
No interior do salão, uma imensa ilustração na parede exibe o recorte do mapa da Índia, mais precisamente a região ao sul do país com a dimensão continental, banhada pelo Mar Arábico. Ao lado do mapa, a imagem do navegador português Vasco da Gama parece destoar, mas na verdade é a peça que completa o curioso puzzle da decoração do restaurante Kerala, nos Anjos, em Lisboa.
“Kerala foi a primeira paragem de Vasco da Gama na Índia, em 1498”, explica, orgulhoso, o chef Vijeesh Rajan, proprietário da casa, apontando com o dedo o porto de Calecute. A primeira paragem em solo indiano do navegador e também a última das suas aventuras. Agora, o dedo de Vijeesh desce até Kocki, ainda em Kerala, onde Vasco da Gama morreu, em 1524.

Nascido em Kerala cinco séculos depois, Vijeesh fez o caminho inverso de Vasco da Gama e aportou em Lisboa em 2018, após uma escala em Hamburgo, na Alemanha. A ideia era usar as mesmas especiarias indianas trazidas nas caravelas para comprovar que o esforço de abrir caminho pelos mares até a Índia valeu mais do que a pena.
Com o português tão afiado quanto as facas na sua cozinha, o sorridente Vijeesh lembra que o simpático restaurante na rua Passos Manuel, nos Anjos, não seduz os lisboetas apenas pelos laços sentimentais históricos. “Mas, principalmente, pela gastronomia de Kerala ser totalmente diferente da maioria dos restaurantes indianos de Lisboa”, completa.
A palavra Kerala, ensina o agora lisboeta Vijeesh, é a junção em malayalam – o idioma local cujo nome curiosamente pode ser lido também de trás para frente – das palavras “kera” e “ala”, coco e terra em português.

Sendo assim, é de se imaginar que na Terra do Coco a fruta seja a base da cozinha, de onde também se extrai o “leite” para os molhos.
Os 600 quilómetros de litoral garantem os peixes e frutos do mar que completam o cardápio. Sem falar que estar na face da Índia virada ao Médio Oriente também “contaminou” os pratos com toques de influência síria e árabe, sem falar em ingredientes que os fazem aproximar-se de um sabor mais tropical, como a mandioca e o papaia.
Não espere, portanto, encontrar na ementa os mesmos pratos da gastronomia do norte da Índia, mundialmente mais difundida, ao ponto de ter praticamente virado sinónimo de “comida indiana”. Comprovar a existência de outras “comidas indianas”, porém, pode ser uma deliciosa notícia, principalmente para quem é daqueles que gostam de variar um bocadinho.

Um prato picante para Vasco da Gama
Licenciado em business, Vijeesh não demorou em trocar as planilhas e a calculadora pelos utensílios de cozinha. Ainda em Kerala, cursou gastronomia e, a partir de 2008, começou seu périplo mundial como difusor da cozinha de seu país, então ainda bem menos conhecida. Primeiro no Kuwait, em seguida na Alemanha, em 2010, até fixar raízes em Lisboa.
“Conheci o país a passeio e o clima e a simpatia das pessoas me convenceram a trocar a Alemanha por Portugal”, conta. Hoje, aos 42 anos, parece completamente adaptado ao novo país. Não dispensa um bacalhau à brás – o seu prato preferido português – e o filho de 3 anos, já nascido em Lisboa, como todo o bom lisboeta, incluiu a sopa na dieta diária.
O português fluente foi fruto de cinco anos de curso intensivo. “Queria aprender a língua, achava importante falar português para conversar com as pessoas”, conta. A comunicação é, para Vijeesh, um tópico tão importante, que confeccionou um guia em forma de um livro de capa dura, para os clientes lerem enquanto esperam o prato ser servido.


O conteúdo da leitura é a história de Kerala, suas particularidades, incluindo duas páginas dedicadas, claro, à relação com Vasco da Gama. A menção ao navegador, no pequeno livro e no enorme mural, porém, não descarta reflexões sobre a violência do processo colonial.
Tanto que, quando questionado sobre que prato serviria hoje ao navegador responsável por trazer as especiarias de Kerala para Portugal, Vijeesh folheia o cardápio e indica o Pork Vindalho, que surge acompanhado pela imagem de uma lustrosa pimenta pintada em vermelho-alerta.
Ui!
Vasco da Gama obviamente não vai experimentar um dos pratos mais picantes da casa, mas um dos seus descendentes teve a oportunidade de se beneficiar das viagens na rota da Índia. Vijeesh conta que, no Natal do ano passado, uma confraternização juntou uma imensa mesa no restaurante e entre os presentes apresentou-se um legítimo membro do clã da Gama.

O registo para comprovar foi feito pelo telemóvel e a fotografia mostra Vijeesh abraçado ao lado do jovem Vasco Teles da Gama, décimo oitavo neto do navegador, tendo como background a imensa imagem na parede do restaurante. “Achei-o parecido com o homem da pintura e disse-lhe. Ele respondeu que era parente do Vasco da Gama”, diverte-se.
O cardeal encontro da gastronomia indiana
O tal Pork Vindalho e a sua pimenta vermelho-alerta a ser ofertado ao Vasco da Gama original é um dos exemplos de encontro entre a gastronomia de Kerala e a portuguesa, desta feita trazida de outra região da Índia, Goa.
O menu do restaurante, porém, traz outros sons familiares, como o Meen Mollee, um estufado de peixe bem molle, como quem diz “mole”, com coco e molho de especiarias. Na mesma pegada há o Pollicha Meen, também de peixe, assado em folhas de bananeira. O Mar Arábico também se apresenta no Kerala Prawn Curry, os camarões salteados em leite de coco.
Alguns dos pratos capricham também na apresentação, como o impossível de ignorar Masala Dosa, um crepe com uns bons 30 centímetros, preparado com uma finíssima massa de arroz e lentilhas, acompanhado de creme de batata e três variações de molhos. Um prato que chama atenção pelo visual, mas que também tem conteúdo.
Como prova de boa vizinhança com a gastronomia do norte da Índia, o Kerala faz algumas concessões aos clássicos da “comida indiana” e é possível encontrar nomes mais familiares, como as tradicionais entrada em Plain ou Garlic Naan, preparada no típico forno tandoori, assim como os Chicken e o Paneer Tikka Masala.


Estão lá também os conhecidíssimos Madras Curry, Korma Sauce e o Butter Chicken.
Mas, como diria Vasco da Gama, aviso aos navegantes: uma vez em território de Kerala, nada melhor que navegar por mares gastronómicos nunca dantes navegados.
Repetir a viagem de sabores de Vasco da Gama
Uma boa oportunidade acontece neste sábado e domingo, 12 e 13, quando acontece a celebração anual a Onan, uma festividade oficial de Kerala dedicada ao mito de um antigo rei local e que marca o fim do período da colheita.
A data do festival de Onan, mesmo, é em agosto, mas o jeitinho português acabou por empurrá-lo para setembro. “Muitos clientes do restaurante pediram para acontecer em setembro, pois em agosto estavam de férias, e não queriam perder o Onan”, explica Vijeesh.
Popularmente conhecido entre os clientes habituais da casa como a “festa da folha de bananeira”, trata-se de uma experiência exótica e inédita aos frequentadores dos outros restaurantes de “comida indiana” da Lisboa.
A começar pela já citada folha de bananeira, que substitui o prato. Além dele, também não estão lá o garfo, a faca e a colher. A mão é o talher do comensal de um verdadeiro banquete, o Sadhya, uma profusão de iguarias vegetarianas típicas de Kerala, num total de 30 pratos, entre as entradas, os principais e as sobremesas.

A celebração acontece em três turnos – 12h às 13h15, 13h15 às 14h30 e das 14h30 às 15h45 – e, apesar de ser concorrido, excecionalmente ainda há vagas para a próxima viagem gastronómica partindo de Lisboa com destino a Kerala.
Para repetir em terra firme a viagem de Vasco da Gama em busca dos temperos das Índias.
Álvaro Filho
Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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