Os Países Baixos transferiram ouro no valor de cerca de 10 mil milhões de dólares que tinham depositado nos Estados Unidos e no Canadá para a Europa, numa operação que envolveu cerca de 100 toneladas. Metade foi fisicamente transportada para as instalações seguras do país em Zeist e para o Banco de Inglaterra, enquanto a outra metade foi vendida nos mercados norte-americanos e usada para comprar ouro em Londres. Após esta realocação, o país passou a ter 18,5% do ouro em Nova Iorque e 18,5% em Ottawa, valores que antes eram de 31,3% e 19,7%, respetivamente. O governador do De Nederlandsche Bank, Olaf Sleipjen, explicou que o objetivo foi melhorar a transacionalidade das reservas e a prontidão para crises severas, salientando que o ouro depositado no Banco de Inglaterra é o mais rapidamente disponível em situações de emergência.
Esta movimentação dos Países Baixos reacendeu o debate na Europa sobre a localização das reservas de ouro. Na Alemanha, já tinha existido um repatriamento significativo entre 2013 e 2017, com mais de 600 toneladas transferidas de Nova Iorque para dentro do país, e o tema voltou a ser discutido, com os Verdes a defenderem o repatriamento do ouro ainda nos Estados Unidos. Em Itália, cerca de 43% das reservas encontram-se nos Estados Unidos e várias vozes da sociedade civil têm pedido o repatriamento. A França, por sua vez, repatriou o ouro que tinha em Nova Iorque em janeiro de 2025, citando questões técnicas. Em conjunto, Alemanha e Itália terão em Nova Iorque ouro no valor de cerca de 250 mil milhões de euros.
A desconfiança em relação à administração norte-americana, o comportamento errático de Donald Trump e o risco de sanções ou congelamento de ativos, exemplificado pelo caso dos ativos russos após a invasão da Ucrânia, têm alimentado estas discussões. A Índia repatriou ouro de Londres e da Suíça em 2024, enquanto a Venezuela tentou repatriar ouro do Reino Unido mas foi impedida por Londres.
Portugal, que está consistentemente no top 20 dos países com maiores reservas de ouro, avaliadas em mais de 45 mil milhões de euros no final de 2025, já não precisa de repatriar ouro. A última realocação relevante aconteceu em 2021, quando 3,7 toneladas foram transferidas da Reserva Federal de Nova Iorque para o Banco de França. Atualmente, cerca de 45% das reservas portuguesas estão em território nacional, 48% no Banco de Inglaterra e pequenas percentagens no BIS e no Banco de França. Desde setembro de 2006 que Portugal não vende ouro, tendo essa sido a última venda realizada no âmbito do Central Banks Gold Agreement.




