La Banque centrale européenne prépare une transformation profonde des marchés financiers européens, dans le but de permettre que certaines opérations puissent fonctionner de façon continue, 24 heures sur 24 et sept jours sur sept, d'ici le milieu de 2028. L'information a été avancée par le journal espagnol Cinco Días, après que Piero Cipollone, membre du conseil exécutif de la BCE, a présenté les plans de l'institution. Cette semaine, Isabel Schnabel, également membre du conseil exécutif, a défendu à Jackson Hole que les banques centrales doivent accompagner le changement technologique pour ne pas perdre leur influence sur le système financier.
Au centre de cette transformation se trouve la tokenisation, c'est-à-dire la création de représentations numériques d'actifs financiers comme des obligations, des actions ou des fonds, enregistrées et transférées électriquement par le biais de la technologie blockchain. Cette technologie fonctionne comme un registre numérique partagé, où plusieurs parties du réseau maintiennent des copies et vérifient les opérations, les rendant difficiles à modifier sans détection. La BCE veut permettre qu'un actif numérique soit acheté et vendu sur une plateforme moderne, mais que l'argent utilisé continue d'être l'euro émis par la banque centrale.
La première étape concrète est le projet Pontes, qui devrait commencer à fonctionner au troisième trimestre de 2026, reliant les nouvelles plateformes numériques aux systèmes de paiement de l'Eurosystème. La BCE vise également le projet Appia, qui vise à créer une structure plus large pour les futurs marchés financiers numériques européens, évitant que chaque banque ou pays ne crée des systèmes incompatibles entre eux. L'objectif est que les différents marchés européens puissent communiquer entre eux par le biais d'une infrastructure commune.
La BCE ne crée pas une cryptomonnaie, et il ne s'agit pas non plus de l'euro numérique destiné aux paiements du quotidien. L'objectif est de moderniser la façon dont les grandes opérations financières sont réalisées entre les banques, les entreprises et les investisseurs. La question centrale est de savoir qui contrôlera les infrastructures à travers lesquelles l'argent et les actifs circulent dans un avenir de plus en plus numérique, et la BCE veut garantir que la réponse continue d'inclure l'Europe et l'euro.

O Banco Central Europeu (BCE) está a preparar uma profunda transformação da forma como funcionam os mercados financeiros europeus. A ambição é que, até meados de 2028, determinadas operações possam ser realizadas de forma contínua, 24 horas por dia, sete dias por semana.
A informação sobre o calendário foi avançada pelo jornal espanhol Cinco Días, depois de Piero Cipollone, membro do conselho executivo do BCE, ter apresentado os planos da instituição. Esta sexta-feira, o tema ganhou novo impulso com Isabel Schnabel, também membro do conselho executivo, a defender que os bancos centrais devem acompanhar a mudança tecnológica para não perderem influência sobre o sistema financeiro. A intervenção foi noticiada pela Reuters.
No centro desta transformação está uma palavra que começa a entrar no vocabulário financeiro: tokenização.
Afinal, o que é a tokenização?
A ideia é mais simples do que parece. Tokenizar um ativo significa criar uma representação digital desse ativo. Uma obrigação, por exemplo, passa a ter uma espécie de “versão digital” que pode ser registada e transferida eletronicamente.
Em vez de uma operação depender de vários sistemas diferentes para confirmar quem comprou, quem vendeu, quanto foi pago e quem passou a ser o proprietário, uma parte maior do processo pode acontecer digitalmente. É aqui que entra a blockchain.
A blockchain pode ser entendida como um grande livro de registos digital partilhado. Em vez de existir apenas uma entidade a guardar a informação, várias partes da rede mantêm cópias dos registos e verificam as novas operações. Depois de registada, uma operação torna-se muito difícil de alterar sem que isso seja detetado.
A tecnologia ficou conhecida sobretudo por estar na base de criptomoedas como a bitcoin. Mas o seu uso não se limita às criptomoedas. Bancos e instituições financeiras estão a estudar a possibilidade de utilizar tecnologias deste género para negociar ações, obrigações, fundos e outros ativos. E é precisamente aí que o BCE quer entrar.
O que está a mudar?
Atualmente, uma operação financeira pode passar por várias entidades.
Imagine que um investidor compra uma obrigação. Há um sistema onde a obrigação está registada, outro onde a transação é confirmada, outro responsável pela transferência do dinheiro e ainda outros processos para garantir que o ativo passa efetivamente para o novo proprietário. São várias etapas e vários sistemas que precisam de comunicar entre si.
Com ativos digitais, algumas dessas etapas podem ser reunidas e automatizadas. O comprador pode receber o ativo ao mesmo tempo que o vendedor recebe o dinheiro, sem que seja necessário esperar que diferentes sistemas concluam sucessivamente as suas tarefas. É esta possibilidade de tornar as operações mais rápidas e simples que está a despertar o interesse do BCE.
O primeiro passo chega este ano
O primeiro projeto chama-se Pontes e deverá começar a funcionar no terceiro trimestre de 2026. O objetivo é ligar as novas plataformas digitais utilizadas para negociar ativos aos sistemas de pagamentos do Eurosistema, permitindo que as operações sejam pagas com dinheiro do banco central.
Dito de forma simples: o BCE quer permitir que um ativo digital seja comprado e vendido numa plataforma moderna, mas que o dinheiro utilizado para pagar a operação continue a ser dinheiro oficial do banco central. É uma forma de aproximar a nova economia digital do sistema financeiro tradicional.
O BCE pretende aumentar progressivamente as capacidades deste sistema. A ambição apresentada por Cipollone é chegar a meados de 2028 com uma infraestrutura que possa funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana, e que permita operações envolvendo diferentes moedas.
Porque é que isto interessa ao BCE?
Porque a mudança tecnológica já está a acontecer. Nos Estados Unidos, por exemplo, algumas empresas financeiras já utilizam sistemas baseados em tecnologia semelhante para operações de grande dimensão. A plataforma de repo da Broadridge, segundo a própria empresa, processou uma média de 354 mil milhões de dólares por dia em operações tokenizadas em março de 2026.
O BCE não quer que a Europa fique simplesmente a assistir. Mas existe uma razão ainda mais importante: o dinheiro. Se os ativos financeiros passarem para plataformas digitais, também será necessário decidir qual o dinheiro utilizado para os comprar e vender. O BCE quer que esse dinheiro continue a ser o euro emitido pelo banco central.
Schnabel alerta para uma mudança de poder
Foi precisamente este ponto que Isabel Schnabel colocou em destaque esta semana. Segundo a Reuters, a responsável do BCE defendeu em Jackson Hole que os bancos centrais devem adaptar-se à nova realidade e levar o dinheiro oficial para os sistemas digitais onde os ativos financeiros começam a ser negociados. A questão é mais profunda do que parece.
Se no futuro grande parte dos mercados financeiros funcionar através de plataformas digitais privadas e o dinheiro dos bancos centrais não estiver presente, estes poderão perder parte da influência que hoje têm sobre o sistema financeiro. É por isso que o BCE está a tentar chegar antes que essa transformação esteja concluída.
E onde entra o Appia?
O Pontes é apenas o primeiro passo. O BCE tem também o projeto Appia, que pretende preparar uma estrutura mais ampla para os futuros mercados financeiros digitais europeus.
A ideia é evitar que cada banco, bolsa ou país crie o seu próprio sistema, incapaz de comunicar com os restantes. O objetivo é criar uma espécie de “rede de estradas” digital que permita aos diferentes mercados europeus comunicar entre si. O BCE pretende apresentar em 2028 um plano para esse futuro sistema.
Não é uma nova criptomoeda
Há outra ideia importante a esclarecer: o BCE não está a criar uma criptomoeda. O projeto também não é o mesmo que o euro digital destinado aos pagamentos do quotidiano.
O euro digital pretende ser uma forma de dinheiro digital para cidadãos e empresas fazerem compras e pagamentos. O Pontes e o Appia têm outro objetivo: modernizar a forma como grandes operações financeiras são realizadas entre bancos, empresas e investidores.
Um mercado que nunca fecha?
É aqui que está talvez a parte mais interessante da transformação. Hoje, os mercados financeiros têm horários definidos e muitas operações demoram tempo a ser concluídas porque dependem de diferentes sistemas.
A tecnologia permite imaginar outra realidade: mercados onde determinados ativos podem ser negociados e transferidos a qualquer hora, com o dinheiro e o ativo a mudarem de mãos praticamente ao mesmo tempo. É uma lógica semelhante à dos mercados de criptomoedas, que funcionam sem interrupção.
A diferença é que o BCE quer trazer parte dessa lógica para o sistema financeiro oficial, com regras, supervisão e utilização do euro. A aposta é tecnológica, mas também económica e estratégica. A pergunta que está em jogo é simples: quando os mercados financeiros se tornarem cada vez mais digitais, quem controlará as infraestruturas através das quais o dinheiro e os ativos circulam? O BCE quer garantir que a resposta continue a incluir a Europa — e, sobretudo, o euro.