enquanto a Europa discute como reduzir a dependência, a empresa continua a ganhar escala e a aprofundar a integração da sua tecnologia em áreas críticas.
A “caixa mágica” que transforma dados em decisões
Parte do sucesso da Palantir está precisamente na forma como apresenta uma tecnologia que, para o utilizador final, pode parecer simples. Grandes quantidades de informação provenientes de sistemas diferentes são integradas numa única arquitetura, relacionadas entre si e disponibilizadas de forma a permitir que uma organização encontre relações, padrões e respostas anteriormente dispersos por diferentes bases de dados.
É uma lógica particularmente útil para organizações onde a informação está fragmentada. Uma agência de informações pode cruzar pessoas, veículos, localizações e eventos; uma força militar pode relacionar imagens de satélite, radares, drones ou informações de inteligência; uma empresa pode juntar dados de produção, logística, clientes e cadeia de abastecimento.
O que os americanos fazem eu também consigo copiar. Isto não é viável porque no dia que conseguirmos copiar, quando quisermos copiar, eles já estão mais avançados. Isso significa que a economia europeia também vai estar atrás.
Ninguém tem capital como os Estados Unidos e eles conseguem com isso desenvolver tecnologia topo de gama. Os europeus estão aqui ‘entalados’. Não temos dinheiro e somos lentos.
André Godinho LuzCEO da Infinite Foundry
O segredo está menos num único algoritmo do que na arquitetura que permite ligar os diferentes dados e sistemas. A própria documentação técnica da Palantir descreve o ontology — software operacional que transforma dados brutos de uma empresa num “gémeo digital” do mundo real — como uma camada que dá uma representação unificada aos diferentes tipos de informação e permite relacionar objetos, eventos e documentos.
É precisamente este ponto que André Godinho Luz, CEO da Infinite Foundry, considera decisivo. “O que os americanos fazem eu também consigo copiar. Isto não é viável porque no dia que conseguirmos copiar, quando quisermos copiar, eles [os norte-americanos] já estão mais avançados. Isso significa que a economia europeia também vai estar atrás. Temos a síndrome de copiar os americanos”, afirma ao ECO/eRadar.
Para o empresário, cuja empresa está envolvida no projeto AMIDA-UT para a criação de gémeos digitais de ambientes urbanos para antecipar cenários de resposta operacional no terreno, o problema europeu começa antes da tecnologia. Está na capacidade financeira para desenvolver e escalar essas soluções. “Ninguém tem capital como os Estados Unidos e eles conseguem com isso desenvolver tecnologia topo de gama. Os europeus estão aqui ‘entalados’. Não temos dinheiro e somos lentos.”
É uma diferença que se torna especialmente importante na IA. Os grandes modelos norte-americanos, desenvolvidos por empresas como OpenAI e Anthropic, podem ser ligados às bases de dados de uma organização para gerar informação e automatizar tarefas. A Palantir vai um passo além ao colocar essa capacidade dentro de uma arquitetura própria de dados e operações. “O que a Palantir fez e faz foi perceber que, se eu chegar e tu despejares todos os teus dados para a minha caixa mágica, vais saber muito mais coisas e, com isso, conseguir ser muito mais rápido a tomar decisões”, sintetizou André Godinho Luz.
Quando os dados deixam de ser apenas dados
A integração de IA em sistemas empresariais e públicos criou uma nova corrida para modernizar software que, em alguns casos, tem décadas. O mesmo acontece com organizações que possuem enormes volumes de informação mas não têm capacidade interna para os tratar ou relacionar. Para Godinho Luz, a tentação é precisamente essa: entregar a informação a uma plataforma que consegue organizá-la rapidamente. “É demasiado tentador e é fácil.”
Europa deve apostar na IA industrial com dados próprios
Ler Mais
O problema surge quando a informação integrada deixa de ser apenas informação operacional e passa a incluir segredos industriais, dados comerciais, informação de segurança ou elementos sobre o funcionamento interno de uma organização. “O risco de entregar os meus segredos para alguém que eu não sei o que é que vai fazer com aquilo, é extremamente elevado”, vinca o diretor executivo da Infinite Foundry.
É aqui que uma distinção importante entra no debate: ter os dados dentro de uma infraestrutura europeia não é necessariamente o mesmo que controlar a tecnologia que os processa. “Existe o medo da Palantir usar os europeus. Não queremos ‘dar o ouro ao bandido’ porque isto é tão estratégico globalmente. É quase como se fosse uma arma nuclear. Quem a tiver vai ter uma vantagem competitiva relativamente a toda a gente”, acrescenta André Godinho Luz.
António Gameiro Marques, antigo diretor do Gabinete Nacional de Segurança, considera que a questão é mais abrangente. “Normalmente falamos nos dados, mas há também os metadados. Os metadados também são dados, mas são dados sobre os dados”, refere ao ECO/eRadar.
Dificilmente agarrávamos no nosso dinheiro e o púnhamos em bancos americanos a não ser que não tivéssemos bancos europeus ou portugueses. Então, porque é que fazemos isso com os nossos dados? A Comissão Europeia acordou para isso e os próprios Estados-membros também.
Contra-almirante António Gameiro MarquesAntigo diretor do Gabinete Nacional de Segurança
Os dados sobre uma pessoa podem incluir a própria informação pessoal, enquanto os metadados permitem saber quando determinada informação foi criada, onde foi produzida, com que frequência é consultada ou que comportamentos lhe estão associados. “Se alguém depois quiser perceber comportamentos para intercetar ou tirar partido vai aos metadados, não vai aos dados.”
Uma arquitetura tecnológica não precisa necessariamente de transferir todo o conteúdo de uma base de dados para gerar informação estratégica sobre quem a utiliza. Os padrões de utilização podem, por si só, revelar informação sensível.
Novo pacote da Comissão aposta tudo na soberania europeia
Ler Mais
“Dificilmente agarrávamos no nosso dinheiro e o púnhamos em bancos americanos a não ser que não tivéssemos bancos europeus ou portugueses. Então, porque é que fazemos isso com os nossos dados?”, questiona Gameiro Marques. “A Comissão Europeia acordou para isso e os próprios Estados-membros também.”
Europa acordou mas o “despertador” tocou tarde
A Comissão Europeia apresentou, a 3 de junho, o European Technological Sovereignty Package para aumentar a soberania tecnológica da UE, abordando a dependência de fornecedores norte-americanos e chineses. As medidas tocam um vasto leque de áreas, como os semicondutores (vulgarmente chamados de chips), a computação na nuvem, o desenvolvimento de inteligência artificial (IA), o uso de soluções tecnológicas de código aberto (open source) e a digitalização do setor energético, entre muitas outras. O objetivo declarado é reduzir dependências de fornecedores externos e aumentar a capacidade europeia para desenvolver, implementar e proteger tecnologias críticas.
A França foi um dos países que decidiu transformar o discurso em política concreta. Em junho, Paris rescindiu o contrato com a norte-americana de análise de dados e substitui-a pela francesa ChapsVision na Direção-Geral de Segurança Interna (DGSI), após anos a utilizar a plataforma norte-americana.
França troca americana Palantir por alternativa europeia
Ler Mais
A decisão foi apresentada pelo Governo francês como parte de uma estratégia de soberania tecnológica. O próprio primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, afirmou que a França não pode depender da “boa vontade de alguns parceiros” estrangeiros e defendeu o desenvolvimento de ferramentas europeias. O executivo adiantou que o país planeia investir mais de 655 milhões de euros em inteligência artificial até 2030 e disponibilizar um assistente de IA aos funcionários do governo, desenvolvido pela francesa Mistral.
A Europa tem uma base tecnológica, científica e industrial muito forte, mas continua a existir dependência externa em algumas capacidades críticas. A cooperação com aliados continuará a ser fundamental para a segurança europeia. Esse é um desafio simultaneamente tecnológico e industrial. Não basta desenvolver boa tecnologia: é necessário criar capacidade de produção, conhecimento, cadeias de fornecimento e competências dentro da Europa, e fazê-lo a uma escala compatível com as necessidades atuais de defesa e segurança.
Rui LoboDiretor da Tekever para a Europa do Sul
Na Alemanha, o debate ganhou uma dimensão semelhante. O ministro da Transformação Digital e Modernização do Estado alemão, Karsten Wildberger, reiterou em abril que a Europa precisava de uma alternativa à Palantir, mas reconheceu que, enquanto essa alternativa não tiver capacidade comparável, “a segurança torna-se prioritária”. Segundo o governante, existem empresas europeias capazes de preencher esse espaço, mas aumentar a escala poderá demorar dois ou três anos.
Tekever inicia ronda que voa avaliação para 5,5 mil milhões
Ler Mais
Mas, mais do que a questão do tempo, será que o bloco europeu deve tentar reproduzir o que a Palantir alcançou? “A Europa acordou para a realidade, de não querer ajudar os americanos. Se quisermos ganhar a corrida da IA, temos de olhar para o modelo americano, até para o modelo chinês, e tentar ter uma ideia de fazer uma coisa diferente. Tentar criar uma empresa europeia que faça o mesmo que a Palantir, não é viável porque a Palantir já está no mercado. E eles não param“, adverte André Godinho Luz.
Porém, reconhecer a dependência é mais fácil do que a mitigar.
O problema europeu começa na escala
“A Europa tem uma base tecnológica, científica e industrial muito forte, mas continua a existir dependência externa em algumas capacidades críticas. Existem diferenças claras de escala, quer em termos de investimento quer de dimensão de mercado”, acautela Rui Lobo.
O diretor da Tekever para o sul da Europa defende, contudo, que soberania não significa isolamento. “A cooperação com aliados continuará a ser fundamental para a segurança europeia. Significa, isso sim, assegurar que a Europa tem capacidade própria suficiente para tomar decisões, controlar tecnologias críticas e adaptar rapidamente as suas capacidades às necessidades operacionais.”
O desafio está “menos na qualidade da engenharia europeia e mais na capacidade de transformar essa inovação em escala industrial com suficiente rapidez”, considera o diretor da unicórnio nacional. É uma dificuldade que se repete em vários setores. A Europa tem universidades, investigadores, empresas e tecnologia, mas tem dificuldade em criar empresas com a dimensão financeira necessária para competir com os gigantes norte-americanos.
Naquilo que é estruturante, a Europa ainda depende muito de outras geografias que não são só norte-americanas, são chinesas também. Nós não estamos numa situação muito boa face a esse aspeto. Era preciso criar algo que fosse um consórcio de empresas europeias. Um agregado de competências em vários países da União Europeia, uma indústria pan-europeia
António Gameiro MarquesAntigo diretor do Gabinete Nacional de Segurança
A fragmentação é uma das principais fragilidades da União Europeia, constituída por “muitas ‘empresazinhas’ pequeninas”. “Era preciso criar algo que fosse um consórcio de empresas europeias. Um agregado de competências em vários países da União Europeia, uma indústria pan-europeia“, frisa o contra-almirante Gameiro Marques.
O antigo diretor do Gabinete Nacional de Segurança recorre à Airbus como exemplo: “Devia haver um mecanismo em que, mais uma vez usando a analogia com a Airbus, houvesse oportunidades para, na dimensão de cada um dos Estados-membros, haver participação.”
A fragmentação do bloco europeu aparenta ser o nosso ‘calcanhar de Aquiles’. “A Europa continua a ser um mercado de defesa relativamente fragmentado. Os diferentes países têm doutrinas, processos de aquisição, requisitos técnicos e procedimentos de segurança distintos. Ao contrário de outros grandes mercados, não existe uma única autoridade de procurement nem um único mercado verdadeiramente integrado”, aponta o diretor da Tekever para a Europa do Sul.
“Naquilo que é estruturante, a Europa ainda depende muito de outras geografias que não são só norte-americanas, são chinesas também. Nós não estamos numa situação muito boa face a esse aspeto. Todavia, estamos melhores do que estávamos há uns anos”, lembra Gameiro Marques.
Mas, para obter escala, será que a Europa investe o suficiente? “Não. Porque os investimentos são verticais”, respondeu perentoriamente o antigo diretor do Gabinete Nacional de Segurança, quando questionado se a Europa investe o suficiente para competir com os Estados Unidos e a China.
E Portugal?
O país não tem dimensão financeira nem mercado interno para replicar, sozinho, os gigantes tecnológicos norte-americanos. Mas isso não significa que esteja condenado a ser apenas consumidor de tecnologia desenvolvida por outros. Pelo contrário, Portugal tem competência, mas precisa de a transformar em escala, produto e capacidade de decisão.
“Portugal tem todas as condições para desempenhar um papel relevante nesta transformação. Tem talento de engenharia, universidades, indústria e empresas tecnológicas capazes de desenvolver sistemas complexos e competir internacionalmente“, destaca Rui Lobo.
A própria trajetória da empresa, que nasceu no país e hoje está a tentar levantar 500 milhões de euros junto dos investidores — o que a concretizar-se, fará voar a avaliação da unicórnio nacional para 5,5 mil milhões de euros — demonstra que é possível partir de Portugal para construir tecnologia sofisticada com dimensão internacional.
Mas a ambição não deve passar por concentrar toda a capacidade num único país. “Pensamos a soberania europeia precisamente como uma capacidade distribuída”, afirma. O objetivo é criar capacidade local onde a empresa está presente e “ligar essas capacidades numa rede europeia comum”.
Não somos um país de produto. A esmagadora maioria da indústria portuguesa é uma indústria de fabricar para terceiros, mas fabricamos para marcas de bastante prestígio. Nós fabricamos produtos de alta gama. Não há assim muita concorrência no mundo e se conseguirmos melhorar a competitividade, temos efetivamente um nicho brutal no mercado.
André Godinho LuzCEO da Infinite Foundry
Nesse modelo, Portugal pode desempenhar um papel próprio. O desafio passa por transformar essas competências em “capacidade operacional e industrial que contribua não apenas para Portugal, mas para uma Europa mais forte tecnologicamente e com maior capacidade de decisão”.
IA nas empresas tem de disparar até 2030 para cumprir meta
Ler Mais
André Godinho Luz identifica a própria estrutura tradicional da indústria portuguesa como uma vantagem. “Não somos um país de produto. A esmagadora maioria da indústria portuguesa é uma indústria de fabricar para terceiros, mas fabricamos para marcas de bastante prestígio”, explica o CEO da Infinite Foundry.
Essa especialização pode deixar de ser apenas uma limitação e transformar-se numa oportunidade se for acompanhada por maior competitividade tecnológica. “Nós fabricamos produtos de alta gama. Não há assim muita concorrência no mundo e se conseguirmos melhorar a competitividade, temos efetivamente um nicho brutal no mercado”, aponta Godinho Luz.
A vantagem estaria em usar a indústria portuguesa “como test-bed“ para novas tecnologias, aproximando software, IA e automação de uma base industrial que já existe. “Estamos bem posicionados para tirarmos benefício da nossa indústria tradicional. Tens a oportunidade, mas tens este bloqueio mental europeu. É o drama que tens em Portugal e que limita muitas vezes conseguirmos voar para lugares mais altos”, defende.
Queremos criar capacidade local nos países onde estamos presentes e, simultaneamente, ligar essas capacidades numa rede europeia comum. Portugal pode ser um dos centros dessa rede. Tem talento de engenharia, universidades, indústria e empresas tecnológicas capazes de desenvolver sistemas complexos e competir internacionalmente.
O objetivo deve ser transformar essas competências em capacidade operacional e industrial que contribua não apenas para Portugal, mas para uma Europa mais forte tecnologicamente e com maior capacidade de decisão.
Rui LoboDiretor da Tekever para a Europa do Sul
É aqui que as vantagens e limitações portuguesas se cruzam com o problema europeu. Portugal pode contribuir com empresas, universidades, indústria e conhecimento especializado, mas dificilmente terá capacidade para construir sozinho toda a cadeia tecnológica necessária para competir com os EUA ou a China.
A resposta deve assentar também em sistemas de código aberto, que permitam maior interoperabilidade e reduzam a dependência de plataformas fechadas. “Na Europa está-se a adotar uma política de desenvolvimento de sistemas desta natureza com fonte aberta, com código aberto. E isto acelera o desenvolvimento e permite que sistemas diversos possam cooperar, por oposição a sistemas fechados, como são os sistemas norte-americanos”, adverte Gameiro Marques.
Portugal entre mercados mais competitivos para data centers
Ler Mais
A questão passa menos por Portugal construir sozinho uma alternativa à Palantir e mais por encontrar o lugar que consegue ocupar numa indústria europeia mais integrada. Se utilizar uma tecnologia estrangeira, deve conseguir compreender como funciona, controlar os dados, manter capacidade de operação e, sobretudo, garantir uma alternativa caso essa tecnologia deixe de estar disponível.
Para Gameiro Marques, o passo seguinte terá de ser político e não apenas tecnológico. “Tem que ser assim, tem que ser a União Europeia, mas para isso tem que se modificar a arquitetura política. Devíamos evoluir nesse sentido sob o risco de sermos um sítio muito aprazível de visitar e de viver, mas, a prazo, deixarmos de ser aquilo que devíamos ser, ombrear com os outros”.
Portugal entra nesta equação com uma vantagem e uma limitação. Tem empresas capazes de desenvolver tecnologia competitiva a partir do país, mas continua a precisar de escala europeia para transformar essa capacidade num verdadeiro ativo de soberania. É aí que a discussão sobre a Palantir deixa de ser apenas uma questão de fornecedor e passa a ser uma questão sobre o lugar que Portugal quer ocupar na próxima geração tecnológica europeia.
Articles similaires

ESET met en garde contre les pièges ciblant les comptes, les données et l'argent des joueurs



