Há uma indústria publicitária que se tornou tão comum na paisagem portuguesa que já quase ninguém a questiona. Trata-se dos grandes outdoors publicitários, os conhecidos 8x3, que ocupam rotundas, entradas de cidades, estradas e terrenos privados, frequentemente onde a lei não deveria permitir. O problema não é a existência de publicidade em si, mas a escala que atingiu e o desrespeito pelo espaço público, gerando uma forte poluição visual. Quando essa ocupação envolve licenças municipais, utilização de espaço público, fiscalização deficiente e dinheiro público, a questão deixa de ser meramente estética e passa a ser política.
O mundo da publicidade mudou radicalmente. Hoje uma empresa pode dirigir uma campanha a uma determinada faixa etária, numa determinada zona geográfica, durante um determinado período do dia, medir visualizações e alterar a mensagem quase instantaneamente. Um outdoor não faz nada disso. Está parado, ocupa espaço e repete a mesma mensagem para todos os que passam. O autor questiona quanto dinheiro está a ser gasto num modelo de publicidade exterior que já não corresponde à forma como as pessoas consomem informação e publicidade, e quem é que beneficia com este modelo.
Existe ainda uma questão de segurança associada a estas estruturas. Uma estrutura publicitária de grandes dimensões junto a uma rotunda, cruzamento ou entrada de cidade pode interferir com a visibilidade dos condutores e contribuir para a sua distração. As autarquias têm uma responsabilidade que não podem continuar a ignorar. O facto de existir um pedido de licença não significa que deva ser deferido, e o facto de uma estrutura pagar uma taxa não significa que seja adequada àquele lugar. O espaço público não existe para maximizar receitas de licenças, mas para servir os cidadãos.
O autor conclui que ser contra a proliferação dos outdoors não é ser contra as empresas de publicidade exterior. Quem explora comercialmente o espaço público deve cumprir regras claras, quem obtém uma licença deve cumprir as suas condições, e quem ocupa ilegalmente deve ser obrigado a sair. A cidade é património, paisagem, circulação, segurança, identidade e ambiente familiar. O caminho deveria ser travar a expansão de grandes estruturas, rever licenças, retirar progressivamente as que não fazem sentido e reforçar a fiscalização. A publicidade continuará a existir, mas a cidade não precisa de continuar a ser o suporte físico desse mercado.




