The article addresses the geography of talent in Portugal, arguing that in a globalized world, human talent has become the scarcest and most valuable resource. Economist Richard Florida identified three fundamental pillars for attracting and retaining people with high human capital: Technology, Talent, and Tolerance, concepts that the author, João Grazina Santos, applies to the Portuguese reality.
In Portugal, the capacity to attract economists and other qualified professionals is concentrated in very specific hubs. The metropolitan areas of Lisbon and Porto, as well as the Tourist Algarve region, are identified as the main national "creative clusters." In these areas, the supply of qualified employment, international connectivity, and institutional density create a virtuous cycle of attraction, albeit with associated costs such as real estate pressure, urban congestion, and high cost of living.
The article warns of the risk of a "talent development trap" in regions such as the North and the Interior of the country. In 2022, 69% of permanent emigration consisted of young people, which discourages private investment in higher value-added activities, keeping wages low and perpetuating the lack of opportunities in a vicious cycle.
The author concludes that economists have the responsibility to critically inform the political and economic choices that shape the geography of talent. The next generation of economists will face the challenge of rethinking regional attractiveness, investing not only in technology hubs but in the conditions that retain people: affordable housing, quality public services, culture, and tolerance.
Num mundo onde o capital e a tecnologia fluem sem fronteiras, o talento emerge como o recurso mais escasso e valioso. Para os economistas, esta afirmação adquire uma dimensão particular. Não apenas como analistas deste fenómeno, mas como agentes ativos num mercado de trabalho globalizado. A questão que se coloca é tão simples quanto perturbadora: onde fazemos a diferença?
Por João Grazina Santos *
A geografia do talento deixou de ser um acaso. O economista Richard Florida, pioneiro no estudo da “classe criativa”, identificou três pilares fundamentais para a atração e retenção de pessoas com elevado capital humano: Tecnologia, Talento e Tolerância. A aplicação destes critérios ao território português revela um país a várias velocidades, onde a capacidade de captar economistas e outros profissionais qualificados se concentra em polos muito específicos, em detrimento de vastas regiões do interior.
O Peso dos 3T’s na Decisão do Economista
Quando um jovem economista decide onde construir a sua carreira, raramente o faz por acaso. A decisão é ponderada por fatores que ultrapassam a mera tabela salarial. A existência de um ecossistema de inovação, onde universidades, centros de investigação e empresas interagem, é crítica. As áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, e a região do Algarve Turístico, afirmam-se como os principais “clusters criativos” nacionais, segundo estudos recentes. Nestes territórios, a oferta de emprego qualificado, a conectividade internacional e a densidade institucional criam um ciclo virtuoso de atração.
No entanto, estes benefícios têm um custo. A pressão sobre o mercado imobiliário, o congestionamento urbano e o custo de vida elevado são os subprodutos do sucesso. Esta realidade, por si só, já está a redefinir o mapa de atração do talento, com cidades médias e regiões menos saturadas a começarem a ganhar protagonismo.
A Armadilha do Desenvolvimento: Quando o Talento Emigra
O reverso da medalha é dramático. A OCDE e a Comissão Europeia têm alertado para o risco de “armadilha de desenvolvimento de talentos” em regiões como o Norte e o Interior do país. Em termos práticos, trata-se de um ciclo perverso: a falta de oportunidades para profissionais qualificados leva à emigração jovem (69% da emigração permanente em 2022 era de jovens); esta fuga de talento desincentiva o investimento privado em atividades de maior valor acrescentado, mantendo os salários baixos e perpetuando a falta de oportunidades.
Para o economista, a decisão de permanecer ou partir deixa de ser individual para se tornar sistémica. O nosso papel enquanto classe profissional não é apenas o de
interpretar este fenómeno, mas o de atuar sobre as suas causas. A geografia do talento é, em grande medida, o resultado de escolhas políticas e económicas, e os economistas têm a responsabilidade de as informar criticamente.
Uma Agenda para o Futuro
A questão de partida “Onde farão a diferença os economistas?” admite, assim, múltiplas respostas. O economista pode e deve fazer a diferença nos centros de decisão, onde se desenham políticas de inovação e se gere o investimento público. Mas o seu contributo é igualmente decisivo nos territórios de baixa densidade, onde a capacidade de diagnosticar problemas e desenhar soluções adaptadas ao contexto local é frequentemente escassa.
A próxima geração de economistas enfrentará o desafio de repensar a atratividade regional. Não se trata apenas de criar “pólos tecnológicos” deslocalizados, mas de investir nas condições que fixam pessoas: habitação acessível, serviços públicos de qualidade, cultura e tolerância. É neste equilíbrio entre o global e o local, entre a análise macro e a intervenção micro, que a nossa profissão afirmará a sua relevância.
O talento existe em todo o lado. O que a geografia do talento nos ensina é que ele floresce onde o ambiente é preparado para o receber. Cabe aos economistas, enquanto especialistas na alocação de recursos escassos, liderar a construção desses ambientes. E, nesse processo, faremos a diferença onde quer que estejamos.
* Artigo publicado no Blog dos Economistas.
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