Há investimentos que chegam com muitos milhões. E há territórios que ficam com as consequências. Entre uma coisa e outra, cabe à política escolher
Há notícias que chegam acompanhadas de números suficientemente grandes para intimidar qualquer discussão. Um investimento estimado em 1,2 mil milhões de euros parece, à partida, uma oportunidade impossível de recusar. É uma cifra capaz de produzir entusiasmo imediato, títulos grandiosos e a sensação de que um território acaba de ganhar o seu bilhete para o futuro.
Mas a política séria começa precisamente onde termina a hipnose dos números.
A empresa dinamarquesa Eurowind Energy decidiu deslocalizar para outros municípios dois projetos de energia solar e eólica inicialmente previstos para Castelo Branco, depois de não ter chegado a acordo com a Câmara Municipal quanto às localizações propostas. Segundo a informação divulgada, os projetos deverão representar cerca de 500 megawatts de potência e incluir sistemas de armazenamento em baterias. A empresa terá já iniciado contactos com outros municípios das Beiras e do Médio Tejo e entregado à REN cerca de 65 milhões de euros para assegurar direitos de ligação à rede.
É uma decisão empresarial. É um investimento de enorme dimensão financeira. E é, naturalmente, uma perda de oportunidade para Castelo Branco.
Mas será uma perda de futuro?
Essa é a pergunta que verdadeiramente interessa.
O presidente da Câmara Municipal de Castelo Branco, Leopoldo Rodrigues, desvalorizou a perda do investimento, argumentando que o projeto criaria “muito poucos” postos de trabalho e defendendo uma estratégia municipal orientada para investimentos capazes de gerar emprego e contribuir para a fixação da população.
Pode discordar-se da decisão. Pode questionar-se a estratégia. Pode exigir-se ao município que demonstre quais os investimentos alternativos que pretende captar e como pretende transformar essa visão em resultados concretos.
Tudo isso é legítimo.
O que não é legítimo é presumir que um investimento de 1,2 mil milhões de euros é automaticamente bom para Castelo Branco apenas porque tem muitos zeros.
Um território não é uma folha de Excel.
Uma paisagem não é uma rubrica contabilística.
Um solo agrícola não é simplesmente uma área disponível.
E uma população não se fixa num concelho porque alguém instalou centenas de megawatts.
Esta deveria ser uma evidência elementar, mas ainda parece necessário repeti-la.
Durante décadas, Portugal habituou-se a receber investimento como quem recebe chuva depois de uma longa seca: agradecendo a chegada sem perguntar suficientemente bem de onde vem, o que deixa e o que leva. Em regiões do interior, esta vulnerabilidade torna-se ainda maior. Perante a falta de emprego e a perda demográfica, qualquer promessa de investimento pode adquirir uma dimensão quase redentora.
É precisamente nesses momentos que os responsáveis políticos devem ter mais lucidez, não menos.
Castelo Branco precisa de investimento. Não há qualquer dúvida.
Precisa de empresas, de indústria, de serviços qualificados, de tecnologia, de inovação, de emprego estável e de atividade económica capaz de criar oportunidades para quem nasceu aqui e para quem possa escolher aqui viver.
Precisa, sobretudo, de pessoas.
E é exatamente por isso que a discussão sobre grandes projetos de energias renováveis não pode ficar limitada à potência instalada, ao volume de investimento anunciado ou à capacidade de ligação à rede elétrica.
A pergunta tem de ser outra: o que fica em Castelo Branco quando o investimento chega?
Quantos empregos permanentes?
Quantas famílias?
Quantas empresas locais?
Que conhecimento?
Que atividade económica?
Que receita?
Que retorno para a comunidade?
E a que custo territorial?
Não são perguntas contra as energias renováveis. São perguntas a favor de uma transição energética que respeite os territórios onde essa transição acontece.
A Beira Baixa não pode ser tratada como uma imensa superfície disponível para instalar painéis, aerogeradores, linhas e equipamentos sempre que um projeto encontre uma oportunidade económica.
Há lugares onde uma infra-estrutura energética pode fazer sentido.
Há lugares onde pode ser incompatível com a agricultura, com a paisagem, com o património natural, com a atividade económica existente ou com a própria visão de desenvolvimento que uma comunidade tem para o seu futuro.
A localização importa.
A dimensão importa.
O método importa.
O impacto importa.
E a vontade das populações também deve importar.
É neste ponto que a posição de Leopoldo Rodrigues merece ser lida para além da frase política do momento.
O atual presidente da Câmara de Castelo Branco tem manifestado oposição a determinadas formas de ocupação do território por projetos de energias renováveis, em particular quando entende que os métodos e as localizações propostos podem comprometer terrenos e paisagens da Beira Baixa.
Essa posição não equivale a ser contra as energias renováveis.
Equivale, ou pode legitimamente equivaler, a defender que a transição energética não deve ser feita contra o território.
Há uma diferença colossal entre rejeitar a energia limpa e rejeitar determinada forma de a produzir.
Entre dizer “não às renováveis” e dizer “não aqui, não desta maneira e não a qualquer preço”, existe todo um território político.
E esse território merece ser discutido.
Porque seria demasiado fácil olhar para os 1,2 mil milhões de euros e concluir que Castelo Branco perdeu.
Talvez tenha perdido um investimento.
Mas ainda não sabemos se perdeu uma oportunidade.
Essa distinção é fundamental.
Se o projeto representasse uma enorme transformação territorial e produzisse apenas uma quantidade reduzida de emprego permanente, então a discussão sobre o seu real benefício para o concelho é perfeitamente legítima. Se, pelo contrário, existissem benefícios económicos, sociais e territoriais significativos que não foram suficientemente considerados, então a Câmara Municipal terá de responder perante a população pelas consequências da sua decisão.
É assim que funciona uma democracia local.
Os autarcas não estão acima da crítica.
Mas também não devem ser julgados exclusivamente pelo valor financeiro dos projetos que conseguem anunciar.
Um presidente de Câmara não é um agente imobiliário do território.
Não tem como missão colocar uma etiqueta de “disponível” em cada parcela de terreno.
Tem uma responsabilidade muito maior: decidir que território quer entregar às gerações seguintes.
E essa responsabilidade não se mede apenas em euros.
Pode medir-se em paisagens preservadas.
Pode medir-se em atividade agrícola mantida.
Pode medir-se em qualidade de vida.
Pode medir-se na capacidade de atrair pessoas.
Pode medir-se na criação de emprego qualificado.
Pode medir-se na permanência dos jovens.
Pode medir-se na capacidade de uma região continuar a reconhecer-se a si própria daqui a vinte ou trinta anos.
É por isso que a desvalorização da perda do investimento, por parte de Leopoldo Rodrigues, pode ser interpretada de uma forma muito diferente daquela que alguns tentarão impor.
Não necessariamente como desprezo pelo investimento.
Mas como uma tentativa de estabelecer uma hierarquia de valores.
Primeiro, as pessoas.
Depois, o território.
Depois, o desenvolvimento que esse território consegue suportar.
E só então o dinheiro.
É uma inversão importante numa época em que demasiadas vezes se apresenta o dinheiro como argumento final.
Mas há uma condição essencial para que esta posição política seja credível: Castelo Branco terá de apresentar resultados.
Não basta dizer que se procuram investimentos melhores.
É preciso encontrá-los.
Não basta defender empregos.
É preciso criar condições para que as empresas os criem.
Não basta falar em fixação de população.
É preciso construir uma economia que torne possível às pessoas ficar.
Não basta recusar um projeto.
É preciso explicar com clareza qual é o projeto de território que se pretende construir em alternativa.
Essa será a verdadeira prova.
Porque dizer “não” pode ser uma decisão corajosa.
Mas transformar esse “não” num caminho de desenvolvimento é uma responsabilidade muito maior.
A Eurowind Energy tem legitimamente a possibilidade de procurar outras localizações e outros municípios. Outros autarcas terão agora de decidir se querem acolher os projetos e em que condições. E essas comunidades terão, naturalmente, o direito de discutir as mesmas perguntas que Castelo Branco está agora obrigado a discutir.
Não há vencedores automáticos nesta história.
A empresa procura condições para concretizar um investimento.
Os municípios procuram desenvolvimento.
As populações procuram emprego, qualidade de vida e futuro.
E o território procura quem o defenda.
O que seria verdadeiramente preocupante seria uma corrida entre municípios para saber quem aceita mais depressa, quem impõe menos condições e quem disponibiliza mais território.
Isso não seria desenvolvimento.
Seria competição pela cedência.
Castelo Branco não pode aceitar a ideia de que, por estar no interior, deve agradecer qualquer projeto que lhe seja apresentado.
O interior não pode continuar a ser visto como o lugar onde se instala aquilo que outros territórios recusam ou onde os custos territoriais são mais fáceis de suportar porque a densidade populacional é menor.
O interior merece investimento, mas merece bom investimento.
Merece empresas que tragam emprego.
Merece projetos que tragam pessoas.
Merece atividade económica que permaneça.
Merece conhecimento.
Merece futuro.
E merece, acima de tudo, respeito pelo seu território.
É possível defender as energias renováveis e, simultaneamente, exigir melhores localizações.
É possível querer a transição energética e rejeitar decisões de ordenamento que se considerem inadequadas.
É possível procurar investimento sem transformar cada hectare numa oportunidade de negócio.
É possível querer desenvolvimento sem aceitar que desenvolvimento seja sinónimo de ocupação.
E talvez seja esta a discussão que Castelo Branco deveria aproveitar para fazer.
Porque, no fim, os 1,2 mil milhões de euros são uma notícia.
A decisão sobre o território é história.
Os milhões podem mudar de município.
Um projeto pode mudar de localização.
Uma empresa pode procurar outro lugar.
Mas uma paisagem destruída, um território mal planeado ou uma oportunidade perdida de construir um modelo económico equilibrado deixam marcas que não desaparecem com a próxima manchete.
Por isso, neste momento, a pergunta não deve ser apenas quanto Castelo Branco perdeu.
Deve ser: o que Castelo Branco está disposto a ganhar sem perder aquilo que é.
Se Leopoldo Rodrigues escolheu colocar a população e o território em primeiro lugar, essa escolha merece ser avaliada pelos resultados e pela coerência, não apenas pelo valor do investimento que ficou à porta.
A história fará o resto.
E a população também.
Porque um presidente de Câmara passa.
Um mandato passa.
Uma empresa pode partir.
Um investimento pode procurar outra terra.
Mas Castelo Branco fica.
E é a Castelo Branco que devemos perguntar, antes de tudo o resto, quanto vale o seu próprio futuro.
Fernando Jesus Pires,
Jornalista CP-Nacional, CP-Internacional, Diretor do jornal independente OREGIÕES
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