O Estado português comprou 13,7% da REN através da Parpública, mas um despacho assinado pelos ministros das Finanças e do Ambiente e Energia solicitava a aquisição de até 20% do capital da gestora das redes de transporte de eletricidade e gás. Esta participação visa criar um contrapeso ao maior acionista da empresa, a State Grid, empresa pública chinesa que detém 25% do capital. De acordo com especialistas em governança e geopolítica ouvidos pelo ECO/Capital Verde, o reforço da posição do Estado serve para equilibrar forças com o acionista chinês, prevenir posições mais dominantes de outros investidores e assegurar que os objetivos estratégicos definidos pelo Estado são seguidos de perto.
A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, sublinhou que deter uma participação na REN é uma questão de soberania, numa altura de agitação geopolítica global, embora tenha garantido que não registou problemas na relação de trabalho com a State Grid. Heitor Barras Romana, professor do ISCSP, observa que as empresas chinesas vão à procura de mais do que dividendos, receb influência política e capacidade de influenciar decisões em setores estratégicos, pelo que é importante criar contrapesos. Duarte Pitta Ferraz, sócio da Ivens Governance Advisors, defende que o Estado português nunca deveria ter menos de 25%, considerando a decisão "muito acertada".
Com a participação de 13,7%, o Estado ganha o direito a designar pelo menos um administrador na REN, segundo o Código das Sociedades Comerciais. João Moreira Rato, presidente do IPCG, refere que a presença no Conselho de Administração permite acompanhar mais de perto a execução do contrato de concessão e supervisionar decisões estratégicas. Pitta Ferraz destaca que há uma grande diferença entre ter instrumentos regulatórios, como o contrato de concessão, e estar dentro da estrutura acionista, acompanhando diretamente a governação no dia a dia.
A REN era o único operador de rede 100% privado à escala da União Europeia entre os 36 países representados na ENTSO-E. Heitor Barras Romana considera que o ambiente político europeu atual é muito diferente de 2012, quando a State Grid adquirió os 25%, antecipando um aumento da pressão da UE sobre o capital e a governação chinesa em setores críticos. O professor refere que a política europeia é essencialmente de de-risking, continuando a cooperar com a China mas impedindo vulnerabilidades estratégicas na segurança nacional de cada Estado-membro.




