
CADERNOS DO INTERIOR
Por Fernando Jesus Pires
A LOTARIA PORTUGUESA
Entre a raspadinha e o Euromilhões, há um país inteiro à procura de um milagre. Uns jogam com moedas; outros parecem jogar com o dinheiro, o tempo e a paciência dos cidadãos. No interior, onde cada atraso custa mais caro, a política precisa menos de sorte e muito mais de competência.
Há qualquer coisa de profundamente irónica num país onde tanta gente trabalha para pagar impostos, paga impostos para sustentar serviços que nem sempre respondem à altura e, no fim do mês, ainda procura numa raspadinha aquilo que o salário já não consegue oferecer: a esperança de uma vida melhor. Portugal parece ter descoberto uma nova forma de mobilidade social.
A raspadinha.
Já não basta estudar, trabalhar, poupar, investir, criar uma empresa, exportar, inovar ou passar uma vida inteira a cumprir horários. Agora é preciso também ter sorte.
Uma moeda.
Um bilhete.
Uns números.
E a fantasia de que amanhã tudo poderá ser diferente.
Foi por isso que uma publicação no facebook da jornalista Tânia Laranjo, do Correio da Manhã e da CMTV, sobre Amélia, a conhecida vencedora de 51 milhões de euros no Euromilhões há 14 anos, me ficou na cabeça.
A história é irresistível.
Amélia ganhou uma fortuna que lhe permitiria, segundo a apresentação da reportagem, comprar uma ilha, um castelo ou uma frota de Ferraris. Mas não o fez. Continua a viver em Ariz, no Marco de Canaveses. A reportagem acompanha-a entre viagens, carros, compras, presunto e caramelos comprados em Espanha, numa espécie de viagem ao estranho quotidiano de quem tem milhões e continua capaz de olhar para uma fatura e concluir, com a sabedoria popular que sobrevive a todas as fortunas:
“Isto é caro como o raio!”
Há humor na história.
Mas há também uma metáfora.
Porque Amélia não é apenas Amélia.
É, involuntariamente, o nome de um sonho nacional.
O sonho de escapar.
Escapar ao crédito.
À renda.
Ao supermercado.
À fatura da eletricidade.
Aos impostos.
À doença.
À burocracia.Ao salário que chega ao fim do mês já cansado de ser pequeno.
Na redação do OREGIÕES, em Castelo Branco, estamos praticamente ao lado da casa da sorte. E basta olhar diariamente para a rua para assistir a uma pequena cerimónia nacional.
As pessoas entram.
Dão à moeda.
Compram a raspadinha.
Preenchem o boletim.
Escolhem números.
Guardam o bilhete.
E saem com a esperança dobrada dentro do bolso.
Talvez não procurem Ferraris.
Talvez procurem apenas tranquilidade.
Uma casa.
Uma reforma sem medo.
Uma ajuda aos filhos.
Uma dívida liquidada.
Uma oportunidade.
Um pouco de liberdade.
E é precisamente aqui que a raspadinha deixa de ser apenas um jogo.
Passa a ser um retrato social.
Porque quando uma sociedade começa a olhar para o Euromilhões como uma das poucas possibilidades de mudar radicalmente de vida, talvez seja altura de perguntar o que aconteceu ao país que prometia que o trabalho seria o caminho mais seguro para o futuro.
Não é Amélia que tem de explicar Portugal.
É Portugal que devia explicar por que razão precisa tanto de Amélias.
Não condeno quem joga.
Seria fácil fazer moralismo de café sobre isso.
Mais difícil é olhar para as causas.
E essas estão à vista.
O custo de vida pesa.
A habitação pesa.
A carga fiscal pesa.
As pequenas empresas lutam diariamente para sobreviver.
Os jovens olham para o preço das casas e fazem contas que não fecham.
As famílias fazem malabarismo com o salário.
E o Estado continua a apresentar a sua fatura com a serenidade de quem sabe que, no fim, alguém pagará.
Portugal tornou-se especialista numa matemática peculiar.
Quando há dinheiro a cobrar, encontra-se rapidamente o mecanismo.
Quando há um serviço a prestar, aparece a fila.
Quando há uma fatura pública a pagar, surge o procedimento.
Quando há uma decisão urgente, aparece uma reunião.
Quando a reunião termina, marca-se outra.
E quando finalmente tudo está decidido, talvez seja necessário criar uma comissão para estudar a decisão.
É a burocracia transformada em filosofia de Estado.
No interior, a situação ganha uma dimensão ainda mais séria.
As autarquias têm um peso enorme na economia local. São empregadores, compradores, investidores e centros fundamentais de decisão. Por isso mesmo, devem ser avaliadas não apenas pelas obras que inauguram, pelas fotografias que produzem ou pelos discursos que fazem, mas também pela capacidade de cumprir aquilo que contratam e de pagar aquilo que devem.
Uma pequena empresa que presta um serviço a uma autarquia não vive de boas intenções.
Vive de faturas pagas.
Tem trabalhadores.
Tem fornecedores.
Tem impostos.
Tem seguros.
Tem bancos.
Tem famílias.
Uma fatura em atraso pode ser uma linha administrativa para quem a deve e um problema financeiro sério para quem a espera.
Esta diferença deveria ser ensinada em qualquer escola de administração pública.
Talvez até à entrada das câmaras.
“Aqui administra-se dinheiro dos outros.”
Não é dinheiro dos executivos.
Não é dinheiro dos partidos.
Não é dinheiro dos amigos.
Não é dinheiro de quem assina.
É dinheiro dos cidadãos.
E cada euro público nasceu, antes, do trabalho de alguém.
Talvez esta verdade seja demasiado simples.
Mas as verdades simples são frequentemente as primeiras a desaparecer nos corredores do poder.
Há ainda uma outra questão, mais delicada, que merece ser discutida sem generalizações injustas.
A política local não pode confundir confiança pessoal com competência profissional.
Não pode premiar automaticamente a proximidade e esquecer o mérito.
Não pode criar a sensação de que há funcionários que precisam de trabalhar por três enquanto outros beneficiam apenas porque estiveram do lado certo de uma lista eleitoral.
Seria injusto dizer que isto acontece em todas as autarquias.
Não acontece.
Há autarcas sérios.
Há funcionários extraordinários.
Há servidores públicos que fazem todos os dias verdadeiros milagres com poucos recursos.
Mas também seria ingénuo fingir que a cultura do “é dos nossos” desapareceu.
Não desapareceu.
E enquanto existir, será sempre uma ferida na confiança pública.
Porque o mérito não devia ter partido.
Não devia ter cor.
Não devia ter padrinho.
Não devia precisar de fotografia de campanha.
Devia simplesmente funcionar.
Quem trabalha deve ser reconhecido.
Quem decide deve responder.
Quem administra deve prestar contas.
Quem falha deve explicar.
É assim que uma democracia amadurece.
Não é com favores.
É com responsabilidade.
Entretanto, Portugal continua a jogar.
Uns jogam no Euromilhões.
Outros jogam no Totoloto.
Outros raspam bilhetes.
E há quem jogue nas eleições, apostando na promessa de que desta vez será diferente.
Talvez seja essa a nossa maior especialidade nacional: apostar sempre no próximo sorteio.
O próximo governo.
O próximo executivo.
O próximo programa.
A próxima obra.
O próximo fundo europeu.
A próxima promessa.
O próximo milagre.
E, enquanto esperamos, o país envelhece.
Os jovens partem.
As empresas resistem.
O interior perde população.
Os serviços públicos lutam.
As famílias apertam o cinto.
E a casa da sorte continua aberta.
É difícil imaginar uma metáfora mais perfeita.
Ali vende-se esperança em pequenos bilhetes.
Cá fora vende-se esperança em grandes discursos.
A diferença é que a raspadinha tem probabilidades conhecidas.
Na política, às vezes nem isso.
Amélia teve sorte.
Portugal precisa de competência.
Ela ganhou 51 milhões.
O país precisa de ganhar todos os dias milhões de pequenas batalhas.
Ganhar tempo.
Ganhar produtividade.
Ganhar confiança.
Ganhar investimento.
Ganhar jovens.
Ganhar empresas.
Ganhar salários dignos.
Ganhar serviços públicos que funcionem.
Ganhar justiça.
Ganhar futuro.
Esse seria o verdadeiro Euromilhões nacional.
Sem sorte.
Sem raspadinha.
Sem números mágicos.
Apenas com trabalho sério.
Talvez seja por isso que a pergunta mais importante não seja:
“E se me saísse o Euromilhões?”
Talvez devêssemos perguntar:
“E se nos saísse, finalmente, uma política à altura do país?”
Uma política que percebesse que governar não é mandar.
É servir.
Que administrar não é gastar.
É gerir.
Que o dinheiro público não é de quem governa.
É de quem paga.
E que o interior não precisa de piedade, discursos ou fotografias.
Precisa de respeito.
Respeito pelo empresário.
Pelo trabalhador.
Pelo funcionário competente.
Pelo jovem.
Pelo idoso.
Pela família.
Pelo contribuinte.
Pelo cidadão que cumpre.
No fundo, Portugal não precisa de mais Amélias.
Precisa de menos portugueses obrigados a sonhar que só um prémio milionário lhes permitirá viver com dignidade.
A Amélia ganhou a lotaria.
Nós precisamos de ganhar o país
.
Porque uma nação não pode viver eternamente à espera que lhe saia a sorte grande.
A sorte pode mudar a vida de uma pessoa. Só a competência pode mudar a vida de um país.
Editorial | Cadernos do Interior
Fernando Jesus Pires,
Jornalista CP-Nacional, CP-Internacional,
Diretor do jornal independente OREGIÕES
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