Mulheres são minoria em governos e chegam ao poder com maior exigência técnica
Portugal teve apenas 15% de mulheres ministras nas últimas cinco décadas, segundo um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos intitulado "Quem Governa Portugal? Perfis ministeriais em perspetiva comparada", coordenado pelos investigadores António Costa Pinto e Marcelo Camerlo. Entre 1976 e 2025, dos 398 detentores de pastas ministeriais que integraram os governos inaugurais, apenas 60 eram mulheres (15%), contrastando com 338 homens (85%). Até 1985 verificou-se uma ausência quase total de mulheres, ocorrendo a primeira nomeação com Leonor Beleza no X Governo liderado por Cavaco Silva, para a pasta da Saúde. A partir daí, observou-se um crescimento lento, com António Guterres em 1995 a registar maior abertura à nomeação de ministras, e os governos de José Sócrates a aprofundarem esta tendência, ultrapassando pela primeira vez os 30% em 2009. Em 2011, Passos Coelho nomeou apenas duas ministras (18%), mas António Costa, em 2015, subiu este número para quatro, tendo o Governo se tornado, em 2019, o primeiro a ultrapassar o limiar de 40%, e em 2022, alcançado os 53% de representação feminina. Os governos de Luís Montenegro (2024-2025) mantêm valores elevados (41% e 37,5%).
O estudo revela que as ministras possuem qualificações académicas superiores à dos ministros (50% com doutoramento versus 25% dos homens) e "dependem desproporcionalmente de credenciais técnicas para aceder ao poder". As mulheres que detêm pastas ministeriais em Portugal estão mais concentradas em pastas periféricas e na área social, sendo a presença feminina no núcleo estratégico do Governo residual, onde se concentram o poder decisório e os recursos orçamentais mais significativos. Esta sub-representação nas pastas centrais limita substancialmente a capacidade de influência das mulheres ministras sobre as decisões estruturantes do executivo. Entre as mulheres, a filiação partidária funciona como condição necessária para aceder ao núcleo duro do Governo, enquanto nas pastas periféricas mais de metade das ministras (53,7%) são independentes, recrutadas pelo seu capital técnico.
No que diz respeito aos ministros em geral, o estudo conclui que um em cada cinco não tem experiência relevante para a pasta. Dos 507 ministros que Portugal teve desde 1976, a maioria (43,4%) tinha uma "ampla" experiência profissional relacionada com a pasta ministerial, mas 22% (113 ministros) não tinham qualquer experiência profissional relevante para o exercício das funções que lhes foram confiadas. Ainda assim, os ministros são hoje mais especializados e tecnicamente preparados do que nas primeiras décadas da democracia, mas essa evolução não retirou aos partidos o controlo sobre a composição dos Governos. Segundo Marcelo Camerlo, um dos coordenadores do estudo, a mudança mais profunda é a emergência e consolidação do perfil do político especialista, que começou a desenhar-se em meados dos anos 1980, sobretudo durante o cavaquismo, sendo que o perfil dominante deixou de ser o do político puro, mas também não passou a ser o do especialista recrutado fora da política, mas de alguém que reúne as duas dimensões.




