
A Europa tem de aceder ao Espaço com maior cadência e para isso é “essencial” que a Comissão Europeia no próximo quadro financeiro plurianual apresente um “mecanismo europeu de agregação dos lançamentos institucionais”, defendeu o presidente francês, durante a Cimeira do Espaço, a decorrer até 10 de setembro, em Paris. Até 2030 Macron quer colocar na mãos dos europeus tecnologia direct-to-device e, para isso, defende uma aliança europeia.
“Acesso ao espaço em grande escala e a preços acessíveis é fundamental. Para construir megaconstelações, temos de colocar várias centenas de toneladas por ano em órbita, a um custo competitivo. Isso pressupõe um lançador pesado, reutilizável, com elevada cadência de lançamento e custos controlados”, destacou Macron, no seu discurso na Cimeira do Espaço, que reúne mais de 90 chefes de Estado.
Há novos lançadores europeus a surgir, como é o caso de “grande sucesso” da Isar, mas também novas bases, lembra Macron, tendo feito uma referência a Portugal. “Temos, naturalmente, bases para isso, com Kourou, na Guiana, mas também estão a surgir novas bases. Penso nos nossos amigos noruegueses, nos nossos amigos suecos, nos nossos amigos portugueses e noutros“, disse. Portugal, através de Santa Maria, nos Açores, está a posicionar-se para ser uma base de lançamento para o Espaço.
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Mas Macron defende que a Europa tem de dar mais um passo para ganhar capacidades de acesso ao Espaço e não comprar lançamentos a conta-gotas. “É essencial que a Comissão Europeia possa apresentar, no próximo quadro financeiro plurianual da União Europeia, um mecanismo europeu de agregação dos lançamentos institucionais, reunindo as necessidades da Comissão, da Agência Espacial Europeia, dos Estados-Membros e, quando pertinente, dos nossos parceiros de segurança, à semelhança do que fazem os Estados Unidos, que souberam construir este sistema para estruturar a sua oferta”, argumentou.
“Esta programação plurianual deverá ser acompanhada por um preço institucional europeu, de modo a estruturar de forma duradoura a oferta europeia de acesso ao espaço e dar à nossa cadeia industrial, incluindo para o aumento da cadência do Ariane 6, a visibilidade de que necessita para investir”, apontou ainda o Presidente francês.
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Depois de Von der Leyen já ter defendido a necessidade de no setor espacial a Europa agir em conjunto, o mesmo defendeu Macron. E explica porquê. “Se a Europa não atuar em conjunto, se não atuar em conjunto para garantir os seus volumes, assegurar esta visibilidade e garantir os seus lançamentos institucionais, não poderá construir a sua competitividade”, justifica. E lança umas farpas. “Os grandes agentes europeus de que por vezes tanto se fala e que, como percebemos nos discursos que antecederam esta cimeira, querem continuar hegemónicos, não o esqueçamos, são aqueles que receberam mais fundos públicos norte-americanos e que construíram a sua competitividade comercial através de múltiplos lançamentos institucionais financiados”, atira.
“Se recusarmos construir a nossa competitividade, não teremos qualquer hipótese de estar na corrida. Sejamos lúcidos e determinados”, incentiva.
Aliança europeia para tecnologia direct-to-device
Macron defendeu ainda como uma “batalha fundamental” uma aliança europeia para a tecnologia direct-to-device, que permite que telemóveis e smartphones se liguem diretamente a satélites em órbita baixa, sem a necessidade de antenas externas, chips especiais ou aplicações. Uma “nova infraestrutura essencial” que o presidente francês quer ver implementada até 2030.
“Daqui a dez anos, quero que os europeus disponham diretamente nos seus dispositivos e a partir do espaço de uma qualidade de ligação comparável à 5G em todo o lado. E isso é possível. Poderá chegar até aos centros de dados em órbita. Se esta tecnologia for dominada e disponibilizada a um custo razoável, este mercado será enorme e a Europa tem de participar nesta corrida por razões de soberania e de oportunidades económicas. Temos, a este respeito, de lançar uma aliança europeia para a tecnologia direct-to-device“, defendeu.
Apelo, portanto, a todos os operadores de telecomunicações, aos operadores de constelações e aos industriais para que constituam, sem demora, uma aliança europeia para a tecnologia direct-to-device, capaz de disponibilizar, até 2030, uma oferta que cumpra os requisitos internacionais de qualidade.
Emmanuel MacronPresidente da França
“Amanhã, quando um cidadão atravessar uma zona sem cobertura, quando um marinheiro estiver em alto-mar, quando as redes terrestres deixarem de funcionar na sequência de uma catástrofe, o telefone poderá continuar ligado graças ao espaço. Trata-se de uma nova infraestrutura essencial”, argumentou.
E deixou um apelo ao setor. “A Europa dispõe de todas as peças necessárias. Os operadores de telecomunicações, os fabricantes e operadores de satélites, as constelações e as tecnologias. É agora necessária uma equipa comum, uma vontade comum e investimentos comuns. Apelo, portanto, a todos os operadores de telecomunicações, aos operadores de constelações e aos industriais para que constituam, sem demora, uma aliança europeia para a tecnologia direct-to-device, capaz de disponibilizar, até 2030, uma oferta que cumpra os requisitos internacionais de qualidade“, diz.
Plataforma de capacidades espaciais de duplo uso
“É necessária uma plataforma de mercado europeia para capacidades espaciais de duplo uso. Temos agora de passar de um arquipélago de casos de sucesso para um verdadeiro mercado europeu”, considera Macron. “É esse o sentido da plataforma de mercado para capacidades espaciais de duplo uso que lançamos por ocasião desta cimeira, aberta aos nossos parceiros europeus e à NATO, que visa eliminar os obstáculos ao acesso a dados, produtos e serviços espaciais”, disse. “Quero que, já em 2027, esta plataforma tenha registadas cerca de 50 empresas francesas e europeias”, apontou.
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A ambição “reformas profundas do nosso modelo europeu, de forma a sermos competitivos na produção na Europa”, alerta. “Ser competitivo significa pôr fim às nossas regras demasiado rígidas de retorno geográfico, que impõem aos nossos industriais constrangimentos insustentáveis. Significa garantir volumes e, ao mesmo tempo, lançar concursos em que a finalidade seja clara e sejam dadas as necessárias flexibilidades”, aponta.
E numa altura em que se começa a discutir o quadro financeiro plurianual da União Europeia, Macron deu o seu apoio público ao reforço do orçamento dedicado ao espaço. “Ao consagrar finalmente um orçamento espacial europeu à altura das nossas ambições, a França estará ao lado da Comissão para defender a importância de um quadro financeiro plurianual ambicioso, tal como foi proposto.”




