O Governo português pretende testar o pagamento de uma compensação por cada javali abatido através da caça, através de um projeto-piloto a arrancar em territórios identificados com concentração excessiva da espécie. A intenção foi anunciada pelo ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, durante o Dia de Campo do InovMilho, realizado a 2 de setembro em Coruche. Ainda não existe legislação que estabeleça o pagamento aos caçadores, nem estão definidos detalhes como o valor da compensação, os territórios abrangidos, os critérios de participação, a forma de comprovar os abates, a origem do financiamento e o calendário de execução.
O Alentejo está no centro do problema. Uma investigação apresentada na Universidade de Évora em 2025 analisou 449.481 registos de javalis abatidos em 254 concelhos de Portugal continental, ao longo de 32 épocas venatórias, entre 1989/1990 e 2020/2021. Os resultados mostram que seis dos oito concelhos com maior densidade histórica de abates ficam na região alentejana: Barrancos, Castelo de Vide, Crato, Marvão, Portalegre e Portel. Castelo de Vide registou a maior densidade média do país, com 0,0096 animais abatidos por hectare, e Portel comunicou 13.247 abates em 30 anos, correspondentes a uma média de 442 animais por ano.
O Plano Estratégico e de Ação do Javali em Portugal estimou em 277.385 animais a população média de javalis em Portugal continental, com referência ao ano de 2022, podendo situar-se entre 163.157 e 391.612 devido à margem de incerteza. A densidade média nacional foi estimada em 5,44 javalis por quilómetro quadrado. O número de abates anuais tem crescido significativamente: passou de uma média de 4.697 javalis na década de 1990 para 24.963 entre 2010 e 2020, tendo ultrapassado os 32 mil em 2014 e 2017.
A legislação atual, através do Decreto-Lei n.º 71/2024, permite a caça ao javali durante todo o ano pelos processos de aproximação e espera. O Governo justifica a intenção de reduzir a população de javalis pelos prejuízos nas culturas agrícolas, pelo risco de colisões rodoviárias e pela diminuição do número de caçadores. A identificação dos territórios para o projeto-piloto deverá apoiar-se num estudo coordenado pela Universidade de Aveiro, mas o Ministério da Agricultura e Mar ainda não confirmou quais concelhos serão abrangidos nem se algum território do Alentejo fará parte da primeira fase.




