O novo Relatório da Democracia do V-Dem confirma que a democracia está em regressão. Em 2025, 44 países encontravam-se em processo de autocratização, incluindo democracias ocidentais como os Estados Unidos, a Itália e o Reino Unido. A democracia liberal enfrenta sinais de alarme que já não podem ser ignorados. O autor Miguel Freitas argumenta que não se trata de uma simples mudança no equilíbrio entre esquerda e direita, mas de uma mudança de terreno.
As redes sociais tornaram-se fontes privilegiadas de informação e permitiram ao populismo transformar questões complexas — imigração, segurança, género, diversidade, identidade nacional — em testes de pertença. A cultura passou a funcionar como fronteira que separa pessoas, não apenas ideias. O termo "woke" é descrito como uma palavra elástica que permite agrupar diversos conceitos sem necessidade de os discutir individualmente.
O autor alerta que há problemas reais por trás desta reação: a perda de confiança nas elites, a distância em relação às instituições, as tensões associadas à imigração e a sensação de que certas transformações culturais foram demasiado rápidas. Contudo, o problema agrava-se quando o medo impregna a discussão e eleger culpados se torna mais fácil do que encontrar soluções. A resposta iliberal já não se limita a contestar ideias — visa refazer o lugar das instituições, eliminando programas de diversidade, revertendo políticas de inclusão e apresentando universidades, meios de comunicação e organismos científicos como sistemas capturados a controlar ou desmantelar.
O relatório V-Dem identifica um padrão comum nos processos de autocratização: ataques à liberdade de expressão, pressão sobre a sociedade civil, enfraquecimento dos mecanismos de controlo do poder e erosão das instituições. Freitas adverte que os partidos moderados podem abrir caminho a estas forças quando, por medo de parecerem brandos, começam a adotar gestos aparentemente pequenos — suspeitas sobre a comunicação social, fronteiras mais duras, reversões em leis de identidade de género. Cada ação parece insignificante, mas é a soma que desloca o centro. A democracia raramente desaparece com estrondo — começa por parecer apenas menos necessária.
