A subida do petróleo e do gás natural está a pressionar os setores mais intensivos em energia, em particular o da cerâmica e cristal, que teme o encerramento de empresas face à atual crise. As margens destas empresas estão esmagadas pela concorrência asiática, sobretudo da China e Índia, tornando impossível a subida de preços para compensar a escalada de custos energéticos. Paulo Almeida, vice-presidente da Apicer, alerta que, perante o excesso de oferta no mercado, as possibilidades de repercutir os aumentos de custo de energia são muito reduzidas, temendo que algumas empresas não tenham margem para sobreviver.
O setor da cerâmica e cristal enfrenta há mais de seis meses preços elevados do gás natural, que passaram de cerca de 32 para 73-75 euros/MWh. Inicialmente, o setor acreditava conseguir aguentar apenas cerca de quatro semanas de preços elevados, mas a situação ameaça tornar-se estrutural. As medidas apresentadas pelo Governo são consideradas insuficientes, uma vez que os apoios são maioritariamente linhas de crédito, o que agravará os problemas de tesouraria de empresas maioritariamente de pequena e média dimensão.
A Associação dos Industriais de Vidro de Embalagem (AIVE), representada pela sua секретарь-geral Beatriz Freitas, acompanha os pedidos da Apicer, embora reconheça que a situação no vidro de embalagem é menos gravosa do que na cerâmica. A AIVE considera que o financiamento não resolve o problema e pede apoio específico, não representando um agravamento do endividamento. A associação anunciou que enviará uma carta ao Ministério da Economia e defende a recuperação do antigo modelo "Apoiar Gás", que disponibilizou 190 milhões de euros para apoiar os setores mais dependentes de gás natural, com apoios até 500 mil euros por empresa.
Segundo dados do INE de 2024, a indústria do vidro e da cerâmica emprega mais de 25 mil pessoas em Portugal. Beatriz Freitas alerta que, embora o setor não queira ser alarmista, existe um limite para a competitividade, e que se os custos continuarem a subir, o vidro de embalagem poderá perder competitividade face ao plástico e às latas. Com três quartos da produção de vidro destinada ao mercado externo, os impactos para a economia portuguesa serão imediatos.




