A reparação naval é um negócio de efeito sanfona. O primeiro semestre de 2024 foi muito lento, com muitos navios retidos no Golfo Pérsico e armadores a preferirem mantê-los no mar devido a fretes elevados. Agora, os certificados estão a expirar e os navios têm de entrar em doca seca para reparações e inspeções periódicas. A Lisnave, que trabalha para o mercado internacional, já está a recusar alguns pedidos por falta de disponibilidade de doca seca. Em Portugal, o mercado anual ronda os 250 a 300 milhões de euros, tendo atingido 273 milhões em 2024.
Portugal tem uma geografia privilegiada para este negócio, posicionado quase no meio do Atlântico no cruzamento de muitas rotas, com mais de 300 navios a passar diariamente pela costa portuguesa. O clima também favorece as operações, já que chover menos do que no Norte da Europa é uma vantagem para trabalhos como a pintura dos navios. A grande ameaça vem da Turquía, que está mais perto do canal do Suez e beneficia de mão de obra mais barata e apoios estatais. Ainda assim, a confiança nos estaleiros portugueses é considerada superior.
A rota do Árctico está a tornar-se uma alternativa com o degelo, com navios chineses já a utilizá-la, o que poderia afastar embarcações da costa portuguesa. Nuno Antunes dos Santos, que preside à área de manutenção, reparação e conversão naval da Sea Europe, alerta também para o peso das exigências ambientais europeias, que tornam a reparação mais cara na Europa e podem empurrar trabalhos para a Ásia. A solução, defende, não passa por baixar padrões europeus, mas por compensar quem escolhe reparar na Europa.
Há ainda uma escassez de trabalhadores especializados. Portugal forma bons engenheiros, mas não em número suficiente de soldadores, mecânicos ou pintores. A Lisnave tem uma escola e forma algumas dezenas por ano, pagando bolsas aos formandos, mas muitos partem para o estrangeiro. A Europa, após ter perdido grande parte da construção naval para a Ásia, arrisca perder também capacidade de reparação, aumentando ainda mais essa dependência.




