Em um mundo atravessado pelo excesso de informação, pela crise climática e por um futuro cada vez mais difícil de prever, imaginar pode ser mais do que uma forma de escapar da realidade. Pode ser uma maneira de enxergá-la com mais clareza. Foi a partir dessa perspectiva que Paulliny Tort e Sérgio Abranches discutiram a força da ficção durante a mesa “Ficção especulativa entre o passado e o futuro”, realizada neste sábado (29), no 4º Fliparacatu.
A conversa, mediada pela escritora Calila das Mercês, partiu de uma provocação sobre a necessidade de “fugir” para imaginar. Para Paulliny, essa fuga não significa abandonar o mundo, mas mudar a chave de leitura da realidade. Leitora de ficção desde a infância, a autora de Os Imortais vê na literatura um espaço cada vez mais necessário diante do fluxo incessante de informações, opiniões e acontecimentos que atravessam a vida contemporânea.
Abranches também recusou a ideia de imaginação como evasão. Para o escritor, pensar o futuro significa justamente ampliar a perspectiva sobre um presente que, embora breve, carrega uma realidade complexa e dolorosa. “O futuro só existe quando ele se torna presente”, comentou o autor.
A ideia ganhou ainda mais forma quando Calila trouxe para a conversa o pensamento de Milton Santos, um dos patronos desta edição do Fliparacatu. Se o mundo não pode ser compreendido a partir de um único ponto de vista, imaginar outros mundos também significa reconhecer que existem diferentes maneiras de experimentar e interpretar a realidade. Para a escritora, especular é uma forma de exercer autonomia e liberdade — e também de tornar visíveis questões que o presente insiste em esconder.
Imaginar também é olhar para o presente
É justamente nesse território entre o que existe e o que ainda pode existir que se encontram os livros dos dois autores.
Em A Franja do Fim do Mundo, Abranches projeta uma sociedade marcada pelo colapso climático, pela desigualdade e pela concentração de poder. A cidade imaginada no romance está cercada por desertos e ruínas e abriga uma elite de super-ricos protegida por um bunker, enquanto o restante da humanidade tenta sobreviver às consequências de um mundo que chegou ao limite.
A distopia, no entanto, não é construída apenas sobre a destruição. Abranches a define como uma narrativa que ainda guarda uma “chama de esperança”. Ao falar sobre o romance, aproximou o cenário imaginado na obra de acontecimentos do presente, como a guerra em Gaza e a violência produzida por estruturas de poder que transformam determinados grupos em vidas mais sacrificáveis do que outras.
Para o escritor, imaginar o futuro também deveria ser uma tarefa política. “O Brasil precisa aprender a pensar no futuro”, afirmou, relacionando a crise climática à dificuldade de construir projetos coletivos de longo prazo. A questão, para ele, não é apenas sobreviver ao que está por vir, mas decidir que tipo de sociedade se pretende construir.
Paulliny chega a esse futuro por outro caminho. Em Os Imortais, seu romance ambientado na pré-história, a autora imagina a vida de um grupo de neandertais e seus encontros com outras espécies humanas. Ao voltar milhares de anos no tempo, a escritora acaba também encontrando questões profundamente atuais: a sobrevivência, a convivência, a perda e a maneira como os seres humanos organizam suas vidas.
O livro levou cinco anos para ser escrito. Durante esse período, Paulliny perdeu o irmão — uma experiência que transformou também sua relação com a própria narrativa. O romance, que já investigava a morte e a permanência, passou a ser também um espaço para elaborar o luto. A literatura, nesse caso, não ofereceu uma resposta para a perda, mas tempo para atravessá-la.
A construção de um amanhã
A autora relacionou essa experiência a uma crítica mais ampla à velocidade da vida contemporânea. Em meio a modelos de trabalho que transformam o tempo em produtividade, famílias que quase não conseguem se encontrar e deslocamentos cotidianos que consomem horas de cada dia, Paulliny questionou o que resta quando viver passa a ser apenas cumprir tarefas.

A observação encontrou eco nas preocupações de Abranches. Os dois escritores, embora partam de épocas e universos ficcionais muito diferentes, se aproximaram ao questionar estruturas neoliberais que reduzem a existência humana à produtividade, à acumulação e à sobrevivência. A crise climática aparece, nesse sentido, não apenas como um problema ambiental, mas como consequência de escolhas coletivas e de um modelo de sociedade que continua avançando mesmo quando já conhece seus limites.
É aí que a ficção especulativa deixa de ser apenas uma literatura sobre o que ainda não aconteceu. Ao imaginar mundos em ruínas, sociedades futuras ou grupos humanos de milhares de anos atrás, os escritores acabam devolvendo ao leitor uma pergunta bastante presente: como chegamos até aqui — e o que estamos fazendo com o mundo que ainda temos?
Paulliny demonstrou pouco otimismo diante das escolhas que a humanidade continua fazendo mesmo conhecendo suas consequências. Para ela, há uma contradição difícil de ignorar: sabemos dos impactos da crise climática, reconhecemos seus riscos, mas seguimos reproduzindo comportamentos que os aprofundam. Ao mesmo tempo, lembrou que nem todos têm as mesmas condições de escolha — há quem esteja tão submetido às urgências da sobrevivência que sequer consiga se dedicar a pensar sobre o futuro.
Abranches ampliou a questão para a necessidade de construir um amanhã que não seja pensado apenas para alguns. Machismo, sexismo e racismo, afirmou, também precisam ser enfrentados quando se fala em futuro. Não se trata necessariamente de apagar tudo o que veio antes e começar do zero, mas de aprender com o passado para construir outras formas de convivência.
No fim, a literatura aparece justamente como esse espaço de ensaio. Um lugar onde é possível voltar à pré-história, avançar até um futuro pós-colapso, inventar sociedades diferentes e, nesse movimento, reconhecer problemas que já estão diante de nós. ■
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