
As 51 agendas mobilizadoras do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) envolveram quase 1.100 entidades, entre empresas, universidades e entidades do sistema científico e tecnológico. Num momento em que está prestes a terminar o prazo de execução da bazuca europeia, mais do que os 1.200 produtos, processos e serviços (PPS) que resultaram destes projetos, as empresas destacam o modelo colaborativo destes consórcios que permitiu desenvolver soluções inovadoras, abrindo oportunidades e novos mercados. Um legado que, garantem, vai continuar a gerar frutos depois do PRR e contribuir para a competitividade da economia.
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Ao contrário do que é habitual, as agendas mobilizadoras obrigaram empresas e academia a trabalharem juntas para executar os investimentos. Os mais de 50 consórcios, que representam 15% do PRR, juntaram 874 empresas e 224 centros de investigação. No total mobilizaram mais de sete mil milhões de euros de investimento e mais de 3.200 milhões de euros de subvenções do PRR e desenvolveram 1.270 produtos, resultando em oito mil milhões de euros de aumento do volume de negócios quando entrarem no mercado internacional e na criação de 11 mil novos empregos altamente qualificados.
“As Agendas Mobilizadoras representam uma das mais ambiciosas políticas públicas de inovação empresarial alguma vez lançadas em Portugal e uma escolha estratégica de apostar na competitividade, no conhecimento e na indústria como base do crescimento económico”, afiançou o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, por ocasião do 3.º Encontro das Agendas Mobilizadoras para a Inovação Empresarial, no Europarque em Santa Maria da Feira, em junho.
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Para o ministro, a capacidade criada por estes consórcios “não se pode esgotar no PRR e não se limita aos projetos financiados”, uma vez que empresas de todas as dimensões e entidades do sistema científico e de investigação aprenderam a trabalhar em conjunto. Uma opinião partilhada pelas empresas que participaram nestas agendas.
As Agendas Mobilizadoras representam uma das mais ambiciosas políticas públicas de inovação empresarial alguma vez lançadas em Portugal e uma escolha estratégica de apostar na competitividade, no conhecimento e na indústria como base do crescimento económico.
Manuel Castro AlmeidaMinistro da Economia
Paula Pinto, coordenadora de I&D no Raiz – Instituto de Investigação da Floresta e do Papel, da Navigator, que participou na agenda From Fossil to Forest, realça que, “além de novos produtos e novas capacidades industriais, o projeto consolidou uma rede de colaboração entre empresas e entidades científicas que continuará a gerar inovação muito para além do horizonte temporal do PRR. O balanço global é muito positivo”.
A responsável nota que “este instrumento permitiu reduzir a distância entre investigação, desenvolvimento e mercado, potenciando investimentos que dificilmente teriam a mesma ambição se desenvolvidos de forma isolada. Mais do que novos produtos e novas capacidades industriais, a Agenda From Fossil to Forest deixou um ecossistema de colaboração que constitui um legado importante para a competitividade da economia portuguesa”.
Este instrumento permitiu reduzir a distância entre investigação, desenvolvimento e mercado, potenciando investimentos que dificilmente teriam a mesma ambição se desenvolvidos de forma isolada. Mais do que novos produtos e novas capacidades industriais, a Agenda From Fossil to Forest deixou um ecossistema de colaboração que constitui um legado importante para a competitividade da economia portuguesa.
Paula PintoCoordenadora de I&D no Raiz (Navigator)
“A natureza colaborativa deste modelo permitiu reunir empresas, universidades e centros tecnológicos em torno de um objetivo comum: acelerar o desenvolvimento e a industrialização de soluções de base florestal para substituir materiais de origem fóssil”, explica Paula Pinto, destacando “uma experiência particularmente relevante, quer pela dimensão do desafio, quer pelos resultados alcançados”.
Para Paula Pinto, “entre os resultados mais relevantes destacam-se a industrialização de tecnologias que reforçam a eficiência na utilização dos recursos florestais, permitindo valorizar melhor a matéria-prima disponível, o desenvolvimento e produção de papéis castanhos destinados ao mercado da embalagem e a criação de novas soluções de embalagem em celulose moldada, abrindo oportunidades em segmentos tradicionalmente dominados pelo plástico de uso único”. Resultados que, diz, “demonstram a capacidade da colaboração entre empresas e entidades do sistema científico e tecnológico para acelerar a inovação, criar valor económico e contribuir para uma economia mais sustentável“.

“As agendas mobilizadoras constituíram uma importante plataforma de entrosamento público-privado, assente no conhecimento partilhado e no desenvolvimento de soluções inovadoras”, acrescenta a Bondalti. A química portuguesa, que concluiu este ano a aquisição da gigante espanhola Ercros, e que participou no GIATEX – Gestão Inteligente da Água na Indústria Têxtil e do Vestuário, explica que este projeto focou-se no apoio à gestão hídrica e na redução do consumo de água na indústria têxtil e do vestuário através de tecnologias de tratamento, monitorização e reutilização.
O projeto “apresentou um balanço muito positivo, uma vez que, ao longo de quatro anos, implementou 20 projetos-piloto industriais que alcançaram uma redução de 40% no consumo de água do setor”.
A empresa do universo José de Mello nota que “a experiência do GIATEX mostra, neste contexto, o valor da cooperação entre empresas e entidades do sistema científico e tecnológico para desenvolver e testar soluções com aplicação industrial“.
Nelson Ferreira, diretor do consórcio Illiance, liderado pela Bosch Termotecnologia, fábrica da multinacional alemã em Aveiro, e responsável internacional de indústria 4.0 na Bosch, destaca que liderar esta agenda, “um dos maiores consórcios nacionais focados em soluções para edifícios inteligentes, saudáveis e neutros em carbono, foi uma experiência extraordinariamente enriquecedora e transformadora para a Bosch”. “O balanço destas Agendas Mobilizadoras do PRR é extremamente positivo, demonstrando na prática que a inovação colaborativa é o motor ideal para responder com urgência à transição energética a nível europeu”, sustenta.
“Ao coordenar um ecossistema robusto de 29 entidades — que une 17 empresas líderes de mercado, 9 universidades e centros de investigação de referência (ENESII), 2 clusters e 1 associação — conseguimos quebrar os silos tradicionais. Com um investimento global elegível de 116,3 milhões de euros (comparticipado em 56,7 milhões pelo PRR), provámos que Portugal tem escala e maturidade científica para liderar projetos tecnológicos de grande complexidade“, destaca ainda.
O nível de partilha de conhecimento, cocriação de produtos e partilha de infraestruturas tecnológicas criou relações de confiança profundas que continuarão a traduzir-se em novas parcerias comerciais e novos projetos de co-desenvolvimento no futuro.
Nelson FerreiraDiretor do consórcio Illiance e Responsável Internacional de Indústria 4.0 na Bosch
Nelson Ferreira explica que com esta iniciativa foi possível “materializar a investigação, desenvolvimento e industrialização em 77 novos produtos inovadores (focados em eletrificação, bombas de calor de nova geração e combustão a hidrogénio), com um potencial de vendas futuro estimado em mais de 300 milhões de euros”, calcula. Quanto ao futuro garante que “o nível de partilha de conhecimento, cocriação de produtos e partilha de infraestruturas tecnológicas criou relações de confiança profundas que continuarão a traduzir-se em novas parcerias comerciais e novos projetos de co-desenvolvimento no futuro”.
Muitas das pequenas e médias empresas que participaram no consórcio, acrescenta, “capacitaram-se tecnologicamente para cumprir os elevados padrões exigidos pelos mercados globais. Isto eleva de forma permanente a competitividade e a resiliência do tecido produtivo nacional no mercado de exportação”, remata. Já sobre a agenda Illiance realça que “provou que a inovação aberta e em rede é a única via para a sustentabilidade, e Portugal demonstrou que sabe fazê-lo ao mais alto nível”.
No início o processo apresentou alguns desafios, uma vez que as universidades e os institutos, devido às normas de contratação pública, iniciaram os trabalhos muito depois das empresas.
Carlos AlvesFundador da HFA
Carlos Alves, fundador e administrador da HFA, que participou na agenda da microeletrónica e na agenda Be-Neutral, assume que “no início o processo apresentou alguns desafios, uma vez que as universidades e os institutos, devido às normas de contratação pública, iniciaram os trabalhos muito depois das empresas”. Ainda assim, assume que se registou “uma intensa interação entre as diversas entidades, marcada por visitas aos respetivos locais de trabalho, Assembleias Gerais, congressos e conferências”.
No que diz respeito à participação da HFA nas agendas sustenta que “representou um marco fundamental na evolução da empresa”, permitindo “acelerar investimentos cruciais em tecnologia, inovação e qualificação das equipas, reforçando a nossa capacidade de entregar soluções de maior valor acrescentado“.
Ao nível produtivo modernizaram-se processos, aumentou-se a eficiência operacional e a capacidade de resposta a projetos tecnologicamente mais exigentes. Já a nível tecnológico, consolidaram-se “competências em microeletrónica, eletrónica avançada e economia circular, áreas indispensáveis para dar resposta às exigências dos mercados internacionais”.
Por fim, ao nível da competitividade, “o projeto fortaleceu a nossa posição como parceiro tecnológico de referência, viabilizando a participação em iniciativas colaborativas com empresas, centros de investigação e universidades”, resume.
“Mais do que o investimento financeiro, o verdadeiro impacto traduziu-se na criação de conhecimento, no desenvolvimento de novas competências e na abertura de portas para novos mercados e produtos“, explica, destacando que “os melhores resultados surgem quando existe uma forte ligação entre universidades, centros de investigação e empresas. É dessa colaboração que nascem novas tecnologias, produtos e soluções capazes de responder aos desafios da indústria”.
Apesar do balanço positivo, Carlos Alves aponta que “faltou a apresentação do ‘dia seguinte’. Como passamos, agora, do projeto ao produto? Como potenciar a introdução das soluções desenvolvidas na indústria portuguesa, na administração pública e nas autarquias, por exemplo? De que forma vamos ajudar as empresas detentoras de protótipos funcionais a otimizá-los e a comercializá-los com sucesso?”, questiona.
Também a Navigator identifica alguns desafios na execução da agenda, nomeadamente a “passagem de desenvolvimentos realizados à escala laboratorial para validação em escala piloto e posterior implementação industrial, um processo naturalmente exigente que requer tempo, capacidade de adaptação aos ritmos e requisitos industriais e uma forte articulação entre todos os parceiros envolvidos” e “a complexidade inerente à coordenação de projetos desta dimensão”.
“Particularmente desafiante foi executar todo este processo na janela temporal disponível, já que a implementação industrial requer a coordenação de empresas fornecedoras de equipamento, consultores de engenharia e recursos nacionais e internacionais que trabalham com requisitos definidos pelos processos referidos”, aponta Paula Pinto.
Helena Silva, CTO do CEiiA, explica que as agendas foram para o centro de engenharia “uma forma de acelerar os desenvolvimentos em curso ao permitir concentrar recursos e mobilizar empresas e entidades de ciência e tecnologia em torno do desenvolvimento de programas completos, desde a conceção até à industrialização e operação, de novos produtos e serviços em setores de elevada intensidade tecnológica e em profunda transformação a nível europeu e global”.
Estas Agendas deram origem a novos produtos e serviços e a novos integradores finais, como é o caso da BEN4US, EEA, NEO e Geosat, que permitem não só fixar esse valor no país, como também posicionar Portugal como ator de referência na competitividade e na soberania da Europa.
Helena SilvaCTO do CEiiA
“O papel do CEiiA centrou-se principalmente na estruturação, juntamente com os respetivos líderes, e na coordenação dos desenvolvimentos de três Agendas Mobilizadoras do PRR, que ao todo integraram mais de uma centena de parceiros que cobrem a cadeia de valor completa do produto, como sejam: a Be.Neutral liderada pela NOS (mobilidade sustentável); a Aero.Next Portugal liderada pela EEA (aeronáutica) e a NewSpace Portugal liderada pela Geosat (espaço)”, detalha, acrescentando que faz um balanço “positivo”.
“Estas Agendas deram origem a novos produtos e serviços e a novos integradores finais, como é o caso da BEN4US, EEA, NEO e Geosat, que permitem não só fixar esse valor no país, como também posicionar Portugal como ator de referência na competitividade e na soberania da Europa”, sustenta a responsável.
Referindo-se concretamente às três agendas nas quais o CEiiA participou, a CTO do centro destaca que “superaram as expectativas iniciais ao criarem um novo posicionamento para o país na linha da frente dos setores do Espaço e da Mobilidade, caso da Constelação do Atlântico e do BEN”. “A Constelação do Atlântico é o novo sistema europeu de Observação da Terra de duplo-uso, envolve satélites integrados em Portugal pela NEO e a operação pela Força Aérea Portuguesa com o CTI Aeroespacial e a Geosat, bem como as aplicações do Atlantic Data Hub do CEiiA, caso das catástrofes, sustentabilidade” e “é hoje o maior projeto do setor do Espaço na história do nosso país e um marco determinante para uma Europa mais segura, soberana e competitiva”.

Quanto ao BEN, o primeiro elétrico português, explica que “foi desenhado para superar as limitações dos atuais sistemas de mobilidade urbana, sendo o primeiro que compensa as emissões geradas no ciclo de produção durante o seu uso, contribuindo para acelerar a neutralidade carbónica nas cidades”, estando atualmente em fase de preparação para a industrialização e operação em larga escala. “Se a industrialização do BEN for considerada de interesse nacional, poderá vir a posicionar o nosso país, pela primeira vez, na linha da frente de um mercado em franco crescimento global“, atira Helena Silva.
“Com estas agendas foram criadas condições únicas que permitem ao nosso país ser mais competitivo a nível europeu e global”, conclui.




